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Resenha de O Irmão Alemão, de Chico Buarque

por em 15/12/2014
ong>Entre o real e o ficcional, autor costura belo texto (mas com pouca emoção) Por Lucas Borges Teixeira  Sempre que Chico Buarque faz um novo trabalho, seja disco ou livro, os holofotes voltam-se para ele antes mesmo do lançamento. Não foi muito diferente com O Irmão Alemão (Companhia das Letras), mais recente livro do compositor, publicado em novembro deste ano. Desde Estorvo (1991), seu primeiro romance, Chico alterna um álbum de inéditas com um novo livro. O ponto de partida deste, por sua vez, é uma história pessoal que permeia a família Holanda desde a época em que ele e Miúcha eram crianças: o filho que seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, teve com uma namorada na época em que morou na Alemanha, entre a Primeira e a Segunda Guerra, antes de se casar e constituir a conhecida família no Brasil. Sem deixar muito claro o que é biografia e o que é criação, a narrativa traz um jovem que, em meio aos milhares de livros que seu pai (Sergio de Holander) tem por toda a casa, descobre uma carta em alemão que fala do caso. A partir dai, Ciccio (Francisco de Holander) fica obcecado pelo assunto e vai atrás de pistas sobre o paradeiro de Sergio Ernst. A precisa narrativa compõe uma bela imagem de São Paulo no final dos anos 60. Está tudo lá: o bar Riviera, o agito político e boêmio, a Rua Maria Antônia, que, à época, abrigava cursos de humanas da USP. O retrato é perfeito, mas pouco palpável. Conseguimos ver a metrópole, mas não conseguimos sentí-la. O endurecimento do Regime Militar é pano de fundo de grande parte da história. Tanto o irmão mais velho quanto o melhor amigo do protagonista se metem em problemas com o governo, mas tudo parece ser relatado sob uma névoa cinza, com certo desinteresse e afastamento. O mesmo acontece com os personagens. Sem a pretensão de julgar o que o autor pensa na criação (reprodução?) de cada um, as ideias interessantes acabam se tornando estereótipos: o pai intelectual e sério, a mãe italiana, a disputa entre os irmãos pela atenção do patriarca e das mulheres. Mais uma vez, conseguimos ver a todos, mas não conseguimos tocá-los. IRMAO-ALEMAO copy É interessante, no entanto, a sutileza com que a narrativa trata o tempo. Sem usar apenas recursos óbvios, como datas, o leitor acompanha o crescimento de Ciccio à medida que os capítulos passam. Mas cronologia, na verdade, é o que menos importa na obra. Passado, presente e futuro misturam-se na leitura e na imaginação do protagonista. Imaginação essa que, por sua vez, também se confunde com a "realidade”. Obstinado na busca pelo irmão desconhecido, o jovem persegue pistas às vezes falsas, mas que, na sua cabeça, trarão a verdade sobre o paradeiro do alemão. Se no Brasil (presente) o cenário é a ditadura militar, na Alemanha (passado) o que pega é o regime nazista. Em um dos momentos em que a biografia do autor mistura-se ao romance, há um documento escaneado - um entre tantos outros presentes - que solicita, em alemão, a comprovação da origem ariana de Sergio Ernst por parte de pai. Para evitar que seu filho sofresse represálias (campo de concentração, quem sabe), Sergio de Hollander deveria enviar certidões de nascimento da sua família para, basicamente, provar que não tem sangue judeu. A beleza e a precisão com que o autor brinca com o português são os pontos altos do livro. Não é nada fácil, afinal, falar da efervescência da juventude, usando palavras como “punheta”, “esporrada” e “caralho”, sem perder a elegância e sem ficar pedante. O texto é tão bem construído que dá prazer de ler. Mas o que sobra de grandeza gramatical rareia de emoção. Pode ser estranho falar que falta sentimento em algo do mesmo homem que escreveu “Eu Te Amo” e “Pedaço De Mim”, mas é exatamente (e apenas) disso que O Irmão Alemão carece. https://www.youtube.com/watch?v=0W4AOeUVqwI
