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Seis décadas e meia de camaleão: especial David Bowie

por em 06/01/2012
Imagem: Divulgação

Em 1962, David Robert Jones, então com 15 anos de idade, entrou em uma briga com seu colega de escola, George Underwood. O motivo da briga foi uma garota, e David acabou levando a pior. Um soco desferido por George, que usava um grande anel, atingiu em cheio seu olho esquerdo. David passou quatro meses afastado da Ravens Wood School, quando se submeteu a cirurgias para reparar os danos causados pelo golpe.

O temor dos médicos não se confirmou, e David não teve sua visão afetada, mas isso não o livrou de passar o resto da vida com percepção deficiente e com midríase, dilatação permanente da pupila.

Na época, David nem podia imaginar, mas anos depois o resultado dessa briga ajudaria a formar a persona que o consagrou como um dos maiores nomes da história da música pop: David Bowie, o ‘camaleão’.

Do aspirante a músico folk de "Space Oddity", passando pelo polêmico e sexual Ziggy Stardust e pelo soul-man de Young Americans até o inovador parceiro de Brian Eno na trilogia de Berlin, David Bowie se consagrou como um artista de múltiplas faces, atingindo sucessos astronômicos e colecionando lendas de mesma magnitude.

Com mais de quarenta anos de carreira, David Bowie já acumula quase seis sem subir ao palco. A última vez foi no Black Hall, em Nova York, onde cantou ao lado de Alicia Keys em um evento beneficente da organização Keep A Child Alive.

No próximo domingo, dia 8, David Bowie completa 65 anos de vida. Para celebrar o aniversário de um dos mais enigmáticos e festejados artistas de nossa época, a Billboard Brasil separou oito dos mais importantes álbuns da carreira do camaleão. Também conversamos com Thedy Corrêa, vocalista da banda gaúcha Nenhum de Nós, que em 1989 arrebatou o Brasil com sua versão em português de “Starman”, “Astronauta de Mármore”. Confira abaixo nosso especial para os 65 anos do eterno camaleão.


David Bowie (1969)

Lançado em 1969, o segundo álbum de David Bowie apresentava o músico em clara levada folk, apoiado apenas por violão e voz. Carro-chefe do álbum, “Space Oddity” alcançou o timing perfeito numa época em que as incursões humanas no espaço estavam em grande evidência e se tornou um hit instantâneo. A música abriu as portas para o sucesso de Bowie, sendo utilizada como trilha sonora da chegada do homem à lua pela rede de televisão BBC.


The Man Who Sold The World (1970)

Se Bowie tinha alcançado grande audiência com uma faixa de seu segundo álbum, em seu terceiro lançamento ele tentava provar que viera pra ficar. E com The Man Who Sold The World, conseguiu. Com grande ajuda do guitarrista Mick Ronson (que se tornaria seu parceiro de longa data em alguns de seus melhores trabalhos), Bowie criou um álbum consistente e inovador, apontado por alguns críticos como o nascimento do glam rock. A capa, com Bowie usando um vestido, ajudou a criar a figura sexual que permearia a fase mais aclamada de sua carreira. Sucesso de público e crítica, o álbum é ainda apontado como grande influência para o que mais tarde viria a ser o estilo gótico.


The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars (1972)

A extinta revista britânica Melody Maker apontou este como o melhor disco dos anos 70, e ele com certeza figura na maior parte das listas dos melhores álbuns da história. Toda a lenda criada em torno de Ziggy Stardust é justa. Bowie utilizou toda a sua apurada imaginação e senso estético para criar o personagem do rock star alienígena que vinha do espaço para salvar a Terra. O disco reúne algumas das composições mais famosas de Bowie como “Starman”, Sufragette City” e a homônima “Ziggy Stardust”, e se tornou um verdadeiro marco do chamado glam rock. Pouco tempo depois, Bowie assassinaria seu personagem em pleno palco. Era o fim de uma verdadeira febre que tomou de assalto a Inglaterra e, posteriormente, o mundo. Mas errou quem profetizou que o fim de Ziggy Stardust era o fim de Bowie. O camaleão ainda tinha planos muito ambiciosos para o futuro...


Diamond Dogs (1974)

Inspirado pelo romance 1984, de George Orwell, Bowie criou outro álbum conceitual que, apesar de ainda ter um pé, ou melhor, uma bota no glam rock, flertava com o som dos Rolling Stones, uma das grandes inspirações do músico. Entre as faixas do álbum estava “Rebel, Rebel”, rock enérgico e grudento que se tornaria uma das mais famosas canções do camaleão. A crítica aclamou o álbum como um dos melhores de Bowie, e Diamond Dogs atingiu a primeira posição das paradas britânicas.


