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Ronald Rios resenha o álbum do rapper Wzy: “A mixagem é uma das melhores do rap nacional”

Trabalho mescla funk, rap romântico e música “pra dançar”

por Ronald Rios em 22/09/2016

O rapper Wzy, 25, está há muitos anos na correria - e piração - que é se dedicar 100% a música. No meio do caminho entre um aspirante e uma lenda há várias possibilidades. Veja assim: muitos MCs escolhem se manter fiéis a um estilo de rap menos pasteurizado enquanto outros abrem os olhos pro pop e eventualmente decepcionam a sua base de fãs, na tentativa de conquistar um outro público, mais amplo e menos exigente. Aí você está numa sinuca de bico. Damn if you do, damn if you don’t. O Wzy escolheu agarrar um pouco dos dois mundos no Visão Noturna, seu novo disco.

E como funcionou? O álbum tem umas quatro ou cinco faixas de maior apelo comercial, seja na construção melódica, seja na temática - às vezes mais romântica ou de pura tiração de onda -, ou potencial para fazer servir como trilha para pista de dança.

A progressão melódica do refrão da primeira música, “Nem Melhor nem Pior” é pop. O “clap clap clap” de fundo é comum entre as Rihannas e os Futures. Mas o beat é tão pesado, guiando o flow do Wzy cheio de variações e inflexão vocal, que você logo entende: isso é pop - e de qualidade. A mixagem é uma das melhores do rap nacional.

“A INDÚSTRIA FONOGRÁFICA BRASILEIRA É MUITO INJUSTA”, DIZ DEXTER

Depois surgem três “love-songs”. “Deixa Ela” é aquele som pra gatinha curtir na pista - ou ouvir pensando na gatinha que está na pista curtindo, se você for mais devagar e não tiver passado aquele xaveco. Você vai pirar no sintetizador e no speedflow do Wzy. “Controle” é o som para ouvir com a gatinha. E eu vou respeitar sempre que um MC fizer uma música de amor e colocar uma linha como “Abra a sua mente tipo Kurt Cobain”. O fato de não ser uma música “engraçada sobre amor”, mas sim conter uma punchline de humor negro assim traz um nível agridoce que me agrada muito. RIP Kurt Cobain. Fechando a trilogia “romântica”, tem “Se Você Quiser”. Nesse momento eu dei uma leve cansada do tema. Seria melhor ter ficado com as duas primeiras, que conseguem dobrar até a pessoa mais sisuda.

“Falo Nada” é uma das minhas faixas favoritas - não do disco, nem do Wzy, mas do ano. Ele pegou a simplicidade do funk carioca - hoje “funk da baixada santista” - e colocou o peso que anos de experiência em produção de rap deram a ele. Junta isso a um flow meticuloso e um refrão simples e não é difícil imaginar vários MCs de funk mandando um Whatsapp para pedir ajuda do Wzy pro próximo som. O melhor funk do ano é de um rapper.

“Meu Time”, com participação do Rapper Dimenor é gastação de onda da galera. Música para rodar de carro com os migo e as miga. Vem seguida de “Homem Bomba”, a última faixa da primeira parte do disco - a parte mais pop - com featuring do Mussoumano. O braggadocio rola solto em forma de punchs afiadas: “Sua roupa não te faz um MC, escuta isso aqui, eu escrevi eu tava de pijama".

Agora (fingindo que a gente tá ouvido na vitrola), você vai pro lado B do disco, que já abre com FDSVC (algo como “Vai… plantar batatas vocês! Mas mais sujo), com uma melodia sombria, um beat pesado cheio de cymbal e uma letra raivosa contando sua história desde adolescente. Wzy versa sobre a vontade de vencer, do sabor azedo da vida, a importância do conhecimento. É facilmente minha música favorita, aquela que eu começo a cantar sozinho no chuveiro. Aos 2:23 ele inicia um speedflow que você joga as compras pro alto.