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Resenha de O Irmão Alemão, de Chico Buarque

por em 15/12/2014
ong>Entre o real e o ficcional, autor costura belo texto (mas com pouca emoção) Por Lucas Borges Teixeira  Sempre que Chico Buarque faz um novo trabalho, seja disco ou livro, os holofotes voltam-se para ele antes mesmo do lançamento. Não foi muito diferente com O Irmão Alemão (Companhia das Letras), mais recente livro do compositor, publicado em novembro deste ano. Desde Estorvo (1991), seu primeiro romance, Chico alterna um álbum de inéditas com um novo livro. O ponto de partida deste, por sua vez, é uma história pessoal que permeia a família Holanda desde a época em que ele e Miúcha eram crianças: o filho que seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, teve com uma namorada na época em que morou na Alemanha, entre a Primeira e a Segunda Guerra, antes de se casar e constituir a conhecida família no Brasil. Sem deixar muito claro o que é biografia e o que é criação, a narrativa traz um jovem que, em meio aos milhares de livros que seu pai (Sergio de Holander) tem por toda a casa, descobre uma carta em alemão que fala do caso. A partir dai, Ciccio (Francisco de Holander) fica obcecado pelo assunto e vai atrás de pistas sobre o paradeiro de Sergio Ernst. A precisa narrativa compõe uma bela imagem de São Paulo no final dos anos 60. Está tudo lá: o bar Riviera, o agito político e boêmio, a Rua Maria Antônia, que, à época, abrigava cursos de humanas da USP. O retrato é perfeito, mas pouco palpável. Conseguimos ver a metrópole, mas não conseguimos sentí-la. O endurecimento do Regime Militar é pano de fundo de grande parte da história. Tanto o irmão mais velho quanto o melhor amigo do protagonista se metem em problemas com o governo, mas tudo parece ser relatado sob uma névoa cinza, com certo desinteresse e afastamento. O mesmo acontece com os personagens. Sem a pretensão de julgar o que o autor pensa na criação (reprodução?) de cada um, as ideias interessantes acabam se tornando estereótipos: o pai intelectual e sério, a mãe italiana, a disputa entre os irmãos pela atenção do patriarca e das mulheres. Mais uma vez, conseguimos ver a todos, mas não conseguimos tocá-los. IRMAO-ALEMAO copy É interessante, no entanto, a sutileza com que a narrativa trata o tempo. Sem usar apenas recursos óbvios, como datas, o leitor acompanha o crescimento de Ciccio à medida que os capítulos passam. Mas cronologia, na verdade, é o que menos importa na obra. Passado, presente e futuro misturam-se na leitura e na imaginação do protagonista. Imaginação essa que, por sua vez, também se confunde com a "realidade”. Obstinado na busca pelo irmão desconhecido, o jovem persegue pistas às vezes falsas, mas que, na sua cabeça, trarão a verdade sobre o paradeiro do alemão. Se no Brasil (presente) o cenário é a ditadura militar, na Alemanha (passado) o que pega é o regime nazista. Em um dos momentos em que a biografia do autor mistura-se ao romance, há um documento escaneado - um entre tantos outros presentes - que solicita, em alemão, a comprovação da origem ariana de Sergio Ernst por parte de pai. Para evitar que seu filho sofresse represálias (campo de concentração, quem sabe), Sergio de Hollander deveria enviar certidões de nascimento da sua família para, basicamente, provar que não tem sangue judeu. A beleza e a precisão com que o autor brinca com o português são os pontos altos do livro. Não é nada fácil, afinal, falar da efervescência da juventude, usando palavras como “punheta”, “esporrada” e “caralho”, sem perder a elegância e sem ficar pedante. O texto é tão bem construído que dá prazer de ler. Mas o que sobra de grandeza gramatical rareia de emoção. Pode ser estranho falar que falta sentimento em algo do mesmo homem que escreveu “Eu Te Amo” e “Pedaço De Mim”, mas é exatamente (e apenas) disso que O Irmão Alemão carece. https://www.youtube.com/watch?v=0W4AOeUVqwI