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Sepultura, 30 anos: sem ressentimentos com o passado e de olho no futuro

por Marcos Lauro em 19/06/2015

A banda Sepultura, um dos artistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente, completa 30 anos.  Sem os irmãos fundadores, Max e Iggor Cavalera, o grupo segue impassível e não aparenta sofrer esse e outros baques que tantos anos de estrada lhe impuseram. Com Andreas Kisser, Paulo Jr., Derrick Green (que já completa 18 anos no grupo!) e Eloy Casagrande (que entrou em 2011, no lugar de Jean Dolabella), o Sepultura faz seu show comemorativo de 30 anos em São Paulo neste sábado (20/06).

Clique aqui e ouça 11 sons para conhecer (ou gostar mais ainda de) Sepultura

A Billboard Brasil conversou com a banda e não foi sozinha. Por meio de um concurso cultural, selecionamos dois fãs para acompanharem o papo: Wesley Silva e Lucca Ferreira, ambos de São Paulo. No bate-papo, uma panorâmica sobre o passado, a fase paz e amor do presente e alguns planos.

Como está o português, Derrick?
Derrick: Tá ótimo! [risos] Depois de turnê nos Estados Unidos, tá perfeito...

Cê vai pra lá e desaprende, né?
Andreas: Só na Flórida que dá pra falar bastante português...

Muita coisa pra se falar sobre os 30 anos. Qual foi o grande marco na história da banda, pra cada um de vocês?
Andreas: Felizmente, olhando pra trás, tem vários momentos fantásticos. O dia em que conheci o Paulo Jr. foi um grande marco na minha vida [risos].
Paulo: Com certeza!
Derrick: O meu também!
Eloy: Quando eu conheci o Paulo, ele foi o maior cuzão comigo [risos].
Andreas: Mas sério agora [risos]. A saída do Max e a entrada do Derrick foi o marco que fez a gente estar aqui. O Max [Cavalera] saiu no auge da banda, com a turnê do Roots [1996] explodindo e chegando num nível mais alto, até mais do que a gente imaginou. A entrada do Derrick foi fundamental e ele está fazendo 18 anos de banda. A gente queria um cara novo, não um clone do Max. Até porque, mesmo dentro da formação tradicional da banda, a gente mudou muito. Sempre teve essa coisa de mudança, fazer música com os xavantes, percussão... mas a mudança radical mesmo foi essa. Tivemos que achar vocalista, empresário, produtor e estamos aqui hoje por causa disso. Por causa dessa levantada de cabeça mesmo. A gente começou a fazer um Sepultura novo. A banda poderia ter acabado ali, tinha até uma torcida pra isso.
Paulo: Tenho vários momentos. O primeiro dia em que conheci os meninos, a primeira vez em que a gente entrou num estúdio pra gravar... eu gravei direto na mesa, não tinha amplificador. Eu não sabia nem o que era gravação. A primeira vez em que tocamos em São Paulo, depois fora do Brasil, Rock in Rio, primeira vez com o Black Sabbath...
Derrick: Tem um cara nos Estados Unidos, em Nova York, Mike Gitter, da gravadora Roadrunner, que é muito importante. Ele era o cara da gravadora que pensava diferente, acreditou na banda, acreditou em mim. Nessa época, quando Max saiu, ele foi a única pessoa da gravadora que acreditou. Eloy: Sem dúvida foi a minha entrada [risos]. Pra mim, claro que foi... eu tinha todos os CDs, era fã, e estava junto com os caras. Mas o disco Nation [2001] foi o primeiro que eu comprei da banda, minha mãe não queria deixar eu escutar [risos]. Eu conheci o Sepultura primeiro com o Derrick, depois ouvi o resto. O meu primeiro show fora do Brasil, na Alemanha, foi marcante também.

