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Sem falar “cara”, Dinho analisa o cenário eleitoral e seu amor pelo rock

por em 26/08/2014
ong>Por José Flávio Júnior   Viva A Revolução, novo trabalho do Capital Inicial, pode ser resumido como uma reflexão pós-junho de 2013. Em sete faixas, sempre escudado pelo compositor Alvin L, Dinho Ouro Preto expõe o que sentiu desde que se viu marchando nas ruas, ao lado de manifestantes menos ilustres, mas tão preocupados com o futuro do Brasil quanto ele. Em dia de debate entre os candidatos à presidência (na Band, a partir das 22 horas), vale a pena ouvir o que o cantor de 50 anos tem a dizer sobre o quadro eleitoral, uma vez que ele se mostrava bastante empolgado com a candidatura do finado Eduardo Campos (chegou a visitar o ex-governador em Pernambuco para conhecer suas ideias). Se a última imagem que você tem de Dinho se posicionando politicamente é a do ridículo discurso com nariz de palhaço no Rock in Rio, pode se surpreender com opiniões a seguir, inclusive sobre a sua própria dificuldade de se expressar em ocasiões como a do festival. Falando por telefone de sua casa, sem qualquer holofote esquentando os miolos, Dinho não soltou nenhum “cara”, o vício de linguagem do qual ele vem tentando se livrar. O papo também enveredou pela sua relação com os jovens de hoje, o rock, e termina com indicação de autores e livros que estão fazendo sua cabeça no momento. A pedido de Billboard Brasil, ele se fotografou segurando as obras favoritas DINHO-OURO-PRETO     Como você recebeu a morte de Eduardo Campos? Vi a notícia na academia, fazendo esteira. Quase caí do bagulho. Pensei: não é possível. Pela primeira vez, alguém conseguia me demover do meu ceticismo, me fazia acreditar que seria uma pessoa capaz de inspirar o Brasil, e acontece um negócio desses? Desliguei a esteira na hora e fui embora. A equipe do Eduardo veio na minha casa dias depois e gravei um depoimento para eles usarem no horário eleitoral, descrevendo como tinha sido meu encontro com ele, no dia em que bati em sua casa. Eles tentaram arrancar de mim um compromisso com a Marina Silva, mas não tinha como eu fazer isso.   Você não aderiu a Marina de imediato? Minha confiança era no Eduardo. Nem mesmo o partido dele, o PSB, é tão homogêneo. A Luiza Erundina, por exemplo, me parece uma pessoa muito mais ligada à esquerda ortodoxa, fala de luta de classes, um marxismo, em minha opinião, datado. No discurso do Eduardo você não via isso. Por outro lado, o Romário concorre ao senado pelo PSB. É um partido bastante heterogêneo. Até os irmãos Gomes, do Ceará, já foram do PSB. Não tenho como estender minha simpatia a Marina logo de cara. Tenho dúvidas sobre duas bandeiras dela. Uma é a ambiental. O Brasil vive de commodities. Se ela se revelar uma jihadista ambiental, como fica? Pode inviabilizar nossa economia. Eu defendo causas bastante liberais. E ela é uma mulher evangélica. E aí? Pode ser que, ao longo da campanha, ela adote um tom mais conciliador e se mostre capaz de viabilizar a economia brasileira, em grande parte pautada pelo agronegócio e exportação de minérios. Mas preciso esperar a campanha engrenar para avaliar isso. Acho que é preciso alternância no poder. Vejo com bons olhos a saída da Dilma. Mas posso me abster de votar no segundo turno se eu entender que os candidatos representam um retrocesso para o Brasil.   Já houve vezes em que você se manifestou sobre política e virou motivo de chacota, como no Rock in Rio. Apesar de bem informado, por que você não consegue passar o recado de maneira adequada no palco? No Rock in Rio foi nervosismo. Eu leio dois jornais por dia, venho de uma família politizada, sou filho de um cientista político e uma historiadora. Meu avô também era historiador, minha irmã, idem. Num show de rock, com a cabeça fervilhando e cem mil pessoas na sua frente, você acaba parecendo alguém desarticulado, incapaz de formular uma ideia. Quando vejo o que fiz, acho o maior mico. No entanto, são ossos do ofício. Tem dias em que as coisas conspiram contra você. O seu discurso contundente sai completamente atravessado, sem nexo, cheio de gírias, como se viesse de um semianalfabeto. Para consertar, só falando outras vezes, dando novas entrevistas. As pessoas, eventualmente, podem perceber que você não é um imbecil.   