NOTÍCIAS

20 anos de Sobrevivendo no Inferno, clássico dos Racionais MC’s

Leia (e ouça) um faixa-a-faixa do álbum que mostrou o rap nacional para a grande imprensa

por Marcos Lauro em 20/12/2017

No dia 20 de dezembro de 1997, os Racionais MC’s lançavam, oficialmente, o álbum Sobrevivendo no Inferno em show no Ginásio do Corinthians, na zona leste de São Paulo. O álbum já completava quase um mês nas ruas e, segundo a Folha de S. Paulo, já havia vendido cerca de 100 mil cópias, algo impensável para um grupo de rap nacional.

Com 12 faixas, o álbum foi um marco na história do grupo e do rap brasileiro. Pela primeira vez, a grande mídia dava espaço pra um trabalho do gênero, especialmente por conta do impacto de “Diário de um Detento”, música que ganhou clipe e teve alta rotatividade na MTV – que, na época pré-YouTube, dava as cartas no país quando o assunto era clipe.

OS SONS POR TRÁS DOS RACIONAIS MCS

Fizemos um faixa-a-faixa do álbum para comemorar os 20 anos de Sobrevivendo no Inferno. Leia (e ouça):

“Jorge da Capadócia”


Originalmente, essa música não existia no álbum, que já começaria direto com “Capítulo 4, Versículo 3”. Mas ao sentir que o clima do álbum estava muito pesado, os Racionais pensaram numa abertura que fosse como uma oração para abrir os caminhos e amenizar um pouco o que viria a seguir. Daí nasceu a música com a oração a São Jorge com o instrumental da faixa “Ike’s Rap II”, de Isaac Hayes – sampler também utilizado no hit “Glory Box”, do Portishead, lançado alguns anos antes.

“Genesis”


Mano Brown dá a letra do que é sobreviver no inferno. Em diversas entrevistas, Brown falou que as lembranças dessa época não são positivas e que ele viu muita coisa ruim acontecer ao seu redor – por isso as músicas desse disco passaram tantos anos sem serem cantadas nos shows.

“Capítulo 4, Versículo 3”


Uma das músicas mais raivosas dos Racionais MC’s. Com um timbre bem gangsta rap norte-americano, o grupo rima sobre a violência, o comportamento e a ética do jovem de periferia – negro, especialmente. Aos 27 anos, “contrariando a estatística”, Brown canta de forma explosiva, quase raivosa, misturando o sagrado e o profano – “Louvado seja o meu Senhor que não deixa o mano aqui desandar e nem sentar o dedo em nenhum pilantra/Mas que nenhum filho da puta ignore a minha lei”. A violência é explícita.

“Tô Ouvindo Alguém Me Chamar”


Essa faixa colaborou muito para o folclore que cercava os Racionais, especialmente nessa época em que os integrantes se recusavam a falar com a imprensa. A música fala sobre um bandido que teve Guina como seu mentor. A narrativa, forte e cheia de detalhes, fez com que surgissem vários “Guinas” pelo Brasil. Ou seja, pessoas que diziam que conheciam o “Guina de verdade” e até gente que dizia ser o próprio – um desses “Guinas” chegou a circular por várias igrejas evangélicas para dar o seu relato de criminoso convertido. Mano Brown deixou claro, anos depois, que o Guina da música é um personagem fictício.

“Rapaz Comum”


Edi Rock fala sobre um jovem de periferia que sofre um atentado enquanto assiste um jogo do Santos pela TV. Nesse momento em que a vida passa diante dos olhos, ele vai narrando histórias da sua trajetória e se arrepende por ter escolhido certos caminhos. “Errar a vida inteira é muito fácil/pra sobreviver aqui tem que ser mágico”.

“...”


A faixa instrumental que divide o disco ao meio – importante nos tempos do vinil – e dá um respiro antes do grande clássico do álbum.

“Diário de um Detento”


Um ex-detento do Carandiru entregou uma carta para Mano Brown com sua versão dos fatos ocorridos no dia dois de outubro de 1992, data conhecida como Massacre do Carandiru. Oficialmente, 111 presos foram mortos pela Polícia Militar do Estado de São Paulo após uma rebelião que tomou conta de todo o presídio – relatos de sobreviventes dão conta que esse número divulgado é muito menor do que o real. Brown usou como base a letra de Josemir Prado para escrever um dos grandes clássicos dos Racionais MC’s, um relato contundente e cheio de detalhes sobre o dia a dia na cadeia e, claro, o fatídico dia do massacre. Sucesso na MTV, foi a música que chamou a atenção da grande mídia para o grupo – que até então era ignorado ou só era notícia quando algo de ruim acontecia nos shows. Sucesso nas ruas, mas a música é um tabu até hoje nas cadeias – segundo Brown, em uma entrevista, a música deixa o clima muito tenso e não é ouvida por quem está preso.