O fã de hard rock e metal tem uma imagem mais tradicional, ainda gosta de discos, vinil, essas coisas. E hoje tem muita banda que não lança mais discos, lança músicas soltas. Como vocês veem isso?
Andreas: Ah, a gente é old school, né? A gente gosta da ideia do álbum. Até porque a gente trabalhou muito com discos temáticos. O próprio Roots é temático. O Dante XXI [2006], Nation, A-Lex [2009]... o último, The Mediator Between Head And Hands Must Be The Heart [2013], tem uma frase que permeia todo o disco. A gente até fez agora uma faixa isolada, a “Under My Skin”, que é uma celebração aos 30 anos e à galera que tem tatuagens do Sepultura. De dez anos pra cá a gente viu até meu rosto e o rosto do Derrick em tatuagens. É brutal. Cê pensa: “Que cara louco, né?” [risos]. Mas é um respeito inacreditável e o que a gente pôde fazer foi essa música. É legal ter essa opção de lançar uma coisa, o antigo single... saiu em vinil 7”, o digital... a gente tenta aproveitar de tudo, do melhor que tem hoje, mas nunca perde o lance do palco, de tentar fazer o ao vivo. A tradição metal está lá: tem o disco, a letra tem um sentido. Metallica e Iron Maiden ensinaram a gente a fazer isso e s fãs curtem. Muita banda hoje em dia faz turnê só com coisa velha e é legal a gente fazer essa turnê com as coisas atuais. Na turnê do ano passado, a primeira metade do show era só com coisa nova. Nesse show de 30 anos temos que ser mais abrangentes, mas é legal estar atualizado.

E essa onda de revival? Pensaram em fazer algo do tipo?
Andreas: Fizemos poucas coisas pontuais. Rolou o [disco] Arise [1991] no aniversário do Manifesto Rock Bar, em São Paulo. Tocamos o Chaos A.D [1993] inteiro no SESC Belenzinho...
Paulo: Fizemos o Chaos A.D. na Espanha sem ensaio [risos].
Andreas: Foi o improvisos dos improvisos. Mas coisas pontuais, acho legal assim.

O Sepultura sempre foi um dos nomes mais internacionais do Brasil. Como é o fã do Sepultura lá fora?
Derrick: Impressionante! Quando entrei na banda fomos pra Índia, China, Cuba... as pessoas sabiam quase tudo, tinham vinil. Na Rússia tinha gente com a discografia inteira. É muito forte.
Paulo: Autografei fita cassete nessa turnê, cês viram?
Andreas: Tem muitas fitinhas nos países do antigo Bloco Comunista. Na primeira vez em que fomos visitar Auschwitz, tinha a fita do Arise numa banquinha. Mas isso foi em 1991, algo assim. Mas na antiga Tchecoslováquia, Romênia, Rússia, tinha muito. Nosso primeiro disco de ouro é um cassete. Foi na Indonésia. E é legal... a gente foi tocar nos Emirados Árabes, Dubai, e a galera conhece o Sepultura desde sempre. Aí você vê que religião, política e censura não seguram. Atrapalham, claro, mas as coisas chegam. E naquela época já tinha as fitinhas...
Paulo: Agora no avião tinha um tiozinho americano do meu lado com um wakman!

Tem um documentário sobre a banda sendo feito. Como está essa produção?
Andreas: É uma produção da Interface Filmes e tudo começou por causa do pau-brasil. Fizemos o Sepultura com a Orquestra Experimental de Repertório numa Virada Cultural e junto rolou uma ação de plantar mil mudas da árvore na Bahia. Conhecemos o produtor, que já tinha feito um documentário sobre o pau-brasil, que é o material dos arcos dos violinos e tal. E se interessaram em contar a história do Sepultura. Desde então, faz quatro ou cinco anos já que estão acompanhando a banda. Fomos juntos pra Indonésia, Europa, Estados Unidos, acompanharam dois discos, a saída do Jean [Dolabella] e a entrada do Eloy, entrevistas... vamos filmar o show de São Paulo e tal. Abrimos todos os nossos arquivos. O Paulo tem muita coisa guardada... fitas, fotos. E não vai ser pra lavar roupa suja, não é a nossa versão da história. Isso não existe. É uma visão da história da banda por várias pessoas e é pra todo mundo, não só pro fã do metal. A trajetória de uma banda vinda do Brasil, uma história única, interessante, e mostrando porque o Sepultura tá aqui ainda. A cena mudou, veio o grunge, o nu metal – e o Sepultura até fez parte do começo dessa cena também – e estamos aqui num momento muito bom, em termos de gravadora, formação, shows, sem dramas e sem aquela novela mexicana que a gente viveu com os Cavalera. É a cultura brasileira representada pela banda. Cê vai pra fora do país e fala que é do Brasil, lembram de Ayrton Senna, Pelé e Sepultura. É uma conquista! E sem ajuda de governo, de nada. É como ganhar uma olimpíada sozinho. O moleque sai lá da favela e ganha medalha.