EDI ROCK: “OS GRUPOS NOVOS ESTÃO SEM MEDO DE CRIAR”

Na sequência, a sinistra “Bloco De Notas”. O Wzy mais amigável do começo do disco nem de longe lembra o cara rimando nessa faixa. Saca um trecho, cheio de multi silábicas:

“Wzy, rap foda tipo Edy Rock
Flow pesado na sua cabeça até parece mais com um dread-lock
Ideia de vagabundo, então cê sabe, tru, que né de lóki
Eu tenho a levada e o discurso inteligente tipo Ted Talks”.

Ao leitor que não conhece direito o termo, as tais “multi” são um desafio a mais pro MC, que não rima só as palavras finais das frases, mas tenta manter duas ou mais sílabas rimando, normalmente pegando mais palavras pra atingir esse objetivo. Isso torna o rap mais rico e complexo. Jay-Z, Eminem, Method Man e Tyler The Creator são bastante obcecados por isso. E não são os melhores à toa. Dá trabalho, mas compensa.

Tem uma frase nesse rap que é assim: “Mesmo enxergando mal, eu sou um visionário”. Nem todo mundo sabe disso, mas o Wzy tem um problema de visão (bastante) severo que acabou sendo parte do processo de composição do álbum. Embora a música chame “Bloco de Notas”, como não enxerga bem, o Wzy compõe boa parte das suas letras na cabine de gravação. Ele ouve os beats, cria umas linhas e grava. Re-ouve o beat, cria mais rimas e vai gravando até completar os versos.

“Vizinhos” poderia estar na parte pop do disco. Pancadão pesado e tiração de onda.

“Família” é um som da crew do Wzy, Dogz. Eu não sou muito fã desse refrão de auto-tune. Isso deveria ter morrido em 2008, quando o T-Pain estava fazendo. Melhor, 1998, quando a Cher gravou “Believe” com esse maldito recurso. Akan e Wzy têm os melhores versos - não coincidentemente, abrem e fecham a faixa. E mesmo com minha implicância com o refrão, não dá para não pirar com o Wzy rimando a 100 km/h quando chega a hora dele.

“Correria PT II” é a única faixa não produzida pelo Wzy, mas sim pelo experiente Insane Tracks. Foi interessante ver o Wzy rimando numa produção alheia. Essa faixa - e a do funk - resumem um pouco do espírito do disco, no que diz respeito a temática: você pode usar as palavras e experiências do rapper para sua própria vida, como música motivacional para sua jornada, sua correria. Você não precisa calçar os sapatos e viver os problemas dele para se relacionar com sua poesia.

Fechando a bolacha - adoro essa expressão, embora não faça mais o menor sentido - vem “SQP”, acrônimo para “Só Quero Paz”, em que Wzy abre um lado mais confessional e filosófico. Para quem, como eu, ama rap uns raps mais deprê, é o que liga. Uma das minhas favoritas do disco, de longe.

Resumindo o pagode: um dos discos mais meticulosos e bem feitos do ano - desde composição até mixagem. Eu há muitos anos gosto bastante das produções e letras do Wzy, então quando soube que o projeto iria ter uma pegada pop, confesso que fiquei meio preocupado. Mas ele tirou um coelho e tanto da cartola. O disco tem potencial para as Transaméricas e para as quebradas. Tem momentos em que usa de recursos pop um tanto batidos, mas ainda assim com grande originalidade lírica. Quando tenta abraçar um público maior, Wzy consegue fazer música para isso sem se sujar muito com o pop. E quando não está preocupado em agradar absolutamente ninguém, é quando Wzy se encontra na ponta dos cascos. Um baita álbum, rolando no repeat constante aqui em casa.

Nota do autor: o disco tem duas vinhetas - que eu acabei sendo convidado para gravar depois que o álbum estava pronto - que ajudam a setar a coisa do lado A e lado B. Fora isso, não tive nenhum envolvimento com o álbum até o dia que recebi o link do WeTransfer com ele pronto no e-mail. O que eu gostei, gostei. O que não gostei, não gostei. Aquele abraço e viva ao rap nacional.