É verdade que você está tentando se controlar para falar menos “cara”, a muleta mais presente em seu discurso? Eu recorria ao “cara” em momentos de nervosismo. Virava uma espécie de vírgula. O pior é que eu não percebia quando isso começava a acontecer. Era quase como se eu fosse possuído por uma entidade. Deus me livre! Outro dia, dei entrevista em casa e o jornalista comentou que eu não tinha falado “cara” uma única vez.   Hoje também! Pois é. Eu não falo repetidas vezes. E tento me interpretar. De onde vem isso? Também fico perplexo, também fico frustrado. Acabo fazendo um papelão, passando por idiota. A vantagem de se ter uma carreira longa e consolidada é que pintam outras oportunidades de se mostrar um pouco mais calmo e articulado, como de fato acho que sou.   O jornalista de cultura pop André Forastieri diz que a única banda de rock dos anos 80 que ele respeita é o Capital Inicial, pois seria a única a continuar dialogando com os jovens de hoje em dia. O que você pensa sobre isso? Que o mundo dá voltas. A percepção das pessoas muda. E, mal ou bem, com toda a celeridade da Folha de S. Paulo, tivemos vários elogios do jornal, especialmente da reunião para cá. Eles eram mais hostis ao Capital da primeira fase. Não estou dizendo que você deve ficar indiferente às críticas, pois muitas vezes elas são pertinentes, te fazem olhar para o seu próprio umbigo. Um grande defeito de artistas, em geral, é a autoindulgência. É bom quando alguém te coloca no teu lugar. E nós temos um diálogo com a juventude porque nunca paramos de lançar discos. A grande virtude é essa. O Capital nunca quis viver do passado. Lançamos discos quase de maneira compulsiva, obsessiva. Tenho pavor do Capital virar uma banda que as pessoas venham ver por nostalgia, para lembrar como era legal a década de 80. Desde que voltamos, em 1998, já soltamos dez álbuns, um número alto para uma banda veterana. Não sou o melhor juiz para julgar, mas tenho a impressão de ter me tornado um compositor melhor nos últimos três discos. Ainda que soe pretensioso, acho que exerço melhor minha profissão hoje.   Mas há quem te classifique como um adolescente que se recusa a crescer, que não vê esse diálogo com a juventude como algo salutar. É que, no Brasil, espera-se que o roqueiro se torne mais adulto, se afaste do rock. Como se rock tivesse prazo de validade, como se não pegasse bem uma pessoa de 50 anos estar vinculada ao estilo. No entanto, fora do Brasil, você pega o Ozzy Osbourne, e ele se expressa da mesma maneira que se expressava há 40 anos. O Steven Tyler, a mesma coisa. Eu dediquei minha vida ao rock. Entrei no Capital aos 19 anos. Estou cercado de gente que fala do jeito que eu falo, que usa as mesmas gírias, isso é inerente ao meu meio. Não vejo motivo algum para reconsiderar a música que faço. Não vejo motivo algum para fazer uma parceria com o Caetano Veloso. Não gosto de MPB. Meu negócio é rock. Por mais simples que seja, continuo gostando de Ramones. Ouço The Clash, ouço Arctic Monkeys, meu iPod é só isso. Não faço nenhum esforço para parecer pueril. Optei por uma música cujo discurso é muito direto ao ponto e isso tem um apelo com a garotada. A virtude do rock é essa.   Você poderia fazer alguma recomendação de livro que esteja lendo ou tenha terminado recentemente e tenha gostado muito? Ultimamente, tenho lido muito mais romancistas, principalmente Paul Auster e Philip Roth. O que leio de não ficção, basicamente, é livro de história. Tenho fascínio pela Segunda Guerra Mundial e pela Idade Média. Tem um cara que escreveu um livro sobre a Batalha de Stalingrado, depois um sobre a queda do Muro de Berlim e o mais recente é sobre o Dia D: Antony Beevor. Esse O Dia D (Editora Record) eu li em inglês. É tão horripilante. Tem de ter uma certa paciência, porque ele fala muito sobre brigadas e grupos militares. Mas o drama humano é que é avassalador. É uma carnificina tão grande que você até duvida que aquilo possa ter acontecido. dinho1  
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1
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
2
Eu Vou Te Buscar (Cha La La La La) (part. Hungria Hip Hop)
Gusttavo LIma
3
Saudade
Eduardo Costa
4
Amor Da Sua Cama
Felipe Araújo
5
De Quem É A Culpa?