Então vocês encaram a trajetória como uma história de superação? Lá no comecinho da banda, havia essa meta ou era só curtição?
Paulo: Era pra curtir, né? O primeiro gol era tocar em São Paulo. Conseguimos, nos mudamos pra cá e tal. A coisa foi ficando mais profissional e dali foi Europa, Estados Unidos...
Andreas: O Max foi muito sagaz no comecinho da banda, de se comunicar com a galera de fora, trocar carta com o cara do Morbid Angel, mandar uma camisa pro Chuck Schuldiner, do Death, e o cara aparecer por aí com a camisa do Bestial Devastation [primeiro EP do Sepultura, 1985]. Quando eu entrei na banda, a gente já tinha essa vontade de tocar fora do Brasil. Mas meu primeiro show foi em Caruaru [risos]. Foi o primeiro show mais longe de Belo Horizonte e foi um marco.
Paulo: E de Caruaru a gente foi pra Porto Alegre, de ônibus. Três dias [risos].
Andreas: Nesse show de Porto Alegre, o pessoal do Krisium tava lá e começou com essa vontade de ter banda. Então a gente já estava incentivando a molecada a ter banda, ter carreira... muito legal. E quando eu entrei, eu trouxe uma influência de um som mais trabalhado e tal.

E onde vocês conseguem enxergar influências do Sepultura hoje?
Andreas: Putz, toda banda menciona o Sepultura. Krisiun, Claustrofobia, Project... e é do caralho você influenciar essa molecada, né? Fora do Brasil tem Slipknot, Korn, Deftones.
Eloy: Dave Grohl é fanzaço!
Andreas: Também.
Eloy: Eu vejo muita influência no Korn e no Slipknot. Eles foram produzidos pelo Ross Robinson, que fez o Roots. E é engraçado que essas bandas também influenciaram a gente. É um ciclo.
Andreas: Glenn Tipton, guitarrista do Judas Priest, me falou que o Chaos A.D. o influenciou muito. Quebrou minhas pernas! [risos]. É o Deus do Olimpo, inatingível, dizendo isso. E nem foi em entrevista,foi pra mim. Maravilhoso.

E vocês ainda passam perrengues em viagens ou isso é passado?
Derrick: O que é “perrengues”?
Andreas: É “dificuldades” [risos]. Ah, sempre rola. Vai pra China, pra Rússia... faz 17 shows na Rússia pra você ver [risos].

Em 20 dias! (risos)
Andreas: Ah, é o ritmo, né... desde sempre. Cê aproveita a estadia e faz. Mas a gente viaja com o mínimo de conforto. Lógico que acontecem umas coisas, mas isso até com o Metallica. Faz parte da estrada.

E o Sepultura daqui dez anos, como vai ser?
Andreas: Putz, cara, eu não penso assim... não dá pra pensar nem daqui dois meses [risos]. Acho que o lance é viver o presente. A gente não se prende ao passado, vive o hoje. Lógico que tem os planos, tem a turnê pra fazer, agenda lotada até novembro, disco novo, documentário... o lance é manter esse tesão de estar no palco e tocar. É um privilégio poder ir pra Rússia tocar, mas é difícil ficar longe da família e tal... e o lance é manter isso. Se a gente começar a fazer as coisas só pra bater cartão, a arte acaba, cê começa a brigar e o negócio desanda. O lance é viver o presente intensamente, respeitando o passado pra construir um futuro sólido.
Paulo: Eu espero mais cabelo branco, disco novo e criar um novo ciclo. Fazer esses 30 anos virarem mais 30... Não sei se a gente aguenta [risos].
Derrick: O mais importante é aprender. Sempre.
Eloy: O importante é se renovar sempre e a gente já tem essa característica. Ser espontâneo e natural.

Pergunta do fã Lucca Ferreira: Como foi tocar com o Destruction?
Andreas: Eles são uma banda muito importante na nossa história. No meu primeiro show com o Sepultura, em Caruaru, foi o primeiro cover que a gente fez, um som mais trabalhado, com solo e tudo. Quando fomos pra nossa primeira turnê lá fora, estávamos em Zurique, na Suíça, e o vocalista foi lá ver a gente, recebeu a gente de braços abertos. Eu respeito muito, nos influenciou demais. Fizemos vários shows e encerramos agora uma turnê com eles nos Estados Unidos. É sempre foda tocar com os ídolos. Eles são muito gente boa, foi uma turnê tranquila.