Young Americans (1975)

Depois de finalmente deixar o glam rock que o consagrara como um astro para trás, Bowie arriscou uma homenagem à música negra americana e, mais uma vez, acertou em cheio. O ótimo álbum provou a versatilidade de Bowie em ótimas canções que evocavam o R&B e o soul americanos de forma divertida e sofisticada. Sobrou espaço até para uma bela versão de “Across The Universe”, dos Beatles, com participação de John Lennon nas guitarras e backing vocals. O ex-beatle também contribuiu em “Fame”, última faixa do disco.


Heroes (1977)

Se Bowie havia aprendido muito com Lennon, agora era a vez de Lennon aprender com Bowie. Foi de Heroes a inspiração para que o ex-beatle fizesse seu álbum Double Fantasy, declarando que sua ambição era fazer algo tão bom quanto o disco de Bowie. Segundo álbum da chamada “trilogia de Berlin”, Heroes registrava mais uma vez a parceria de Bowie com o guru dos sintetizadores e ex-membro do Roxy Music, Brian Eno. O disco se tornou um dos grandes sucessos de sua carreira, com destaque para a faixa título, que se tornou a segunda música de Bowie com mais versões cover, atrás apenas de “Rebel, Rebel”.


Let’s Dance (1983)

Depois de sofrer com o vício em cocaína e o fim de seu casamento com a modelo Angela, David Bowie precisava de uma guinada na carreira. E ela veio logo no começo dos anos 80. Para afastar os maus-agouros, Bowie escancarou as paradas da nova década com “Ashes To Ashes”, música que contou com clipe milionário e inovador. Foi ali também que Bowie revisitou Major Tom, personagem que já havia aparecido em “Space Oddity”. Logo na sequencia, Bowie se juntou ao Queen e realizou o brilhante dueto com Freddie Mercury em “Under Pressure”, outro grande sucesso. Seguindo essa onda, Let’s Dance trazia Bowie ao novo universo da dance music que se instalara pelo mundo e, mais uma vez, colocava o artista como figura versátil e eficaz. Além da faixa título, o álbum trazia ainda mais dois grandes sucessos, “Modern Love” e “China Girl”, está última feita em parceria com seu amigo de longa data, Iggy Pop, que já a havia gravado em seu álbum The Idiot, seis anos antes.


Tin Machine (1989)

Pela primeira vez em sua carreira, David Bowie deixou de ser o artista principal de seus trabalhos para se tornar apenas membro de uma banda. Assim surgiu o Tin Machine, formado pelo guitarrista Reeves Gabrels, o baixista Tony Sales e o baterista Hunt Sales. Misturando rock clássico com R&B, a banda lançou seu primeiro álbum em 1989. O disco atingiu considerável sucesso, apresentando letras politizadas que ajudaram a alcançar o terceiro lugar das paradas britânicas. A banda chegou a lançar um segundo álbum em 1991, mas sem a mesma notoriedade de sua estreia. A dissolução definitiva do grupo veio em 1992, quando Bowie resolveu voltar a se focar em sua carreira solo.


Entrevista com Thedy Corrêa, da banda Nenhum de Nós


Billboard Brasil: Por que vocês escolheram Starman para fazer uma versão, e como foi esse processo de adaptação para a língua portuguesa?

Thedy: Bom, eu sempre fui fã do David Bowie, foi um cara que foi minha inspiração até para eu me tornar músico. Um dos primeiros discos que eu tive foi o Alladin Sane,  e coisas assim te marcam muito. O Nenhum de Nós já tocava "Starman" em inglês nos shows. Durante a gravação do segundo disco, num intervalo em que a gente estava relaxando com os instrumentos na mão, nós gravámos a versão que a gente tocava pra ter uma gravação pra gente. E o Parrilha, que era o produtor, ouviu e nos colocou como um desafio: “por que vocês não fazem uma versão em português, como fãs, homenageando o cara?” e foi exatamente isso que nós nos propusemos. E aí a gente começou a trabalhar em cima dessa ideia.

Uma das coisas que nos ocorreu, e que acabou sendo o que foi fundamental pra música ser o que ela é, foi dar uma continuidade para a história do Major Tom, que começou no "Space Oddity", depois passou por "Ashes To Ashes", e a gente viajou que poderia ser a continuação da história dele. A música era cheia de referência nas letras e tudo mais, não só a coisas espaciais, mas como coisas do próprio Bowie.

