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“Se você trabalhou, você tem que ser pago. Isso é comércio justo”, diz Jay Z sobre o Tidal

por em 31/03/2015

tyle="text-align: left;" align="center">Por Tony Gervino

Jay Z não dá muitas entrevistas. Quando elas acontecem, ele frequentemente para no meio das frases, reconsidera e molda sua resposta, escolhendo uma palavra mais apropriada ou uma analogia mais certeira. O que geralmente é encarado como desconfiança, pode ser apenas seu jeito de pensar bem antes de responder, afinal, diferente do seu trabalho no palco, o rapper não pode controlar o resultado final de uma entrevista. Poucos dias antes do lançamento oficial de seu serviço de streaming de música, ontem (30/03), Jay Z conversou com a Billboard para explicar porque fez uma compra que foi recebida com tantas suspeitas pela indústria. Apesar de ser difícil achar que uma empresa nova, com apenas 500 mil inscritos e que cobra o dobro do preço dos concorrentes por um serviço de alta definição pudesse competir com gigantes como Spotify (60 milhões de inscritos, dos quais 15 milhões são pagos) e Beats Music, que será relançado em breve, é preciso considerar a possibilidade de que o Tidal não esteja necessariamente atrelado a um esquema de dinheiro rápido. De acordo com Jay Z, e a julgar pela campanha #TIDALforALL, que dominou as redes sociais ontem, seu objetivo principal é mudar um sistema de compensação defeituoso. Nenhum dos top artistas que se juntaram ao projeto – Kanye West, Nicki Minaj, Beyoncé, Rihanna, Madonna, Calvin Harris, Daft Punk, Jack White, Arcade Fire, Usher, Coldplay, Alicia Keys, Calvin Harris, deadmau5, Jason Aldean e J Cole,  todos com a mesma porção da empresa – precisa de dinheiro, o que os torna os melhores divulgadores da mensagem: eles estão cansados dos baixos valores que recebem dos serviços de streaming.   Billboard: Quando você teve a ideia de entrar no ramo de streaming? Jay Z: Um ano e meio atrás. Nós vimos o movimento e como tudo estava indo e percebemos que esse pode ser o último formato musical que vamos ver na vida. Nós não gostávamos da direção que a música estava tomando e pensamos que, talvez, pudéssemos entrar, dar um golpe honesto e, você sabe, o mínimo que fizemos foi fazer com que as pessoas acordassem e tentassem melhorar o sistema gratuito em relação ao pago, promovendo um comércio justo, ou seja, nós ganharíamos de qualquer jeito.   B: Músicos vêm reclamando há um muito tempo que o streaming desvalorizou a música. Não parece que você está motivado apenas pelas questões financeiras, mas também pela vontade de reestabelecer o valor da música. JZ: É isso mesmo, e quando eu falei com cada uma das pessoas envolvidas, foi isso que eu disse. A música é… imagine a sua vida sem música. É uma parte valiosa da sua vida e, como eu disse, é por isso que entramos nesse ramo. As pessoas não estão respeitando a música e a estão desvalorizando, assim como desvalorizando o que ela significa. As pessoas acham que a música é de graça, mas pagam US$ 6 por água. Você pode beber água de graça da torneira, e é uma boa água. Mas as pessoas ainda pagam por ela. B: Em alguns aspectos, a música pode não ter preço e ainda assim ter valor. JZ: Sim. As experiências que eu tive, crescendo com a música, eu não trocaria por nenhum dinheiro no mundo. Dançando na sala de estar ao som de “Enjoy Yourself”, de Michael Jackson. Esses momentos de alegria não têm preço, como você disse. B: Alguém com a sua relevância poderia argumentar com outros serviços de streaming. Você tentou fazer isso antes de começar seu próprio negócio? JZ: Sim, nós falamos com todos os serviços e exploramos todas as alternativas, inclusive criar uma marca com um serviço. Mas, no final das contas, nós percebemos que se vamos moldar isso como queremos, então temos que ter independência. E essa se tornou uma proposta melhor para nós – apesar de não ser fácil. B: A sua lista