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Gusttavo LIma
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Marília Mendonça
4
Bengala E Crochê
Maiara & Maraisa
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Aquela Pessoa
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Sepultura, 30 anos: sem ressentimentos com o passado e de olho no futuro

por Marcos Lauro em 19/06/2015

A banda Sepultura, um dos artistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente, completa 30 anos.  Sem os irmãos fundadores, Max e Iggor Cavalera, o grupo segue impassível e não aparenta sofrer esse e outros baques que tantos anos de estrada lhe impuseram. Com Andreas Kisser, Paulo Jr., Derrick Green (que já completa 18 anos no grupo!) e Eloy Casagrande (que entrou em 2011, no lugar de Jean Dolabella), o Sepultura faz seu show comemorativo de 30 anos em São Paulo neste sábado (20/06).

Clique aqui e ouça 11 sons para conhecer (ou gostar mais ainda de) Sepultura

A Billboard Brasil conversou com a banda e não foi sozinha. Por meio de um concurso cultural, selecionamos dois fãs para acompanharem o papo: Wesley Silva e Lucca Ferreira, ambos de São Paulo. No bate-papo, uma panorâmica sobre o passado, a fase paz e amor do presente e alguns planos.

Como está o português, Derrick?
Derrick: Tá ótimo! [risos] Depois de turnê nos Estados Unidos, tá perfeito...

Cê vai pra lá e desaprende, né?
Andreas: Só na Flórida que dá pra falar bastante português...

Muita coisa pra se falar sobre os 30 anos. Qual foi o grande marco na história da banda, pra cada um de vocês?
Andreas: Felizmente, olhando pra trás, tem vários momentos fantásticos. O dia em que conheci o Paulo Jr. foi um grande marco na minha vida [risos].
Paulo: Com certeza!
Derrick: O meu também!
Eloy: Quando eu conheci o Paulo, ele foi o maior cuzão comigo [risos].
Andreas: Mas sério agora [risos]. A saída do Max e a entrada do Derrick foi o marco que fez a gente estar aqui. O Max [Cavalera] saiu no auge da banda, com a turnê do Roots [1996] explodindo e chegando num nível mais alto, até mais do que a gente imaginou. A entrada do Derrick foi fundamental e ele está fazendo 18 anos de banda. A gente queria um cara novo, não um clone do Max. Até porque, mesmo dentro da formação tradicional da banda, a gente mudou muito. Sempre teve essa coisa de mudança, fazer música com os xavantes, percussão... mas a mudança radical mesmo foi essa. Tivemos que achar vocalista, empresário, produtor e estamos aqui hoje por causa disso. Por causa dessa levantada de cabeça mesmo. A gente começou a fazer um Sepultura novo. A banda poderia ter acabado ali, tinha até uma torcida pra isso.
Paulo: Tenho vários momentos. O primeiro dia em que conheci os meninos, a primeira vez em que a gente entrou num estúdio pra gravar... eu gravei direto na mesa, não tinha amplificador. Eu não sabia nem o que era gravação. A primeira vez em que tocamos em São Paulo, depois fora do Brasil, Rock in Rio, primeira vez com o Black Sabbath...
Derrick: Tem um cara nos Estados Unidos, em Nova York, Mike Gitter, da gravadora Roadrunner, que é muito importante. Ele era o cara da gravadora que pensava diferente, acreditou na banda, acreditou em mim. Nessa época, quando Max saiu, ele foi a única pessoa da gravadora que acreditou. Eloy: Sem dúvida foi a minha entrada [risos]. Pra mim, claro que foi... eu tinha todos os CDs, era fã, e estava junto com os caras. Mas o disco Nation [2001] foi o primeiro que eu comprei da banda, minha mãe não queria deixar eu escutar [risos]. Eu conheci o Sepultura primeiro com o Derrick, depois ouvi o resto. O meu primeiro show fora do Brasil, na Alemanha, foi marcante também.

