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Segunda Viva - Macaco Bong

por em 09/04/2013
U
m dos músicos mais elogiados de sua geração, o guitarrista Bruno Kayapy reconstrói o trio Macaco Bong após um tumor, a ruptura com o Fora do Eixo e dramas pessoais, Por José Flavio Junior
Sexta-feira, 8 de novembro, onze da noite. Quarenta pessoas assistem ao primeiro show da nova formação do Macaco Bong em São Paulo, no charmoso Centro Cultural Rio Verde, localizado na Vila Madalena. Prestes a completar dez anos na ativa, o trio instrumental cuiabano ostenta no currículo dois álbuns e um EP elogiadíssimos – Artista Igual Pedreiro (2008) e This Is Rolê (2012) e Verdão E Verdinho (2011) – além de shows como banda de apoio de Gilberto Gil, uma abertura para o System Of A Down diante de uma multidão de camisas pretas, palcos divididos com Mars Volta no festival SWU e Sonic Youth no Planeta Terra, passagens por eventos prestigiados no Canadá, Espanha e América Latina, e apresentações em quase todas as capitais do país, exceto Teresina (PI) e São Luís (MA). No entanto, encara um difícil recomeço sem o apoio do coletivo Fora do Eixo, com quem o guitarrista e compositor de todas as músicas Bruno Kayapy rompeu no começo do ano. Escudado pelos ótimos Hygor Jaú no baixo e Eder Uchôa na bateria, o músico de 27 anos planeja um 2014 repleto de atividades para este que se tornou um dos grupos mais relevantes e bem-sucedidos da cena alternativa brasileira nos últimos tempos. Ainda sentido com atitudes do ex-baterista Ynaiã Benthroldo e do publicitário Pablo Capilé (um dos líderes do FdE), Kayapy conversou com a Billboard Brasil. Entre risos nervosos e muitas observações repletas de mágoa, o virtuose falou sobre a nova fase e os caminhos que levaram a ela, dando detalhes sobre um sério problema de saúde que teve de enfrentar, e cravando que os três últimos anos foram os piores de sua vida. É um recomeço para a banda? Não apenas. Sinto um ar novo, um clima diferente. A banda era tratada muito em segundo plano quando eu estava envolvido com o Fora do Eixo. Agora temos coisas que não existiam antes, como amizade. Tenho um entrosamento ótimo com o Eder que vem de outros carnavais. Minha primeira banda, a TX3, era um duo instrumental com ele. Como é recomeçar após dez anos de ralação, centenas de shows, prêmios? Isso é maluco. Tenho refletido muito sobre a relação do mercado da música no Brasil com as entidades. Existe, sim, um cast de artistas que, por estar vinculado a produtoras, gravadoras e outras organizações, é beneficiado. O Macaco já fez parte disso, quando esteve vinculado ao Fora do Eixo. Por uma questão política, uma posição minha em relação ao processo, acabei saindo, e todas as portas se fecharam para mim dentro do circuito. Penso assim: até que ponto o que fizemos era em prol de algo longevo, era para o músico usufruir? Você acaba condenado se sai do processo. Quando mudamos para São Paulo, tivemos que mergulhar de cabeça na banda. Foi justamente aí que o Ney saiu. O Ynaiã sentiu a mesma pressão, e acabou saindo também. Aos 27 anos, você tem pique para repetir o que fez pela banda mais novo? O que me desestimularia hoje seria estar preso a algo. Passei por todos os conflitos. Já me senti um merda, alguém que não servia para nada fora do coletivo. O Macaco construiu as rotas, mas, no final, ficou tudo para o Fora do Eixo. A banda não tem mais acesso a isso. Mas é aí que eu me fortaleço. Nunca temi defender minha posição como artista. Os outros integrantes que passaram pela formação ficavam em cima do muro. Isso sempre foi um peso a mais para mim, pois havia um repúdio ao artista no Fora do Eixo. No último show da formação antiga, foi proposto a você acabar de vez com o grupo? Sim. O Ynaiã já tinha decido sair da banda, mas ainda não tinha anunciado. Aí o Pablo [Capilé] me ligou em Cuiabá, convidando para fazer esse show, que seria um dos últimos do Studio SP. Eu topei mais para reencontrar o Ynaiã e o Ney [Hugo, ex-baixista]. Mas logo percebi que eles seguiam distantes de mim. Senti que o clima não estava legal. Houve uma reunião no dia seguinte e a fala crucial do Pablo foi: “Acho