“Periferia É Periferia”


Depois do petardo “Sobrevivendo No Inferno” é até difícil prestar atenção em alguma outra coisa, mas Edi Rock consegue segurar a onda com uma das músicas que reforçam a posição do grupo como porta-voz das favelas. Se o Bezerra da Silva era “a voz dos morros” no Rio de Janeiro, os Racionais se tornaram a voz das periferias de São Paulo com músicas como essa.

“Qual Mentira Vou Acreditar”


Essa é uma das músicas dos Racionais que acabaram se tornando polêmicas com o tempo e com o aumento da percepção do politicamente correto – por parte dos próprios integrantes, inclusive. Edi Rock e Ice Blue narram um rolê por uma balada em Santana, na zona norte de São Paulo. Blue encontra uma garota e, depois de uma demonstração de racismo por parte da moça, os adjetivos não são nem um pouco elogiosos.

“Màgico de Oz”


Uma das músicas que serve como assinatura no repertório de Edi Rock fala sobre um garoto que vive sozinho nas ruas em meio à violência e às drogas. O mundo de Oz serve como paradoxo em relação ao inferno onde o garoto sobrevive. O problema do vício em crack é um dos temas centrais da música.

“Fórmula Mágica da Paz”


Música que complementa o clima de “Mágico de Oz”. Um álbum que começa com faixas raivosas e cheias de violência explícita termina com músicas que alimentam a esperança – sem, claro, evidenciar os problemas. Se na anterior, Edi Rock pede para que um mundo cheio de coisas ruins se transforme na terra de Oz, nessa música é Brown que usa sua história como exemplo de superação. “Meus outros manos todos foram longe demais/Cemitério São Luis aqui jaz”. A meta é a busca pela fórmula mágica da paz.

“Salve”


O sampler da faixa de abertura volta para que os quatro integrantes mandem salves para parceiros e quebradas. Antes do Waze ou do Google Maps, era os Racionais que levavam para o rolê pela periferia.

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Zé da Recaída
Gusttavo Lima
2
Só Pra Castigar
Wesley Safadão
3
Sofázinho (Part. Jorge & Mateus)
Luan Santana
4
Atrasadinha (Part. Ferrugem)
Felipe Araújo
5
Notificação Preferida
Zé Neto & Cristiano
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

20 anos de Sobrevivendo no Inferno, clássico dos Racionais MC’s

Leia (e ouça) um faixa-a-faixa do álbum que mostrou o rap nacional para a grande imprensa

por Marcos Lauro em 20/12/2017

No dia 20 de dezembro de 1997, os Racionais MC’s lançavam, oficialmente, o álbum Sobrevivendo no Inferno em show no Ginásio do Corinthians, na zona leste de São Paulo. O álbum já completava quase um mês nas ruas e, segundo a Folha de S. Paulo, já havia vendido cerca de 100 mil cópias, algo impensável para um grupo de rap nacional.

Com 12 faixas, o álbum foi um marco na história do grupo e do rap brasileiro. Pela primeira vez, a grande mídia dava espaço pra um trabalho do gênero, especialmente por conta do impacto de “Diário de um Detento”, música que ganhou clipe e teve alta rotatividade na MTV – que, na época pré-YouTube, dava as cartas no país quando o assunto era clipe.

OS SONS POR TRÁS DOS RACIONAIS MCS

Fizemos um faixa-a-faixa do álbum para comemorar os 20 anos de Sobrevivendo no Inferno. Leia (e ouça):

“Jorge da Capadócia”


Originalmente, essa música não existia no álbum, que já começaria direto com “Capítulo 4, Versículo 3”. Mas ao sentir que o clima do álbum estava muito pesado, os Racionais pensaram numa abertura que fosse como uma oração para abrir os caminhos e amenizar um pouco o que viria a seguir. Daí nasceu a música com a oração a São Jorge com o instrumental da faixa “Ike’s Rap II”, de Isaac Hayes – sampler também utilizado no hit “Glory Box”, do Portishead, lançado alguns anos antes.