O fã de hard rock e metal tem uma imagem mais tradicional, ainda gosta de discos, vinil, essas coisas. E hoje tem muita banda que não lança mais discos, lança músicas soltas. Como vocês veem isso?
Andreas: Ah, a gente é old school, né? A gente gosta da ideia do álbum. Até porque a gente trabalhou muito com discos temáticos. O próprio Roots é temático. O Dante XXI [2006], Nation, A-Lex [2009]... o último, The Mediator Between Head And Hands Must Be The Heart [2013], tem uma frase que permeia todo o disco. A gente até fez agora uma faixa isolada, a “Under My Skin”, que é uma celebração aos 30 anos e à galera que tem tatuagens do Sepultura. De dez anos pra cá a gente viu até meu rosto e o rosto do Derrick em tatuagens. É brutal. Cê pensa: “Que cara louco, né?” [risos]. Mas é um respeito inacreditável e o que a gente pôde fazer foi essa música. É legal ter essa opção de lançar uma coisa, o antigo single... saiu em vinil 7”, o digital... a gente tenta aproveitar de tudo, do melhor que tem hoje, mas nunca perde o lance do palco, de tentar fazer o ao vivo. A tradição metal está lá: tem o disco, a letra tem um sentido. Metallica e Iron Maiden ensinaram a gente a fazer isso e s fãs curtem. Muita banda hoje em dia faz turnê só com coisa velha e é legal a gente fazer essa turnê com as coisas atuais. Na turnê do ano passado, a primeira metade do show era só com coisa nova. Nesse show de 30 anos temos que ser mais abrangentes, mas é legal estar atualizado.

E essa onda de revival? Pensaram em fazer algo do tipo?
Andreas: Fizemos poucas coisas pontuais. Rolou o [disco] Arise [1991] no aniversário do Manifesto Rock Bar, em São Paulo. Tocamos o Chaos A.D [1993] inteiro no SESC Belenzinho...
Paulo: Fizemos o Chaos A.D. na Espanha sem ensaio [risos].
Andreas: Foi o improvisos dos improvisos. Mas coisas pontuais, acho legal assim.

O Sepultura sempre foi um dos nomes mais internacionais do Brasil. Como é o fã do Sepultura lá fora?
Derrick: Impressionante! Quando entrei na banda fomos pra Índia, China, Cuba... as pessoas sabiam quase tudo, tinham vinil. Na Rússia tinha gente com a discografia inteira. É muito forte.
Paulo: Autografei fita cassete nessa turnê, cês viram?
Andreas: Tem muitas fitinhas nos países do antigo Bloco Comunista. Na primeira vez em que fomos visitar Auschwitz, tinha a fita do Arise numa banquinha. Mas isso foi em 1991, algo assim. Mas na antiga Tchecoslováquia, Romênia, Rússia, tinha muito. Nosso primeiro disco de ouro é um cassete. Foi na Indonésia. E é legal... a gente foi tocar nos Emirados Árabes, Dubai, e a galera conhece o Sepultura desde sempre. Aí você vê que religião, política e censura não seguram. Atrapalham, claro, mas as coisas chegam. E naquela época já tinha as fitinhas...
Paulo: Agora no avião tinha um tiozinho americano do meu lado com um wakman!

Tem um documentário sobre a banda sendo feito. Como está essa produção?
Andreas: É uma produção da Interface Filmes e tudo começou por causa do pau-brasil. Fizemos o Sepultura com a Orquestra Experimental de Repertório numa Virada Cultural e junto rolou uma ação de plantar mil mudas da árvore na Bahia. Conhecemos o produtor, que já tinha feito um documentário sobre o pau-brasil, que é o material dos arcos dos violinos e tal. E se interessaram em contar a história do Sepultura. Desde então, faz quatro ou cinco anos já que estão acompanhando a banda. Fomos juntos pra Indonésia, Europa, Estados Unidos, acompanharam dois discos, a saída do Jean [Dolabella] e a entrada do Eloy, entrevistas... vamos filmar o show de São Paulo e tal. Abrimos todos os nossos arquivos. O Paulo tem muita coisa guardada... fitas, fotos. E não vai ser pra lavar roupa suja, não é a nossa versão da história. Isso não existe. É uma visão da história da banda por várias pessoas e é pra todo mundo, não só pro fã do metal. A trajetória de uma banda vinda do Brasil, uma história única, interessante, e mostrando porque o Sepultura tá aqui ainda. A cena mudou, veio o grunge, o nu metal – e o Sepultura até fez parte do começo dessa cena também – e estamos aqui num momento muito bom, em termos de gravadora, formação, shows, sem dramas e sem aquela novela mexicana que a gente viveu com os Cavalera. É a cultura brasileira representada pela banda. Cê vai pra fora do país e fala que é do Brasil, lembram de Ayrton Senna, Pelé e Sepultura. É uma conquista! E sem ajuda de governo, de nada. É como ganhar uma olimpíada sozinho. O moleque sai lá da favela e ganha medalha.