de parceiros é bem surpreendente. Como você conseguiu envolvê-los? Você simplesmente argumentou que essa era uma chance de virar a maré? JZ: Foi mais ou menos isso. Eu falei com todo mundo sobre música e sobre o que eles gostariam de ver em um serviço. E como gostariam que isso funcionasse. Eu queria saber se eles estavam dispostos a arriscar, já que o nome de todo mundo está atrelado ao projeto e suas reputações também. E eu acredito que, enquanto estivermos no lado da razão, e estamos nisso pelos motivos certos, dará certo. É uma grande oportunidade para todos – não é algo que pertença a uma pessoa. Isso não seria justo, não seria um processo democrático e não é a ideia por trás de tudo. B: Outro objetivo seu é se certificar de que os lucros passem pela cadeia alimentar, chegando até os criadores de conteúdo, não é? JZ: Com certeza. Alguém como eu, por exemplo, pode fazer uma turnê. Mas e as outras pessoas que trabalharam no álbum? Se elas não forem compensadas da maneira correta, nós perderemos compositores, produtores e outros profissionais que dependem de um comércio justo. Alguns provavelmente teriam que arrumar outro emprego. É justo? Não. Se você trabalhou, você tem que ser pago. Isso é comércio justo. É o que construiu nosso país. O que eu quero dizer é que os produtores e as demais pessoas que trabalham no ramo da música estão sendo excluídos – a partir daí, a coisa começa a virar criminosa. É como você trabalhar duro e não receber. Em outros setores, as pessoas estariam diante do Congresso. Eles têm leis trabalhistas para lutar contra esse tipo de comportamento. O que parece é que, quando é aplicado à música, ninguém se importa com as infrações. É tão desorganizado, tão desconectado da realidade. B: Você acha que os vídeos serão um grande diferencial em relação aos outros serviços de streaming? JZ: Com certeza é um diferencial, e nós teremos vídeos de alta qualidade. B: O que você espera que aconteça a partir de hoje, após o lançamento oficial ontem? JZ: Que artistas venham pra cá e comecem a fazer músicas de 18 minutos, ou sei lá. Eu sei que vai parecer loucura, mas talvez eles comecem a tentar fazer uma “Like A Rolling Stone”, sabe, uma música que não tenha um gancho muito reconhecível, mas que seja considerada uma das maiores músicas de todos os tempos. A liberdade dessa plataforma vai permitir que a arte floresça. E nós estamos encorajando as pessoas a usarem o formato que quiserem. Não precisa ser três  minutos e 30 segundos. E se for um minuto e 17 segundos? E se for 11 minutos? Apenas quebre o formato. E que tal apenas quatro minutos de música e, na sequencia, você começar a fazer um rap? BB: Quais têm sido as respostas das gravadoras? JZ: Eu acho que as gravadoras ficaram desconfiadas. Não é uma gravadora – se é pra ter um rótulo, pode ser classificada com uma loja de discos. Eu tenho uma empresa de discos. Eu não quero mais uma gravadora. Eu estou feliz com o que estou fazendo. Mas algumas ficaram desconfiadas. Mais uma vez: nós não estamos contra as outras empresas de streaming. Nós queremos que todos se saiam bem. Nós só queremos fazer com que a nossa voz seja ouvida. B: A indústria da música é cínica. Quando você surgiu com a sua visão, músicos à parte, qual foi a resposta da comunidade? JZ: Eu acho que eles foram receptivos, mas acharam que eu não ia conseguir. B: Daqui a um ano, o que você espera do Tidal? Que todo mundo tiver a percepção de que as coisas mudaram pra melhor. Que Aloe Blacc e seus compositores não estejam recebendo um cheque de US$ 4 mil por 168 milhões de streamings. Eles fizeram seu trabalho, ralaram, conseguiram. As pessoas amaram e consumiram. Pra onde foi o resultado desse trabalho? As pessoas não pagaram ou fizeram streamings da música de Aloe Blacc para ela desaparecer. Onde está? Se em 12 meses todos estiverem tendo essa discussão e dialogando, e todos entenderem que streaming não é algo ruim, eu estarei feliz.
