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Resenha de Os Outubros de Taiguara, de Janes Rocha

por em 07/11/2014
class="aligncenter size-full wp-image-9887" alt="outubros de taiguara" src="http://billboard.uol.com.br/wp-content/uploads/2014/11/outubros-de-taiguara.jpg" width="300" height="424" /> Relato precioso recupera a trajetória de Taiguara, uma vítima diferente do regime militar Por Maurício Amendola Emplacar um ou outro hit é garantia de duas coisas: haverá o momento dos louros do sucesso e também a exigência do próximo êxito. A história de Taiguara – contada no livro Os Outubros de Taiguara, de Janes Rocha – exemplifica bem essa via de duas mãos. Com a diferença que o cantor uruguaio de nascença e brasileiro de biografia foi impedido de testar grande parte de seu cancioneiro com o público. A censura do regime militar interrompeu o processo após um começo bastante popular. Taiguara nunca conseguiu ter o mesmo cartaz dos primeiros anos de carreira e morreu no ostracismo, em 1996, aos 50 anos. Projetado durante a segunda metade dos anos 1960, Taiguara encontrou espaço nas rádios brasileiras com sucessos românticos como “Hoje” e “O Universo No Teu Corpo”. Chegou a ter composições gravadas por nomes como Cauby Peixoto, Agnaldo Timóteo e Erasmo Carlos. Mas, quando se lançou às letras engajadas e subversivas, os milicos cortaram suas asas. O livro estima que Taiguara teve mais de 80 composições censuradas pelo regime militar. Um ponto defendido por Janes é que o cantor não se inseria nos movimentos musicais da época – como Jovem Guarda, Tropicália, Clube da Esquina ou de gente como Chico Buarque e Edu Lobo. Como conta João Gabriel de Lima no prefácio, Taiguara foi romântico quando todos eram políticos, e excessivamente político quando todos almejavam o pop. Libertário e marxista ferrenho a partir da década de 1970, foi censurado por versos que iam da subversão política ao questionamento dos costumes, passando por poesias sensuais, as quais o momento não admitia. Após o sucesso como cantor romântico, a exigência artística partiu do próprio Taiguara, que deu um salto de complexidade em sua obra, tanto nas letras quantos nos arranjos – era um pianista de mão cheia. O desgaste pela censura constante fez com que ele se autoexilasse em Londres. Ao retornar ao Brasil, lançou Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976). O álbum foi retirado das prateleiras em menos de 24 horas. A sensação que fica ao adentrarmos a trajetória de Taiguara é a de que ele é um caso especial na história da música brasileira. Sabe aquele papo de que a mão pesada dos censores impulsionou a criatividade dos artistas e fez com que eles até fossem mais procurados? “A censura é a mãe da metáfora”, diria o escritor argentino Jorge Luis Borges. Aqui, isso é falácia. Há um momento do livro no qual a autora diz que quem era censurado ganhava certo prestígio na intelectualidade da época. Com o biografado foi diferente. A obra de Taiguara foi completamente afastada do público. Seus jogos de palavras, figuras de linguagem e artimanhas para dobrar a censura nunca ganharam o status cool, o que aconteceu com Caetano e Chico. Talvez o cantor fosse menos genial do que seus pares ou até explícito demais em suas letras. O fato é que nunca saberemos que imagem caberia a ele no imaginário popular. Afinal, Taiguara praticamente não foi escutado. O outro motivo do caso ser distinto é que Taiguara pode ter se tornado um herói involuntário para seus colegas da MPB. Na condição de “carta marcada” do regime, ele funcionava como o famoso boi de piranha. Suas canções eram enviadas para a análise da censura sempre acompanhada de muitas outras. As dele eram censuradas, as outras passavam. Era como se a “cota” da repressão recaísse quase sempre sobre ele, imunizando os demais artistas. O livro de Janes Rocha é um serviço – e uma homenagem – sem precedentes à obra de Taiguara. Embora nunca tenha sido exilado, é fato que o músico incomodava e muito o regime, o que faz com que suas composições mereçam uma nova luz. Ele não está entre os cantores mais prestigiados de sua geração, nem entre os mais geniais, mas é provável que seja um dos mais históricos, levando em conta o sentido mais pleno da palavra. Sua aventura – ou como a ditadura a tornou quase entediante – é mais um dos fragmentos de um capítulo decisivo da vida política brasileira. Taiguara é um conto sobre a censura no Brasil. https://www.youtube.com/watch?v=pIhzO1RZj-U
