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Rio se mistura à Bahia em show que Caetano apresenta Teresa Cristina

Resenha: Baiano e carioca levantam até o público mais morno em São Paulo

Caetano Veloso e Teresa Cristina – 17 de novembro – Espaço das Américas, São Paulo

Ele sobe ao palco calmamente, de terno vinho. O público se levanta, aplaude, solta alguns gritos de “Lindo!”. Sozinho e sem algum instrumento, vai ao microfone e começa um pequeno discurso de introdução. Solene, Caetano Veloso não está ali para cantar, mas para apresentar o show de Teresa Cristina. “Eu, que era um espectador, resolvi rodar com ela pelo mundo”, declarou. Como bom anfitrião, saiu de forma discreta.

A cantora subiu ao palco com uma forte versão de “O Mundo É Um Moinho”. A música que Cartola compôs para a filha abre o álbum “Teresa Cristina Canta Cartola”, produzido pelo selo americano Nonesuch e lançado digitalmente pela Uns Produções, de Caetano. Embalada pelo belíssimo violão de Carlinhos 7 Cordas, a apresentação de quase quarenta minutos, com nove clássicos do sambista, teve direito a versão feminina de “Tive Sim” e interpretação dramática de “Sala de Recepção”. “Tem mangueirense aí? Pois é, sou Portela. Se alguém gravar ou fizer meme, vai ser processado, eu avisei”, brincou, em referência à música do compositor em homenagem à Mangueira.

Carismática e elegante, Teresa busca interação do público, surpreendentemente morno, que ouvia em silêncio “Corra E Olhe O Céu” e “Alvorada”. A resposta aos esforços da cantora só chegou em “As Rosas Não Falam”, primeira realmente cantada pela plateia, que fecha a primeira metade do show. Sorridente, ela agradece e faz as vezes de apresentadora. “Ele é foda”, afirma, ao chamar Caetano. Como no primeiro momento, o músico baiano entrou silencioso. Sem muita conversa, engatou “Um Índio”, “Os Passistas”, “Luz Do Sol” e “Meu Bem, Meu Mal”. O público já estava mais aquecido, mas o compositor estava quieto, quase protocolar. Por um momento, deu-se a impressão de que o show era só de Teresa e Caetano estava lá mais para apresentá-lo mesmo.

Não demorou muito para ele virar o jogo. Depois de se entregar em “Cuccuruccu Paloma”, que interpreta no filme Fale Com Ela (2004), de Pedro Almodóvar, Caetano voltou à conexão entre música e interpretação, que lhe é peculiar. “Reconvexo”, a seguinte, já tinha outro clima.

Para ser um show completo de Caetano Veloso, no entanto, faltava conversar com o público. Tardou, mas não faltou. “Essa eu canto à capela porque gravei assim. Até sei tocar no violão, mas não tão bem”, explicou-se depois de entoar “Love For Sale”, famosa na voz de Ella Fitzgerald e gravada por ele em A Foeign Sound (2004). “Que letra bonita, isso justifica a música popular americana ter ganhado o Prêmio Nobel. Mas Bob Dylan disse que nem vai pegar... Isso é muito interessante”, continuou, rindo.

O repertório misturou músicas que geralmente não estão em seus shows, como “Esse Cara”, “Tá Combinado” e “Bahia, Minha Preta “ e outras populares, caso de “Força Estranha”, “A Luz De Tieta” e “Sozinho”, de Peninha. “Quis fazer um repertório que não batesse com o show que estou fazendo com o Gil. Não sabia se ia ter música, mas fui olhar e achei”, explicou-se, em tom bem-humorado.

Quando tocou “Enquanto Seu lobo Não Vem”, do Tropicália ou Panis et Circencis (1968), explicou que esta é uma música sobre passeadas (“o que vocês hoje chamam de manifestações”). Parte da plateia reagiu com “Fora Temer”, grito antes descolado e perdido entre uma música e outra. “Eu gosto muito, muito dela. É um convite às ruas, é uma música sobre medo.”

Caetano ficou uma hora e vinte no palco até chamar a sambista para o terceiro ato. Os três fazerem juntos os momentos mais bonitos da noite com as versões acústicas de "Tigresa", "Miragem de Carnaval", “Como 2 e 2” e “Desde que o Samba É Samba”.

Sempre provocador, ainda impressiona a força que Caetano Veloso tem ao conduzir um espetáculo. Em uma época tão pragmática como a atual, ele reúne todo tipo de público sem perder o controle por um segundo. Teresa Cristina não deixa por menos e sua carismática presença de palco chega até a maquiar a frieza do público paulistano. A noite acabou com “Odara”. O que mais poderia se esperar da união entre a música baiana e o samba carioca?