que você não precisaria viver esse pesadelo que seria levar o Macaco sem os caras”, como que dizendo que, sem os outros integrantes, eu não teria mais acesso ao Fora do Eixo. Ele sugeriu que eu montasse outro projeto e depois voltássemos a conversar. O Macaco foi muito útil para que o Fora do Eixo construísse relações. Eles exibiam a banda como um modelo autossustentável. E, no fundo, sabem que eu sozinho, por tudo que desenvolvi no processo nos últimos anos, sou capaz de reerguer o Macaco, como estou fazendo agora. A saída do Ynaiã me quebrou as pernas, porque ele estava à frente de muitas coisas. Muitas pessoas pararam de responder meus e-mails, e deixaram de fazer convites à banda por causa da saída dele. Fiquei como o otário da parada para muita gente. Como você resumiria os últimos anos da banda? Eu não sei em que momento eles passaram a se reunir e me colocar para escanteio. Nas internas, ninguém comprou a ideia do This Is Rolê. Eu perguntava: “O que vocês querem de mim? Acham que eu sou o Quincy Jones?”. O álbum foi subestimado, jogado no ralo. Eu nem recebi os dois mil discos prensados. Está tudo parado na Casa Fora do Eixo. Eu estou sem nenhum disco para vender. A galera está trabalhando contra. Mas não vou entrar nessa. Muita gente viria comigo, e eu teria de exercer uma liderança para destruir a parada. Não quero ser esse cara. Meu palco é a música. Nada vai me tirar disso. Qual foi a doença que você teve e que ajudou a estremecer a relação com o FdE? Em 2009, tive um tumor na próstata, em consequência de um distúrbio intestinal. Não evoluiu para câncer porque, quando o descobri, ainda estava a dois milímetros do meu intestino. Eu já vinha reclamando do problema, mas marcaram uma turnê num microonibus de Cuiabá a Fortaleza [risos]. Logo depois, fomos para um festival no Acre, e o negócio ficou sério. Senti uma dor forte no abdômen e, no banheiro, vi que estava sangrando. Não conseguia mais mijar nem cagar, sentia tontura toda hora, desmaiava, tinha várias hemorragias, e a galera achando que eu estava com frescura. Quando cheguei a Cuiabá, o médico falou que eu tinha 50% de chances de entrar em óbito. Fiz a operação com a ajuda da família, porque ninguém mais foi solidário comigo. Precisei de três meses de repouso. Queriam marcar mais turnês, mas eu não conseguia nem andar. Até que o Ynaiã veio me visitar. Ele foi bem idiota. Começou a morrer para mim naquele dia. Ficou rindo, porque meu problema era no ânus. Eu em depressão, e o cara tirando onda. Sendo que, um ano antes, ele havia tido síndrome do pânico, não saía mais do quarto, e eu fiquei superpreocupado. Já o Ney sempre teve problemas de pressão por má alimentação. Mas nenhum deles fala dessas doenças, talvez para não rolar o mesmo repúdio que rolou comigo dentro do Fora do Eixo. Já ouvi que a nova formação perdeu na questão visual, já que o trio que ficou conhecido tinha uma imagem forte, três negões com cabelos transados e tal... Isso eu acho irrelevante. Somos uma banda de música, não somos celebridades. Tinha gente achando que devíamos catar atriz da Globo [risos]. Sou fã dos Melvins [banda americana de rock pesado e idiossincrático que influenciou Kurt Cobain]. Minha relação com esse mundo é pegar os caras que acreditam na parada e ir embora. No Radiohead, todo mundo é feio pra caralho, ninguém combina [risos]. A galera anda se pautando muito pela indústria do entretenimento, e ainda vem querer falar mal de gravadora... Tudo hipócrita, bando de pau no cu! Quais serão os próximos passos do grupo? Não crio muitas expectativas, mas pretendo encontrar todo mundo pessoalmente. A galera resume tudo a estética e posicionamento po- lítico, não tem noção dos meus medos, psicoses. Passo o dia inteiro só. Mas vou seguir fazendo música com o Macaco. Vamos lançar o single de “Black Marroca” ainda este ano e, em 2014, soltar um clipe, um EP, e armar turnês aqui e na América Latina. Nosso público mais forte está na Argentina. Também quero explorar Estados Unidos e Europa. E há o plano de lançar um disco ao vivo com convidados. Você se vê tocando novamente com Ynaiã e Ney no futuro? Da minha parte, nunca terei portas