Marília Mendonça
RANKING COMPLETO
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Sem falar “cara”, Dinho analisa o cenário eleitoral e seu amor pelo rock

por em 26/08/2014
ong>Por José Flávio Júnior   Viva A Revolução, novo trabalho do Capital Inicial, pode ser resumido como uma reflexão pós-junho de 2013. Em sete faixas, sempre escudado pelo compositor Alvin L, Dinho Ouro Preto expõe o que sentiu desde que se viu marchando nas ruas, ao lado de manifestantes menos ilustres, mas tão preocupados com o futuro do Brasil quanto ele. Em dia de debate entre os candidatos à presidência (na Band, a partir das 22 horas), vale a pena ouvir o que o cantor de 50 anos tem a dizer sobre o quadro eleitoral, uma vez que ele se mostrava bastante empolgado com a candidatura do finado Eduardo Campos (chegou a visitar o ex-governador em Pernambuco para conhecer suas ideias). Se a última imagem que você tem de Dinho se posicionando politicamente é a do ridículo discurso com nariz de palhaço no Rock in Rio, pode se surpreender com opiniões a seguir, inclusive sobre a sua própria dificuldade de se expressar em ocasiões como a do festival. Falando por telefone de sua casa, sem qualquer holofote esquentando os miolos, Dinho não soltou nenhum “cara”, o vício de linguagem do qual ele vem tentando se livrar. O papo também enveredou pela sua relação com os jovens de hoje, o rock, e termina com indicação de autores e livros que estão fazendo sua cabeça no momento. A pedido de Billboard Brasil, ele se fotografou segurando as obras favoritas DINHO-OURO-PRETO     Como você recebeu a morte de Eduardo Campos? Vi a notícia na academia, fazendo esteira. Quase caí do bagulho. Pensei: não é possível. Pela primeira vez, alguém conseguia me demover do meu ceticismo, me fazia acreditar que seria uma pessoa capaz de inspirar o Brasil, e acontece um negócio desses? Desliguei a esteira na hora e fui embora. A equipe do Eduardo veio na minha casa dias depois e gravei um depoimento para eles usarem no horário eleitoral, descrevendo como tinha sido meu encontro com ele, no dia em que bati em sua casa. Eles tentaram arrancar de mim um compromisso com a Marina Silva, mas não tinha como eu fazer isso.   Você não aderiu a Marina de imediato? Minha confiança era no Eduardo. Nem mesmo o partido dele, o PSB, é tão homogêneo. A Luiza Erundina, por exemplo, me parece uma pessoa muito mais ligada à esquerda ortodoxa, fala de luta de classes, um marxismo, em minha opinião, datado. No discurso do Eduardo você não via isso. Por outro lado, o Romário concorre ao senado pelo PSB. É um partido bastante heterogêneo. Até os irmãos Gomes, do Ceará, já foram do PSB. Não tenho como estender minha simpatia a Marina logo de cara. Tenho dúvidas sobre duas bandeiras dela. Uma é a ambiental. O Brasil vive de commodities. Se ela se revelar uma jihadista ambiental, como fica? Pode inviabilizar nossa economia. Eu defendo causas bastante liberais. E ela é uma mulher evangélica. E aí? Pode ser que, ao longo da campanha, ela adote um tom mais conciliador e se mostre capaz de viabilizar a economia brasileira, em grande parte pautada pelo agronegócio e exportação de minérios. Mas preciso esperar a campanha engrenar para avaliar isso. Acho que é preciso alternância no poder. Vejo com bons olhos a saída da Dilma. Mas posso me abster de votar no segundo turno se eu entender que os candidatos representam um retrocesso para o Brasil.   Já houve vezes em que você se manifestou sobre política e virou motivo de chacota, como no Rock in Rio. Apesar de bem informado, por que você não consegue passar o recado de maneira adequada no palco? No Rock in Rio foi nervosismo. Eu leio dois jornais por dia, venho de uma família politizada, sou filho de um cientista político e uma historiadora. Meu avô também era historiador, minha irmã, idem. Num show de rock, com a cabeça fervilhando e cem mil pessoas na sua frente, você acaba parecendo alguém desarticulado, incapaz de formular uma ideia. Quando vejo o que fiz, acho o maior mico. No entanto, são ossos do ofício. Tem dias em que as coisas conspiram contra você. O seu discurso contundente sai completamente atravessado, sem nexo, cheio de gírias, como se viesse de um semianalfabeto. Para consertar, só falando outras vezes, dando novas entrevistas. As pessoas, eventualmente, podem perceber que você não é um imbecil.   