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Resenha de Os Outubros de Taiguara, de Janes Rocha

por em 07/11/2014
class="aligncenter size-full wp-image-9887" alt="outubros de taiguara" src="http://billboard.uol.com.br/wp-content/uploads/2014/11/outubros-de-taiguara.jpg" width="300" height="424" /> Relato precioso recupera a trajetória de Taiguara, uma vítima diferente do regime militar Por Maurício Amendola Emplacar um ou outro hit é garantia de duas coisas: haverá o momento dos louros do sucesso e também a exigência do próximo êxito. A história de Taiguara – contada no livro Os Outubros de Taiguara, de Janes Rocha – exemplifica bem essa via de duas mãos. Com a diferença que o cantor uruguaio de nascença e brasileiro de biografia foi impedido de testar grande parte de seu cancioneiro com o público. A censura do regime militar interrompeu o processo após um começo bastante popular. Taiguara nunca conseguiu ter o mesmo cartaz dos primeiros anos de carreira e morreu no ostracismo, em 1996, aos 50 anos. Projetado durante a segunda metade dos anos 1960, Taiguara encontrou espaço nas rádios brasileiras com sucessos românticos como “Hoje” e “O Universo No Teu Corpo”. Chegou a ter composições gravadas por nomes como Cauby Peixoto, Agnaldo Timóteo e Erasmo Carlos. Mas, quando se lançou às letras engajadas e subversivas, os milicos cortaram suas asas. O livro estima que Taiguara teve mais de 80 composições censuradas pelo regime militar. Um ponto defendido por Janes é que o cantor não se inseria nos movimentos musicais da época – como Jovem Guarda, Tropicália, Clube da Esquina ou de gente como Chico Buarque e Edu Lobo. Como conta João Gabriel de Lima no prefácio, Taiguara foi romântico quando todos eram políticos, e excessivamente político quando todos almejavam o pop. Libertário e marxista ferrenho a partir da década de 1970, foi censurado por versos que iam da subversão política ao questionamento dos costumes, passando por poesias sensuais, as quais o momento não admitia. Após o sucesso como cantor romântico, a exigência artística partiu do próprio Taiguara, que deu um salto de complexidade em sua obra, tanto nas letras quantos nos arranjos – era um pianista de mão cheia. O desgaste pela censura constante fez com que ele se autoexilasse em Londres. Ao retornar ao Brasil, lançou Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976). O álbum foi retirado das prateleiras em menos de 24 horas. A sensação que fica ao adentrarmos a trajetória de Taiguara é a de que ele é um caso especial na história da música brasileira. Sabe aquele papo de que a mão pesada dos censores impulsionou a criatividade dos artistas e fez com que eles até fossem mais procurados? “A censura é a mãe da metáfora”, diria o escritor argentino Jorge Luis Borges. Aqui, isso é falácia. Há um momento do livro no qual a autora diz que quem era censurado ganhava certo prestígio na intelectualidade da época. Com o biografado foi diferente. A obra de Taiguara foi completamente afastada do público. Seus jogos de palavras, figuras de linguagem e artimanhas para dobrar a censura nunca ganharam o status cool, o que aconteceu com Caetano e Chico. Talvez o cantor fosse menos genial do que seus pares ou até explícito demais em suas letras. O fato é que nunca saberemos que imagem caberia a ele no imaginário popular. Afinal, Taiguara praticamente não foi escutado. O outro motivo do caso ser distinto é que Taiguara pode ter se tornado um herói involuntário para seus colegas da MPB. Na condição de “carta marcada” do regime, ele funcionava como o famoso boi de piranha. Suas canções eram enviadas para a análise da censura sempre acompanhada de muitas outras. As dele eram censuradas, as outras passavam. Era como se a “cota” da repressão recaísse quase sempre sobre ele, imunizando os demais artistas. O livro de Janes Rocha é um serviço – e uma homenagem – sem precedentes à obra de Taiguara. Embora nunca tenha sido exilado, é fato que o músico incomodava e muito o regime, o que faz com que suas composições mereçam uma nova luz. Ele não está entre os cantores mais prestigiados de sua geração, nem entre os mais geniais, mas é provável que seja um dos mais históricos, levando em conta o sentido mais pleno da palavra. Sua aventura – ou como a ditadura a tornou quase entediante – é mais um dos fragmentos de um capítulo decisivo da vida política brasileira. Taiguara é um conto sobre a censura no Brasil. https://www.youtube.com/watch?v=pIhzO1RZj-U