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Ronald Rios é apresentador, roteirista e repórter - e um fissurado por rap nacional.

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Trabalho mescla funk, rap romântico e música “pra dançar”

por Ronald Rios em 22/09/2016

O rapper Wzy, 25, está há muitos anos na correria - e piração - que é se dedicar 100% a música. No meio do caminho entre um aspirante e uma lenda há várias possibilidades. Veja assim: muitos MCs escolhem se manter fiéis a um estilo de rap menos pasteurizado enquanto outros abrem os olhos pro pop e eventualmente decepcionam a sua base de fãs, na tentativa de conquistar um outro público, mais amplo e menos exigente. Aí você está numa sinuca de bico. Damn if you do, damn if you don’t. O Wzy escolheu agarrar um pouco dos dois mundos no Visão Noturna, seu novo disco.

E como funcionou? O álbum tem umas quatro ou cinco faixas de maior apelo comercial, seja na construção melódica, seja na temática - às vezes mais romântica ou de pura tiração de onda -, ou potencial para fazer servir como trilha para pista de dança.

A progressão melódica do refrão da primeira música, “Nem Melhor nem Pior” é pop. O “clap clap clap” de fundo é comum entre as Rihannas e os Futures. Mas o beat é tão pesado, guiando o flow do Wzy cheio de variações e inflexão vocal, que você logo entende: isso é pop - e de qualidade. A mixagem é uma das melhores do rap nacional.

“A INDÚSTRIA FONOGRÁFICA BRASILEIRA É MUITO INJUSTA”, DIZ DEXTER

Depois surgem três “love-songs”. “Deixa Ela” é aquele som pra gatinha curtir na pista - ou ouvir pensando na gatinha que está na pista curtindo, se você for mais devagar e não tiver passado aquele xaveco. Você vai pirar no sintetizador e no speedflow do Wzy. “Controle” é o som para ouvir com a gatinha. E eu vou respeitar sempre que um MC fizer uma música de amor e colocar uma linha como “Abra a sua mente tipo Kurt Cobain”. O fato de não ser uma música “engraçada sobre amor”, mas sim conter uma punchline de humor negro assim traz um nível agridoce que me agrada muito. RIP Kurt Cobain. Fechando a trilogia “romântica”, tem “Se Você Quiser”. Nesse momento eu dei uma leve cansada do tema. Seria melhor ter ficado com as duas primeiras, que conseguem dobrar até a pessoa mais sisuda.

“Falo Nada” é uma das minhas faixas favoritas - não do disco, nem do Wzy, mas do ano. Ele pegou a simplicidade do funk carioca - hoje “funk da baixada santista” - e colocou o peso que anos de experiência em produção de rap deram a ele. Junta isso a um flow meticuloso e um refrão simples e não é difícil imaginar vários MCs de funk mandando um Whatsapp para pedir ajuda do Wzy pro próximo som. O melhor funk do ano é de um rapper.

“Meu Time”, com participação do Rapper Dimenor é gastação de onda da galera. Música para rodar de carro com os migo e as miga. Vem seguida de “Homem Bomba”, a última faixa da primeira parte do disco - a parte mais pop - com featuring do Mussoumano. O braggadocio rola solto em forma de punchs afiadas: “Sua roupa não te faz um MC, escuta isso aqui, eu escrevi eu tava de pijama".

Agora (fingindo que a gente tá ouvido na vitrola), você vai pro lado B do disco, que já abre com FDSVC (algo como “Vai… plantar batatas vocês! Mas mais sujo), com uma melodia sombria, um beat pesado cheio de cymbal e uma letra raivosa contando sua história desde adolescente. Wzy versa sobre a vontade de vencer, do sabor azedo da vida, a importância do conhecimento. É facilmente minha música favorita, aquela que eu começo a cantar sozinho no chuveiro. Aos 2:23 ele inicia um speedflow que você joga as compras pro alto.