É verdade que você está tentando se controlar para falar menos “cara”, a muleta mais presente em seu discurso? Eu recorria ao “cara” em momentos de nervosismo. Virava uma espécie de vírgula. O pior é que eu não percebia quando isso começava a acontecer. Era quase como se eu fosse possuído por uma entidade. Deus me livre! Outro dia, dei entrevista em casa e o jornalista comentou que eu não tinha falado “cara” uma única vez.   Hoje também! Pois é. Eu não falo repetidas vezes. E tento me interpretar. De onde vem isso? Também fico perplexo, também fico frustrado. Acabo fazendo um papelão, passando por idiota. A vantagem de se ter uma carreira longa e consolidada é que pintam outras oportunidades de se mostrar um pouco mais calmo e articulado, como de fato acho que sou.   O jornalista de cultura pop André Forastieri diz que a única banda de rock dos anos 80 que ele respeita é o Capital Inicial, pois seria a única a continuar dialogando com os jovens de hoje em dia. O que você pensa sobre isso? Que o mundo dá voltas. A percepção das pessoas muda. E, mal ou bem, com toda a celeridade da Folha de S. Paulo, tivemos vários elogios do jornal, especialmente da reunião para cá. Eles eram mais hostis ao Capital da primeira fase. Não estou dizendo que você deve ficar indiferente às críticas, pois muitas vezes elas são pertinentes, te fazem olhar para o seu próprio umbigo. Um grande defeito de artistas, em geral, é a autoindulgência. É bom quando alguém te coloca no teu lugar. E nós temos um diálogo com a juventude porque nunca paramos de lançar discos. A grande virtude é essa. O Capital nunca quis viver do passado. Lançamos discos quase de maneira compulsiva, obsessiva. Tenho pavor do Capital virar uma banda que as pessoas venham ver por nostalgia, para lembrar como era legal a década de 80. Desde que voltamos, em 1998, já soltamos dez álbuns, um número alto para uma banda veterana. Não sou o melhor juiz para julgar, mas tenho a impressão de ter me tornado um compositor melhor nos últimos três discos. Ainda que soe pretensioso, acho que exerço melhor minha profissão hoje.   Mas há quem te classifique como um adolescente que se recusa a crescer, que não vê esse diálogo com a juventude como algo salutar. É que, no Brasil, espera-se que o roqueiro se torne mais adulto, se afaste do rock. Como se rock tivesse prazo de validade, como se não pegasse bem uma pessoa de 50 anos estar vinculada ao estilo. No entanto, fora do Brasil, você pega o Ozzy Osbourne, e ele se expressa da mesma maneira que se expressava há 40 anos. O Steven Tyler, a mesma coisa. Eu dediquei minha vida ao rock. Entrei no Capital aos 19 anos. Estou cercado de gente que fala do jeito que eu falo, que usa as mesmas gírias, isso é inerente ao meu meio. Não vejo motivo algum para reconsiderar a música que faço. Não vejo motivo algum para fazer uma parceria com o Caetano Veloso. Não gosto de MPB. Meu negócio é rock. Por mais simples que seja, continuo gostando de Ramones. Ouço The Clash, ouço Arctic Monkeys, meu iPod é só isso. Não faço nenhum esforço para parecer pueril. Optei por uma música cujo discurso é muito direto ao ponto e isso tem um apelo com a garotada. A virtude do rock é essa.   Você poderia fazer alguma recomendação de livro que esteja lendo ou tenha terminado recentemente e tenha gostado muito? Ultimamente, tenho lido muito mais romancistas, principalmente Paul Auster e Philip Roth. O que leio de não ficção, basicamente, é livro de história. Tenho fascínio pela Segunda Guerra Mundial e pela Idade Média. Tem um cara que escreveu um livro sobre a Batalha de Stalingrado, depois um sobre a queda do Muro de Berlim e o mais recente é sobre o Dia D: Antony Beevor. Esse O Dia D (Editora Record) eu li em inglês. É tão horripilante. Tem de ter uma certa paciência, porque ele fala muito sobre brigadas e grupos militares. Mas o drama humano é que é avassalador. É uma carnificina tão grande que você até duvida que aquilo possa ter acontecido. dinho1