Por exemplo, aquela frase, “quero um machado pra quebrar o gelo”, é uma tradução literal de uma frase que está em “Ashes To Ashes”, e por aí foi, a gente trabalhou muito em cima disso. Foi uma versão feita por fã e uma homenagem, nada mais do que isso. A gente não tinha nenhuma pretensão de que ela se tornasse sucesso, até porque ela se tornou uma letra super hermética, pelo tanto de referências que tinham e que eram difíceis de interpretar.

“São quatro ciclos no deserto do céu”, isso veio porque o Carlão [Carlos Stein, guitarrista] estava lendo um livro sobre a vida dos astronautas onde falava sobre aquela parte em que fica o silêncio no rádio quando ele passa atrás da lua. Foi tudo um troço muito pensado, e feito com esse objetivo.

Aí nós mandamos pra Inglaterra pra que ele aprovasse isso, fizemos a tradução do que estávamos dizendo, até que saiu de lá a aprovação e ele deu o OK pra gente gravar a nossa versão. E a prova maior de que o próprio Bowie aprovou a versão foi quando ele veio fazer show no Brasil onde ele tocou no Morumbi, e antes de tocar "Starman" ele falou: “agora eu vou tocar a música que vocês conhecem a letra em português, podem cantar em português”.

Então, é aquela história, foi uma versão super criticada por um monte de gente que nem conhecia o trabalho do Bowie e que só queria criticar a música porque ela estava fazendo sucesso. E até mesmo alguns caras do próprio meio musical foram extremamente indelicados. Nós, como fãs, fizemos nossa homenagem honestamente, e fomos reconhecidos por nosso próprio ídolo como sendo uma coisa bacana, o que pra gente foi uma realização.


Billboard Brasil: O sucesso da música te surpreendeu? Até hoje vocês sempre são lembrados por ela...

Thedy: Lógico, muito. A gente não fazia ideia. A letra realmente tinha essa questão hermética, e a gente brincou um pouco com a sonoridade das palavras. E o que foi mais legal foi que algumas pessoas que chegaram lá e disseram “eu não conhecia o David Bowie, não sabia quem ele era, agora eu vou atrás por causa disso”. E pra gente que é fã, de uma certa maneira, a gente estava ajudando para que o trabalho dele fosse conhecido.


Billboard Brasil: Qual é seu álbum favorito do David Bowie?

Thedy: Cara, eu sou fascinado pelo Hunky Dory.

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Seis décadas e meia de camaleão: especial David Bowie

por em 06/01/2012
Imagem: Divulgação

Em 1962, David Robert Jones, então com 15 anos de idade, entrou em uma briga com seu colega de escola, George Underwood. O motivo da briga foi uma garota, e David acabou levando a pior. Um soco desferido por George, que usava um grande anel, atingiu em cheio seu olho esquerdo. David passou quatro meses afastado da Ravens Wood School, quando se submeteu a cirurgias para reparar os danos causados pelo golpe.

O temor dos médicos não se confirmou, e David não teve sua visão afetada, mas isso não o livrou de passar o resto da vida com percepção deficiente e com midríase, dilatação permanente da pupila.

Na época, David nem podia imaginar, mas anos depois o resultado dessa briga ajudaria a formar a persona que o consagrou como um dos maiores nomes da história da música pop: David Bowie, o ‘camaleão’.

Do aspirante a músico folk de "Space Oddity", passando pelo polêmico e sexual Ziggy Stardust e pelo soul-man de Young Americans até o inovador parceiro de Brian Eno na trilogia de Berlin, David Bowie se consagrou como um artista de múltiplas faces, atingindo sucessos astronômicos e colecionando lendas de mesma magnitude.

Com mais de quarenta anos de carreira, David Bowie já acumula quase seis sem subir ao palco. A última vez foi no Black Hall, em Nova York, onde cantou ao lado de Alicia Keys em um evento beneficente da organização Keep A Child Alive.

No próximo domingo, dia 8, David Bowie completa 65 anos de vida. Para celebrar o aniversário de um dos mais enigmáticos e festejados artistas de nossa época, a Billboard Brasil separou oito dos mais importantes álbuns da carreira do camaleão. Também conversamos com Thedy Corrêa, vocalista da banda gaúcha Nenhum de Nós, que em 1989 arrebatou o Brasil com sua versão em português de “Starman”, “Astronauta de Mármore”. Confira abaixo nosso especial para os 65 anos do eterno camaleão.


David Bowie (1969)

Lançado em 1969, o segundo álbum de David Bowie apresentava o músico em clara levada folk, apoiado apenas por violão e voz. Carro-chefe do álbum, “Space Oddity” alcançou o timing perfeito numa época em que as incursões humanas no espaço estavam em grande evidência e se tornou um hit instantâneo. A música abriu as portas para o sucesso de Bowie, sendo utilizada como trilha sonora da chegada do homem à lua pela rede de televisão BBC.