fechadas. Não funciono com rancor. Com rancor, não consigo criar um riff na guitarra. Sou aberto para trocar ideias com eles, mas minhas opiniões não vão mudar. O que eles queriam era me tirar da banda, só que não encontraram um substituto. O Ynaiã e o Gabriel [Murilo, que entrou no lugar de Ney Hugo] foram gravar umas coisas em Goiânia com outro guitarrista... Você lamenta ter perdido a amizade do Ynaiã? Claro. Não só isso. Perdi todo mun- do. Quase perdi o Macaco. Foi muito cruel o que fizeram comigo. Foi como pegar o Cebolinha e juntar todos os personagens do Mortal Kombat para dar porrada nele [risos]. Esses foram os três piores anos da minha vida. Existiu algum artista ou disco importante para você nesse período complicado? Teve uma passagem em Olinda, na turnê do This is Rolê, que encontrei o [produtor e músico] Buguinha, e ele me mostrou uns sons do Tony Allen [baterista e diretor msical da banda de Fela Kuti, grande referência do afrobeat].  Me envolvi muito com aquela coisa afro mais puxada para o jazz. Também te- nho ouvido muito Gilberto Gil, para me fortalecer, especialmente o Refavela (1977). Na época dos shows com ele, ficamos muito em cima do Expresso 2222 (1972). Agora, o Refavela é o meu favorito. Mas nunca deixei de escutar podreira. Sou metaleiro escroto. Ouço Gil, mas também Meshuggah, Judas Priest, Motörhead, Cannibal Corpse. Preciso me proteger da zica, afastar o olho gordo [risos]. Você se pegou chorando muitas vezes no meio desse turbilhão? Eu choro muito. No palco, choro toda hora, não sei se as pessoas percebem. Sou um pouco cético com as coisas que aconteceram. Mas claro que tive meus momentos solitários, nesses piores dias da minha vida, em que chorei diversas vezes, sem ter para quem ligar, pensando um monte de merda... Não tenho diálogo com mais do que dez pessoas além da banda e da família. Mas todos são cientes de suas escolhas. Meus ex-parceiros também devem ter seus momentos de choro.
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Gusttavo LIma
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Amor Da Sua Cama
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3
Saudade
Eduardo Costa
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
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por em 09/04/2013
U
m dos músicos mais elogiados de sua geração, o guitarrista Bruno Kayapy reconstrói o trio Macaco Bong após um tumor, a ruptura com o Fora do Eixo e dramas pessoais, Por José Flavio Junior
Sexta-feira, 8 de novembro, onze da noite. Quarenta pessoas assistem ao primeiro show da nova formação do Macaco Bong em São Paulo, no charmoso Centro Cultural Rio Verde, localizado na Vila Madalena. Prestes a completar dez anos na ativa, o trio instrumental cuiabano ostenta no currículo dois álbuns e um EP elogiadíssimos – Artista Igual Pedreiro (2008) e This Is Rolê (2012) e Verdão E Verdinho (2011) – além de shows como banda de apoio de Gilberto Gil, uma abertura para o System Of A Down diante de uma multidão de camisas pretas, palcos divididos com Mars Volta no festival SWU e Sonic Youth no Planeta Terra, passagens por eventos prestigiados no Canadá, Espanha e América Latina, e apresentações em quase todas as capitais do país, exceto Teresina (PI) e São Luís (MA). No entanto, encara um difícil recomeço sem o apoio do coletivo Fora do Eixo, com quem o guitarrista e compositor de todas as músicas Bruno Kayapy rompeu no começo do ano. Escudado pelos ótimos Hygor Jaú no baixo e Eder Uchôa na bateria, o músico de 27 anos planeja um 2014 repleto de atividades para este que se tornou um dos grupos mais relevantes e bem-sucedidos da cena alternativa brasileira nos últimos tempos. Ainda sentido com atitudes do ex-baterista Ynaiã Benthroldo e do publicitário Pablo Capilé (um dos líderes do FdE), Kayapy conversou com a Billboard Brasil. Entre risos nervosos e muitas observações repletas de mágoa, o virtuose falou sobre a nova fase e os caminhos que levaram a ela, dando detalhes sobre um sério problema de saúde que teve de enfrentar, e cravando que os três últimos anos foram os piores de sua vida. É um recomeço para a banda? Não apenas. Sinto um