Então vocês encaram a trajetória como uma história de superação? Lá no comecinho da banda, havia essa meta ou era só curtição?
Paulo: Era pra curtir, né? O primeiro gol era tocar em São Paulo. Conseguimos, nos mudamos pra cá e tal. A coisa foi ficando mais profissional e dali foi Europa, Estados Unidos...
Andreas: O Max foi muito sagaz no comecinho da banda, de se comunicar com a galera de fora, trocar carta com o cara do Morbid Angel, mandar uma camisa pro Chuck Schuldiner, do Death, e o cara aparecer por aí com a camisa do Bestial Devastation [primeiro EP do Sepultura, 1985]. Quando eu entrei na banda, a gente já tinha essa vontade de tocar fora do Brasil. Mas meu primeiro show foi em Caruaru [risos]. Foi o primeiro show mais longe de Belo Horizonte e foi um marco.
Paulo: E de Caruaru a gente foi pra Porto Alegre, de ônibus. Três dias [risos].
Andreas: Nesse show de Porto Alegre, o pessoal do Krisium tava lá e começou com essa vontade de ter banda. Então a gente já estava incentivando a molecada a ter banda, ter carreira... muito legal. E quando eu entrei, eu trouxe uma influência de um som mais trabalhado e tal.

E onde vocês conseguem enxergar influências do Sepultura hoje?
Andreas: Putz, toda banda menciona o Sepultura. Krisiun, Claustrofobia, Project... e é do caralho você influenciar essa molecada, né? Fora do Brasil tem Slipknot, Korn, Deftones.
Eloy: Dave Grohl é fanzaço!
Andreas: Também.
Eloy: Eu vejo muita influência no Korn e no Slipknot. Eles foram produzidos pelo Ross Robinson, que fez o Roots. E é engraçado que essas bandas também influenciaram a gente. É um ciclo.
Andreas: Glenn Tipton, guitarrista do Judas Priest, me falou que o Chaos A.D. o influenciou muito. Quebrou minhas pernas! [risos]. É o Deus do Olimpo, inatingível, dizendo isso. E nem foi em entrevista,foi pra mim. Maravilhoso.

E vocês ainda passam perrengues em viagens ou isso é passado?
Derrick: O que é “perrengues”?
Andreas: É “dificuldades” [risos]. Ah, sempre rola. Vai pra China, pra Rússia... faz 17 shows na Rússia pra você ver [risos].

Em 20 dias! (risos)
Andreas: Ah, é o ritmo, né... desde sempre. Cê aproveita a estadia e faz. Mas a gente viaja com o mínimo de conforto. Lógico que acontecem umas coisas, mas isso até com o Metallica. Faz parte da estrada.

E o Sepultura daqui dez anos, como vai ser?
Andreas: Putz, cara, eu não penso assim... não dá pra pensar nem daqui dois meses [risos]. Acho que o lance é viver o presente. A gente não se prende ao passado, vive o hoje. Lógico que tem os planos, tem a turnê pra fazer, agenda lotada até novembro, disco novo, documentário... o lance é manter esse tesão de estar no palco e tocar. É um privilégio poder ir pra Rússia tocar, mas é difícil ficar longe da família e tal... e o lance é manter isso. Se a gente começar a fazer as coisas só pra bater cartão, a arte acaba, cê começa a brigar e o negócio desanda. O lance é viver o presente intensamente, respeitando o passado pra construir um futuro sólido.
Paulo: Eu espero mais cabelo branco, disco novo e criar um novo ciclo. Fazer esses 30 anos virarem mais 30... Não sei se a gente aguenta [risos].
Derrick: O mais importante é aprender. Sempre.
Eloy: O importante é se renovar sempre e a gente já tem essa característica. Ser espontâneo e natural.

Pergunta do fã Lucca Ferreira: Como foi tocar com o Destruction?
Andreas: Eles são uma banda muito importante na nossa história. No meu primeiro show com o Sepultura, em Caruaru, foi o primeiro cover que a gente fez, um som mais trabalhado, com solo e tudo. Quando fomos pra nossa primeira turnê lá fora, estávamos em Zurique, na Suíça, e o vocalista foi lá ver a gente, recebeu a gente de braços abertos. Eu respeito muito, nos influenciou demais. Fizemos vários shows e encerramos agora uma turnê com eles nos Estados Unidos. É sempre foda tocar com os ídolos. Eles são muito gente boa, foi uma turnê tranquila.