The Man Who Sold The World (1970)

Se Bowie tinha alcançado grande audiência com uma faixa de seu segundo álbum, em seu terceiro lançamento ele tentava provar que viera pra ficar. E com The Man Who Sold The World, conseguiu. Com grande ajuda do guitarrista Mick Ronson (que se tornaria seu parceiro de longa data em alguns de seus melhores trabalhos), Bowie criou um álbum consistente e inovador, apontado por alguns críticos como o nascimento do glam rock. A capa, com Bowie usando um vestido, ajudou a criar a figura sexual que permearia a fase mais aclamada de sua carreira. Sucesso de público e crítica, o álbum é ainda apontado como grande influência para o que mais tarde viria a ser o estilo gótico.


The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars (1972)

A extinta revista britânica Melody Maker apontou este como o melhor disco dos anos 70, e ele com certeza figura na maior parte das listas dos melhores álbuns da história. Toda a lenda criada em torno de Ziggy Stardust é justa. Bowie utilizou toda a sua apurada imaginação e senso estético para criar o personagem do rock star alienígena que vinha do espaço para salvar a Terra. O disco reúne algumas das composições mais famosas de Bowie como “Starman”, Sufragette City” e a homônima “Ziggy Stardust”, e se tornou um verdadeiro marco do chamado glam rock. Pouco tempo depois, Bowie assassinaria seu personagem em pleno palco. Era o fim de uma verdadeira febre que tomou de assalto a Inglaterra e, posteriormente, o mundo. Mas errou quem profetizou que o fim de Ziggy Stardust era o fim de Bowie. O camaleão ainda tinha planos muito ambiciosos para o futuro...


Diamond Dogs (1974)

Inspirado pelo romance 1984, de George Orwell, Bowie criou outro álbum conceitual que, apesar de ainda ter um pé, ou melhor, uma bota no glam rock, flertava com o som dos Rolling Stones, uma das grandes inspirações do músico. Entre as faixas do álbum estava “Rebel, Rebel”, rock enérgico e grudento que se tornaria uma das mais famosas canções do camaleão. A crítica aclamou o álbum como um dos melhores de Bowie, e Diamond Dogs atingiu a primeira posição das paradas britânicas.


Young Americans (1975)

Depois de finalmente deixar o glam rock que o consagrara como um astro para trás, Bowie arriscou uma homenagem à música negra americana e, mais uma vez, acertou em cheio. O ótimo álbum provou a versatilidade de Bowie em ótimas canções que evocavam o R&B e o soul americanos de forma divertida e sofisticada. Sobrou espaço até para uma bela versão de “Across The Universe”, dos Beatles, com participação de John Lennon nas guitarras e backing vocals. O ex-beatle também contribuiu em “Fame”, última faixa do disco.


Heroes (1977)

Se Bowie havia aprendido muito com Lennon, agora era a vez de Lennon aprender com Bowie. Foi de Heroes a inspiração para que o ex-beatle fizesse seu álbum Double Fantasy, declarando que sua ambição era fazer algo tão bom quanto o disco de Bowie. Segundo álbum da chamada “trilogia de Berlin”, Heroes registrava mais uma vez a parceria de Bowie com o guru dos sintetizadores e ex-membro do Roxy Music, Brian Eno. O disco se tornou um dos grandes sucessos de sua carreira, com destaque para a faixa título, que se tornou a segunda música de Bowie com mais versões cover, atrás apenas de “Rebel, Rebel”.


Let’s Dance (1983)

Depois de sofrer com o vício em cocaína e o fim de seu casamento com a modelo Angela, David Bowie precisava de uma guinada na carreira. E ela veio logo no começo dos anos 80. Para afastar os maus-agouros, Bowie escancarou as paradas da nova década com “Ashes To Ashes”, música que contou com clipe milionário e inovador. Foi ali também que Bowie revisitou Major Tom, personagem que já havia aparecido em “Space Oddity”. Logo na sequencia, Bowie se juntou ao Queen e realizou o brilhante dueto com Freddie Mercury em “Under Pressure”, outro grande sucesso. Seguindo essa onda, Let’s Dance trazia Bowie ao novo universo da dance music que se instalara pelo mundo e, mais uma vez, colocava o artista como figura versátil e eficaz. Além da faixa título, o álbum trazia ainda mais dois grandes sucessos, “Modern Love” e “China Girl”, está última feita em parceria com seu amigo de longa data, Iggy Pop, que já a havia gravado em seu álbum The Idiot, seis anos antes.