ar novo, um clima diferente. A banda era tratada muito em segundo plano quando eu estava envolvido com o Fora do Eixo. Agora temos coisas que não existiam antes, como amizade. Tenho um entrosamento ótimo com o Eder que vem de outros carnavais. Minha primeira banda, a TX3, era um duo instrumental com ele. Como é recomeçar após dez anos de ralação, centenas de shows, prêmios? Isso é maluco. Tenho refletido muito sobre a relação do mercado da música no Brasil com as entidades. Existe, sim, um cast de artistas que, por estar vinculado a produtoras, gravadoras e outras organizações, é beneficiado. O Macaco já fez parte disso, quando esteve vinculado ao Fora do Eixo. Por uma questão política, uma posição minha em relação ao processo, acabei saindo, e todas as portas se fecharam para mim dentro do circuito. Penso assim: até que ponto o que fizemos era em prol de algo longevo, era para o músico usufruir? Você acaba condenado se sai do processo. Quando mudamos para São Paulo, tivemos que mergulhar de cabeça na banda. Foi justamente aí que o Ney saiu. O Ynaiã sentiu a mesma pressão, e acabou saindo também. Aos 27 anos, você tem pique para repetir o que fez pela banda mais novo? O que me desestimularia hoje seria estar preso a algo. Passei por todos os conflitos. Já me senti um merda, alguém que não servia para nada fora do coletivo. O Macaco construiu as rotas, mas, no final, ficou tudo para o Fora do Eixo. A banda não tem mais acesso a isso. Mas é aí que eu me fortaleço. Nunca temi defender minha posição como artista. Os outros integrantes que passaram pela formação ficavam em cima do muro. Isso sempre foi um peso a mais para mim, pois havia um repúdio ao artista no Fora do Eixo. No último show da formação antiga, foi proposto a você acabar de vez com o grupo? Sim. O Ynaiã já tinha decido sair da banda, mas ainda não tinha anunciado. Aí o Pablo [Capilé] me ligou em Cuiabá, convidando para fazer esse show, que seria um dos últimos do Studio SP. Eu topei mais para reencontrar o Ynaiã e o Ney [Hugo, ex-baixista]. Mas logo percebi que eles seguiam distantes de mim. Senti que o clima não estava legal. Houve uma reunião no dia seguinte e a fala crucial do Pablo foi: “Acho que você não precisaria viver esse pesadelo que seria levar o Macaco sem os caras”, como que dizendo que, sem os outros integrantes, eu não teria mais acesso ao Fora do Eixo. Ele sugeriu que eu montasse outro projeto e depois voltássemos a conversar. O Macaco foi muito útil para que o Fora do Eixo construísse relações. Eles exibiam a banda como um modelo autossustentável. E, no fundo, sabem que eu sozinho, por tudo que desenvolvi no processo nos últimos anos, sou capaz de reerguer o Macaco, como estou fazendo agora. A saída do Ynaiã me quebrou as pernas, porque ele estava à frente de muitas coisas. Muitas pessoas pararam de responder meus e-mails, e deixaram de fazer convites à banda por causa da saída dele. Fiquei como o otário da parada para muita gente. Como você resumiria os últimos anos da banda? Eu não sei em que momento eles passaram a se reunir e me colocar para escanteio. Nas internas, ninguém comprou a ideia do This Is Rolê. Eu perguntava: “O que vocês querem de mim? Acham que eu sou o Quincy Jones?”. O álbum foi subestimado, jogado no ralo. Eu nem recebi os dois mil discos prensados. Está tudo parado na Casa Fora do Eixo. Eu estou sem nenhum disco para vender. A galera está trabalhando contra. Mas não vou entrar nessa. Muita gente viria comigo, e eu teria de exercer uma liderança para destruir a parada. Não quero ser esse cara. Meu palco é a música. Nada vai me tirar disso. Qual foi a doença que você teve e que ajudou a estremecer a relação com o FdE? Em 2009, tive um tumor na próstata, em consequência de um distúrbio intestinal. Não evoluiu para câncer porque, quando o descobri, ainda estava a dois milímetros do meu intestino. Eu já vinha reclamando do problema, mas marcaram uma turnê num microonibus de Cuiabá a Fortaleza [risos]. Logo depois, fomos para um festival no Acre, e o negócio ficou sério. Senti uma dor forte no abdômen e, no banheiro, vi que estava sangrando. Não conseguia mais mijar nem cagar, sentia