EDI ROCK: “OS GRUPOS NOVOS ESTÃO SEM MEDO DE CRIAR”

Na sequência, a sinistra “Bloco De Notas”. O Wzy mais amigável do começo do disco nem de longe lembra o cara rimando nessa faixa. Saca um trecho, cheio de multi silábicas:

“Wzy, rap foda tipo Edy Rock
Flow pesado na sua cabeça até parece mais com um dread-lock
Ideia de vagabundo, então cê sabe, tru, que né de lóki
Eu tenho a levada e o discurso inteligente tipo Ted Talks”.

Ao leitor que não conhece direito o termo, as tais “multi” são um desafio a mais pro MC, que não rima só as palavras finais das frases, mas tenta manter duas ou mais sílabas rimando, normalmente pegando mais palavras pra atingir esse objetivo. Isso torna o rap mais rico e complexo. Jay-Z, Eminem, Method Man e Tyler The Creator são bastante obcecados por isso. E não são os melhores à toa. Dá trabalho, mas compensa.

Tem uma frase nesse rap que é assim: “Mesmo enxergando mal, eu sou um visionário”. Nem todo mundo sabe disso, mas o Wzy tem um problema de visão (bastante) severo que acabou sendo parte do processo de composição do álbum. Embora a música chame “Bloco de Notas”, como não enxerga bem, o Wzy compõe boa parte das suas letras na cabine de gravação. Ele ouve os beats, cria umas linhas e grava. Re-ouve o beat, cria mais rimas e vai gravando até completar os versos.

“Vizinhos” poderia estar na parte pop do disco. Pancadão pesado e tiração de onda.

“Família” é um som da crew do Wzy, Dogz. Eu não sou muito fã desse refrão de auto-tune. Isso deveria ter morrido em 2008, quando o T-Pain estava fazendo. Melhor, 1998, quando a Cher gravou “Believe” com esse maldito recurso. Akan e Wzy têm os melhores versos - não coincidentemente, abrem e fecham a faixa. E mesmo com minha implicância com o refrão, não dá para não pirar com o Wzy rimando a 100 km/h quando chega a hora dele.

“Correria PT II” é a única faixa não produzida pelo Wzy, mas sim pelo experiente Insane Tracks. Foi interessante ver o Wzy rimando numa produção alheia. Essa faixa - e a do funk - resumem um pouco do espírito do disco, no que diz respeito a temática: você pode usar as palavras e experiências do rapper para sua própria vida, como música motivacional para sua jornada, sua correria. Você não precisa calçar os sapatos e viver os problemas dele para se relacionar com sua poesia.

Fechando a bolacha - adoro essa expressão, embora não faça mais o menor sentido - vem “SQP”, acrônimo para “Só Quero Paz”, em que Wzy abre um lado mais confessional e filosófico. Para quem, como eu, ama rap uns raps mais deprê, é o que liga. Uma das minhas favoritas do disco, de longe.

Resumindo o pagode: um dos discos mais meticulosos e bem feitos do ano - desde composição até mixagem. Eu há muitos anos gosto bastante das produções e letras do Wzy, então quando soube que o projeto iria ter uma pegada pop, confesso que fiquei meio preocupado. Mas ele tirou um coelho e tanto da cartola. O disco tem potencial para as Transaméricas e para as quebradas. Tem momentos em que usa de recursos pop um tanto batidos, mas ainda assim com grande originalidade lírica. Quando tenta abraçar um público maior, Wzy consegue fazer música para isso sem se sujar muito com o pop. E quando não está preocupado em agradar absolutamente ninguém, é quando Wzy se encontra na ponta dos cascos. Um baita álbum, rolando no repeat constante aqui em casa.

Nota do autor: o disco tem duas vinhetas - que eu acabei sendo convidado para gravar depois que o álbum estava pronto - que ajudam a setar a coisa do lado A e lado B. Fora isso, não tive nenhum envolvimento com o álbum até o dia que recebi o link do WeTransfer com ele pronto no e-mail. O que eu gostei, gostei. O que não gostei, não gostei. Aquele abraço e viva ao rap nacional.

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Ronald Rios é apresentador, roteirista e repórter - e um fissurado por rap nacional.