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“Se você trabalhou, você tem que ser pago. Isso é comércio justo”, diz Jay Z sobre o Tidal

por em 31/03/2015

tyle="text-align: left;" align="center">Por Tony Gervino

Jay Z não dá muitas entrevistas. Quando elas acontecem, ele frequentemente para no meio das frases, reconsidera e molda sua resposta, escolhendo uma palavra mais apropriada ou uma analogia mais certeira. O que geralmente é encarado como desconfiança, pode ser apenas seu jeito de pensar bem antes de responder, afinal, diferente do seu trabalho no palco, o rapper não pode controlar o resultado final de uma entrevista. Poucos dias antes do lançamento oficial de seu serviço de streaming de música, ontem (30/03), Jay Z conversou com a Billboard para explicar porque fez uma compra que foi recebida com tantas suspeitas pela indústria. Apesar de ser difícil achar que uma empresa nova, com apenas 500 mil inscritos e que cobra o dobro do preço dos concorrentes por um serviço de alta definição pudesse competir com gigantes como Spotify (60 milhões de inscritos, dos quais 15 milhões são pagos) e Beats Music, que será relançado em breve, é preciso considerar a possibilidade de que o Tidal não esteja necessariamente atrelado a um esquema de dinheiro rápido. De acordo com Jay Z, e a julgar pela campanha #TIDALforALL, que dominou as redes sociais ontem, seu objetivo principal é mudar um sistema de compensação defeituoso. Nenhum dos top artistas que se juntaram ao projeto – Kanye West, Nicki Minaj, Beyoncé, Rihanna, Madonna, Calvin Harris, Daft Punk, Jack White, Arcade Fire, Usher, Coldplay, Alicia Keys, Calvin Harris, deadmau5, Jason Aldean e J Cole,  todos com a mesma porção da empresa – precisa de dinheiro, o que os torna os melhores divulgadores da mensagem: eles estão cansados dos baixos valores que recebem dos serviços de streaming.   Billboard: Quando você teve a ideia de entrar no ramo de streaming? Jay Z: Um ano e meio atrás. Nós vimos o movimento e como tudo estava indo e percebemos que esse pode ser o último formato musical que vamos ver na vida. Nós não gostávamos da direção que a música estava tomando e pensamos que, talvez, pudéssemos entrar, dar um golpe honesto e, você sabe, o mínimo que fizemos foi fazer com que as pessoas acordassem e tentassem melhorar o sistema gratuito em relação ao pago, promovendo um comércio justo, ou seja, nós ganharíamos de qualquer jeito.   B: Músicos vêm reclamando há um muito tempo que o streaming desvalorizou a música. Não parece que você está motivado apenas pelas questões financeiras, mas também pela vontade de reestabelecer o valor da música. JZ: É isso mesmo, e quando eu falei com cada uma das pessoas envolvidas, foi isso que eu disse. A música é… imagine a sua vida sem música. É uma parte valiosa da sua vida e, como eu disse, é por isso que entramos nesse ramo. As pessoas não estão respeitando a música e a estão desvalorizando, assim como desvalorizando o que ela significa. As pessoas acham que a música é de graça, mas pagam US$ 6 por água. Você pode beber água de graça da torneira, e é uma boa água. Mas as pessoas ainda pagam por ela. B: Em alguns aspectos, a música pode não ter preço e ainda assim ter valor. JZ: Sim. As experiências que eu tive, crescendo com a música, eu não trocaria por nenhum dinheiro no mundo. Dançando na sala de estar ao som de “Enjoy Yourself”, de Michael Jackson. Esses momentos de alegria não têm preço, como você disse. B: Alguém com a sua relevância poderia argumentar com outros serviços de streaming. Você tentou fazer isso antes de começar seu próprio negócio? JZ: Sim, nós falamos com todos os serviços e exploramos todas as alternativas, inclusive criar uma marca com um serviço. Mas, no final das contas, nós percebemos que se vamos moldar isso como queremos, então temos que ter independência. E essa se tornou uma proposta melhor para nós – apesar de não ser fácil. B: A sua lista