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Rio se mistura à Bahia em show que Caetano apresenta Teresa Cristina

Resenha: Baiano e carioca levantam até o público mais morno em São Paulo

por Lucas Borges Teixeira em 18/11/2016

Caetano Veloso e Teresa Cristina – 17 de novembro – Espaço das Américas, São Paulo

Ele sobe ao palco calmamente, de terno vinho. O público se levanta, aplaude, solta alguns gritos de “Lindo!”. Sozinho e sem algum instrumento, vai ao microfone e começa um pequeno discurso de introdução. Solene, Caetano Veloso não está ali para cantar, mas para apresentar o show de Teresa Cristina. “Eu, que era um espectador, resolvi rodar com ela pelo mundo”, declarou. Como bom anfitrião, saiu de forma discreta.

A cantora subiu ao palco com uma forte versão de “O Mundo É Um Moinho”. A música que Cartola compôs para a filha abre o álbum “Teresa Cristina Canta Cartola”, produzido pelo selo americano Nonesuch e lançado digitalmente pela Uns Produções, de Caetano. Embalada pelo belíssimo violão de Carlinhos 7 Cordas, a apresentação de quase quarenta minutos, com nove clássicos do sambista, teve direito a versão feminina de “Tive Sim” e interpretação dramática de “Sala de Recepção”. “Tem mangueirense aí? Pois é, sou Portela. Se alguém gravar ou fizer meme, vai ser processado, eu avisei”, brincou, em referência à música do compositor em homenagem à Mangueira.

Carismática e elegante, Teresa busca interação do público, surpreendentemente morno, que ouvia em silêncio “Corra E Olhe O Céu” e “Alvorada”. A resposta aos esforços da cantora só chegou em “As Rosas Não Falam”, primeira realmente cantada pela plateia, que fecha a primeira metade do show. Sorridente, ela agradece e faz as vezes de apresentadora. “Ele é foda”, afirma, ao chamar Caetano. Como no primeiro momento, o músico baiano entrou silencioso. Sem muita conversa, engatou “Um Índio”, “Os Passistas”, “Luz Do Sol” e “Meu Bem, Meu Mal”. O público já estava mais aquecido, mas o compositor estava quieto, quase protocolar. Por um momento, deu-se a impressão de que o show era só de Teresa e Caetano estava lá mais para apresentá-lo mesmo.

Não demorou muito para ele virar o jogo. Depois de se entregar em “Cuccuruccu Paloma”, que interpreta no filme Fale Com Ela (2004), de Pedro Almodóvar, Caetano voltou à conexão entre música e interpretação, que lhe é peculiar. “Reconvexo”, a seguinte, já tinha outro clima.

Para ser um show completo de Caetano Veloso, no entanto, faltava conversar com o público. Tardou, mas não faltou. “Essa eu canto à capela porque gravei assim. Até sei tocar no violão, mas não tão bem”, explicou-se depois de entoar “Love For Sale”, famosa na voz de Ella Fitzgerald e gravada por ele em A Foeign Sound (2004). “Que letra bonita, isso justifica a música popular americana ter ganhado o Prêmio Nobel. Mas Bob Dylan disse que nem vai pegar... Isso é muito interessante”, continuou, rindo.

O repertório misturou músicas que geralmente não estão em seus shows, como “Esse Cara”, “Tá Combinado” e “Bahia, Minha Preta “ e outras populares, caso de “Força Estranha”, “A Luz De Tieta” e “Sozinho”, de Peninha. “Quis fazer um repertório que não batesse com o show que estou fazendo com o Gil. Não sabia se ia ter música, mas fui olhar e achei”, explicou-se, em tom bem-humorado.

Quando tocou “Enquanto Seu lobo Não Vem”, do Tropicália ou Panis et Circencis (1968), explicou que esta é uma música sobre passeadas (“o que vocês hoje chamam de manifestações”). Parte da plateia reagiu com “Fora Temer”, grito antes descolado e perdido entre uma música e outra. “Eu gosto muito, muito dela. É um convite às ruas, é uma música sobre medo.”

Caetano ficou uma hora e vinte no palco até chamar a sambista para o terceiro ato. Os três fazerem juntos os momentos mais bonitos da noite com as versões acústicas de "Tigresa", "Miragem de Carnaval", “Como 2 e 2” e “Desde que o Samba É Samba”.

Sempre provocador, ainda impressiona a força que Caetano Veloso tem ao conduzir um espetáculo. Em uma época tão pragmática como a atual, ele reúne todo tipo de público sem perder o controle por um segundo. Teresa Cristina não deixa por menos e sua carismática presença de palco chega até a maquiar a frieza do público paulistano. A noite acabou com “Odara”. O que mais poderia se esperar da união entre a música baiana e o samba carioca?