Tin Machine (1989)

Pela primeira vez em sua carreira, David Bowie deixou de ser o artista principal de seus trabalhos para se tornar apenas membro de uma banda. Assim surgiu o Tin Machine, formado pelo guitarrista Reeves Gabrels, o baixista Tony Sales e o baterista Hunt Sales. Misturando rock clássico com R&B, a banda lançou seu primeiro álbum em 1989. O disco atingiu considerável sucesso, apresentando letras politizadas que ajudaram a alcançar o terceiro lugar das paradas britânicas. A banda chegou a lançar um segundo álbum em 1991, mas sem a mesma notoriedade de sua estreia. A dissolução definitiva do grupo veio em 1992, quando Bowie resolveu voltar a se focar em sua carreira solo.


Entrevista com Thedy Corrêa, da banda Nenhum de Nós


Billboard Brasil: Por que vocês escolheram Starman para fazer uma versão, e como foi esse processo de adaptação para a língua portuguesa?

Thedy: Bom, eu sempre fui fã do David Bowie, foi um cara que foi minha inspiração até para eu me tornar músico. Um dos primeiros discos que eu tive foi o Alladin Sane,  e coisas assim te marcam muito. O Nenhum de Nós já tocava "Starman" em inglês nos shows. Durante a gravação do segundo disco, num intervalo em que a gente estava relaxando com os instrumentos na mão, nós gravámos a versão que a gente tocava pra ter uma gravação pra gente. E o Parrilha, que era o produtor, ouviu e nos colocou como um desafio: “por que vocês não fazem uma versão em português, como fãs, homenageando o cara?” e foi exatamente isso que nós nos propusemos. E aí a gente começou a trabalhar em cima dessa ideia.

Uma das coisas que nos ocorreu, e que acabou sendo o que foi fundamental pra música ser o que ela é, foi dar uma continuidade para a história do Major Tom, que começou no "Space Oddity", depois passou por "Ashes To Ashes", e a gente viajou que poderia ser a continuação da história dele. A música era cheia de referência nas letras e tudo mais, não só a coisas espaciais, mas como coisas do próprio Bowie.

Por exemplo, aquela frase, “quero um machado pra quebrar o gelo”, é uma tradução literal de uma frase que está em “Ashes To Ashes”, e por aí foi, a gente trabalhou muito em cima disso. Foi uma versão feita por fã e uma homenagem, nada mais do que isso. A gente não tinha nenhuma pretensão de que ela se tornasse sucesso, até porque ela se tornou uma letra super hermética, pelo tanto de referências que tinham e que eram difíceis de interpretar.

“São quatro ciclos no deserto do céu”, isso veio porque o Carlão [Carlos Stein, guitarrista] estava lendo um livro sobre a vida dos astronautas onde falava sobre aquela parte em que fica o silêncio no rádio quando ele passa atrás da lua. Foi tudo um troço muito pensado, e feito com esse objetivo.

Aí nós mandamos pra Inglaterra pra que ele aprovasse isso, fizemos a tradução do que estávamos dizendo, até que saiu de lá a aprovação e ele deu o OK pra gente gravar a nossa versão. E a prova maior de que o próprio Bowie aprovou a versão foi quando ele veio fazer show no Brasil onde ele tocou no Morumbi, e antes de tocar "Starman" ele falou: “agora eu vou tocar a música que vocês conhecem a letra em português, podem cantar em português”.

Então, é aquela história, foi uma versão super criticada por um monte de gente que nem conhecia o trabalho do Bowie e que só queria criticar a música porque ela estava fazendo sucesso. E até mesmo alguns caras do próprio meio musical foram extremamente indelicados. Nós, como fãs, fizemos nossa homenagem honestamente, e fomos reconhecidos por nosso próprio ídolo como sendo uma coisa bacana, o que pra gente foi uma realização.


Billboard Brasil: O sucesso da música te surpreendeu? Até hoje vocês sempre são lembrados por ela...

Thedy: Lógico, muito. A gente não fazia ideia. A letra realmente tinha essa questão hermética, e a gente brincou um pouco com a sonoridade das palavras. E o que foi mais legal foi que algumas pessoas que chegaram lá e disseram “eu não conhecia o David Bowie, não sabia quem ele era, agora eu vou atrás por causa disso”. E pra gente que é fã, de uma certa maneira, a gente estava ajudando para que o trabalho dele fosse conhecido.


Billboard Brasil: Qual é seu álbum favorito do David Bowie?

Thedy: Cara, eu sou fascinado pelo Hunky Dory.