de parceiros é bem surpreendente. Como você conseguiu envolvê-los? Você simplesmente argumentou que essa era uma chance de virar a maré? JZ: Foi mais ou menos isso. Eu falei com todo mundo sobre música e sobre o que eles gostariam de ver em um serviço. E como gostariam que isso funcionasse. Eu queria saber se eles estavam dispostos a arriscar, já que o nome de todo mundo está atrelado ao projeto e suas reputações também. E eu acredito que, enquanto estivermos no lado da razão, e estamos nisso pelos motivos certos, dará certo. É uma grande oportunidade para todos – não é algo que pertença a uma pessoa. Isso não seria justo, não seria um processo democrático e não é a ideia por trás de tudo. B: Outro objetivo seu é se certificar de que os lucros passem pela cadeia alimentar, chegando até os criadores de conteúdo, não é? JZ: Com certeza. Alguém como eu, por exemplo, pode fazer uma turnê. Mas e as outras pessoas que trabalharam no álbum? Se elas não forem compensadas da maneira correta, nós perderemos compositores, produtores e outros profissionais que dependem de um comércio justo. Alguns provavelmente teriam que arrumar outro emprego. É justo? Não. Se você trabalhou, você tem que ser pago. Isso é comércio justo. É o que construiu nosso país. O que eu quero dizer é que os produtores e as demais pessoas que trabalham no ramo da música estão sendo excluídos – a partir daí, a coisa começa a virar criminosa. É como você trabalhar duro e não receber. Em outros setores, as pessoas estariam diante do Congresso. Eles têm leis trabalhistas para lutar contra esse tipo de comportamento. O que parece é que, quando é aplicado à música, ninguém se importa com as infrações. É tão desorganizado, tão desconectado da realidade. B: Você acha que os vídeos serão um grande diferencial em relação aos outros serviços de streaming? JZ: Com certeza é um diferencial, e nós teremos vídeos de alta qualidade. B: O que você espera que aconteça a partir de hoje, após o lançamento oficial ontem? JZ: Que artistas venham pra cá e comecem a fazer músicas de 18 minutos, ou sei lá. Eu sei que vai parecer loucura, mas talvez eles comecem a tentar fazer uma “Like A Rolling Stone”, sabe, uma música que não tenha um gancho muito reconhecível, mas que seja considerada uma das maiores músicas de todos os tempos. A liberdade dessa plataforma vai permitir que a arte floresça. E nós estamos encorajando as pessoas a usarem o formato que quiserem. Não precisa ser três  minutos e 30 segundos. E se for um minuto e 17 segundos? E se for 11 minutos? Apenas quebre o formato. E que tal apenas quatro minutos de música e, na sequencia, você começar a fazer um rap? BB: Quais têm sido as respostas das gravadoras? JZ: Eu acho que as gravadoras ficaram desconfiadas. Não é uma gravadora – se é pra ter um rótulo, pode ser classificada com uma loja de discos. Eu tenho uma empresa de discos. Eu não quero mais uma gravadora. Eu estou feliz com o que estou fazendo. Mas algumas ficaram desconfiadas. Mais uma vez: nós não estamos contra as outras empresas de streaming. Nós queremos que todos se saiam bem. Nós só queremos fazer com que a nossa voz seja ouvida. B: A indústria da música é cínica. Quando você surgiu com a sua visão, músicos à parte, qual foi a resposta da comunidade? JZ: Eu acho que eles foram receptivos, mas acharam que eu não ia conseguir. B: Daqui a um ano, o que você espera do Tidal? Que todo mundo tiver a percepção de que as coisas mudaram pra melhor. Que Aloe Blacc e seus compositores não estejam recebendo um cheque de US$ 4 mil por 168 milhões de streamings. Eles fizeram seu trabalho, ralaram, conseguiram. As pessoas amaram e consumiram. Pra onde foi o resultado desse trabalho? As pessoas não pagaram ou fizeram streamings da música de Aloe Blacc para ela desaparecer. Onde está? Se em 12 meses todos estiverem tendo essa discussão e dialogando, e todos entenderem que streaming não é algo ruim, eu estarei feliz.