tontura toda hora, desmaiava, tinha várias hemorragias, e a galera achando que eu estava com frescura. Quando cheguei a Cuiabá, o médico falou que eu tinha 50% de chances de entrar em óbito. Fiz a operação com a ajuda da família, porque ninguém mais foi solidário comigo. Precisei de três meses de repouso. Queriam marcar mais turnês, mas eu não conseguia nem andar. Até que o Ynaiã veio me visitar. Ele foi bem idiota. Começou a morrer para mim naquele dia. Ficou rindo, porque meu problema era no ânus. Eu em depressão, e o cara tirando onda. Sendo que, um ano antes, ele havia tido síndrome do pânico, não saía mais do quarto, e eu fiquei superpreocupado. Já o Ney sempre teve problemas de pressão por má alimentação. Mas nenhum deles fala dessas doenças, talvez para não rolar o mesmo repúdio que rolou comigo dentro do Fora do Eixo. Já ouvi que a nova formação perdeu na questão visual, já que o trio que ficou conhecido tinha uma imagem forte, três negões com cabelos transados e tal... Isso eu acho irrelevante. Somos uma banda de música, não somos celebridades. Tinha gente achando que devíamos catar atriz da Globo [risos]. Sou fã dos Melvins [banda americana de rock pesado e idiossincrático que influenciou Kurt Cobain]. Minha relação com esse mundo é pegar os caras que acreditam na parada e ir embora. No Radiohead, todo mundo é feio pra caralho, ninguém combina [risos]. A galera anda se pautando muito pela indústria do entretenimento, e ainda vem querer falar mal de gravadora... Tudo hipócrita, bando de pau no cu! Quais serão os próximos passos do grupo? Não crio muitas expectativas, mas pretendo encontrar todo mundo pessoalmente. A galera resume tudo a estética e posicionamento po- lítico, não tem noção dos meus medos, psicoses. Passo o dia inteiro só. Mas vou seguir fazendo música com o Macaco. Vamos lançar o single de “Black Marroca” ainda este ano e, em 2014, soltar um clipe, um EP, e armar turnês aqui e na América Latina. Nosso público mais forte está na Argentina. Também quero explorar Estados Unidos e Europa. E há o plano de lançar um disco ao vivo com convidados. Você se vê tocando novamente com Ynaiã e Ney no futuro? Da minha parte, nunca terei portas fechadas. Não funciono com rancor. Com rancor, não consigo criar um riff na guitarra. Sou aberto para trocar ideias com eles, mas minhas opiniões não vão mudar. O que eles queriam era me tirar da banda, só que não encontraram um substituto. O Ynaiã e o Gabriel [Murilo, que entrou no lugar de Ney Hugo] foram gravar umas coisas em Goiânia com outro guitarrista... Você lamenta ter perdido a amizade do Ynaiã? Claro. Não só isso. Perdi todo mun- do. Quase perdi o Macaco. Foi muito cruel o que fizeram comigo. Foi como pegar o Cebolinha e juntar todos os personagens do Mortal Kombat para dar porrada nele [risos]. Esses foram os três piores anos da minha vida. Existiu algum artista ou disco importante para você nesse período complicado? Teve uma passagem em Olinda, na turnê do This is Rolê, que encontrei o [produtor e músico] Buguinha, e ele me mostrou uns sons do Tony Allen [baterista e diretor msical da banda de Fela Kuti, grande referência do afrobeat].  Me envolvi muito com aquela coisa afro mais puxada para o jazz. Também te- nho ouvido muito Gilberto Gil, para me fortalecer, especialmente o Refavela (1977). Na época dos shows com ele, ficamos muito em cima do Expresso 2222 (1972). Agora, o Refavela é o meu favorito. Mas nunca deixei de escutar podreira. Sou metaleiro escroto. Ouço Gil, mas também Meshuggah, Judas Priest, Motörhead, Cannibal Corpse. Preciso me proteger da zica, afastar o olho gordo [risos]. Você se pegou chorando muitas vezes no meio desse turbilhão? Eu choro muito. No palco, choro toda hora, não sei se as pessoas percebem. Sou um pouco cético com as coisas que aconteceram. Mas claro que tive meus momentos solitários, nesses piores dias da minha vida, em que chorei diversas vezes, sem ter para quem ligar, pensando um monte de merda... Não tenho diálogo com mais do que dez pessoas além da banda e da família. Mas todos são cientes de suas escolhas. Meus ex-parceiros também devem ter seus momentos de choro.