“Genesis”


Mano Brown dá a letra do que é sobreviver no inferno. Em diversas entrevistas, Brown falou que as lembranças dessa época não são positivas e que ele viu muita coisa ruim acontecer ao seu redor – por isso as músicas desse disco passaram tantos anos sem serem cantadas nos shows.

“Capítulo 4, Versículo 3”


Uma das músicas mais raivosas dos Racionais MC’s. Com um timbre bem gangsta rap norte-americano, o grupo rima sobre a violência, o comportamento e a ética do jovem de periferia – negro, especialmente. Aos 27 anos, “contrariando a estatística”, Brown canta de forma explosiva, quase raivosa, misturando o sagrado e o profano – “Louvado seja o meu Senhor que não deixa o mano aqui desandar e nem sentar o dedo em nenhum pilantra/Mas que nenhum filho da puta ignore a minha lei”. A violência é explícita.

“Tô Ouvindo Alguém Me Chamar”


Essa faixa colaborou muito para o folclore que cercava os Racionais, especialmente nessa época em que os integrantes se recusavam a falar com a imprensa. A música fala sobre um bandido que teve Guina como seu mentor. A narrativa, forte e cheia de detalhes, fez com que surgissem vários “Guinas” pelo Brasil. Ou seja, pessoas que diziam que conheciam o “Guina de verdade” e até gente que dizia ser o próprio – um desses “Guinas” chegou a circular por várias igrejas evangélicas para dar o seu relato de criminoso convertido. Mano Brown deixou claro, anos depois, que o Guina da música é um personagem fictício.

“Rapaz Comum”


Edi Rock fala sobre um jovem de periferia que sofre um atentado enquanto assiste um jogo do Santos pela TV. Nesse momento em que a vida passa diante dos olhos, ele vai narrando histórias da sua trajetória e se arrepende por ter escolhido certos caminhos. “Errar a vida inteira é muito fácil/pra sobreviver aqui tem que ser mágico”.

“...”


A faixa instrumental que divide o disco ao meio – importante nos tempos do vinil – e dá um respiro antes do grande clássico do álbum.

“Diário de um Detento”


Um ex-detento do Carandiru entregou uma carta para Mano Brown com sua versão dos fatos ocorridos no dia dois de outubro de 1992, data conhecida como Massacre do Carandiru. Oficialmente, 111 presos foram mortos pela Polícia Militar do Estado de São Paulo após uma rebelião que tomou conta de todo o presídio – relatos de sobreviventes dão conta que esse número divulgado é muito menor do que o real. Brown usou como base a letra de Josemir Prado para escrever um dos grandes clássicos dos Racionais MC’s, um relato contundente e cheio de detalhes sobre o dia a dia na cadeia e, claro, o fatídico dia do massacre. Sucesso na MTV, foi a música que chamou a atenção da grande mídia para o grupo – que até então era ignorado ou só era notícia quando algo de ruim acontecia nos shows. Sucesso nas ruas, mas a música é um tabu até hoje nas cadeias – segundo Brown, em uma entrevista, a música deixa o clima muito tenso e não é ouvida por quem está preso.

“Periferia É Periferia”


Depois do petardo “Sobrevivendo No Inferno” é até difícil prestar atenção em alguma outra coisa, mas Edi Rock consegue segurar a onda com uma das músicas que reforçam a posição do grupo como porta-voz das favelas. Se o Bezerra da Silva era “a voz dos morros” no Rio de Janeiro, os Racionais se tornaram a voz das periferias de São Paulo com músicas como essa.

“Qual Mentira Vou Acreditar”


Essa é uma das músicas dos Racionais que acabaram se tornando polêmicas com o tempo e com o aumento da percepção do politicamente correto – por parte dos próprios integrantes, inclusive. Edi Rock e Ice Blue narram um rolê por uma balada em Santana, na zona norte de São Paulo. Blue encontra uma garota e, depois de uma demonstração de racismo por parte da moça, os adjetivos não são nem um pouco elogiosos.

“Màgico de Oz”


Uma das músicas que serve como assinatura no repertório de Edi Rock fala sobre um garoto que vive sozinho nas ruas em meio à violência e às drogas. O mundo de Oz serve como paradoxo em relação ao inferno onde o garoto sobrevive. O problema do vício em crack é um dos temas centrais da música.

“Fórmula Mágica da Paz”


Música que complementa o clima de “Mágico de Oz”. Um álbum que começa com faixas raivosas e cheias de violência explícita termina com músicas que alimentam a esperança – sem, claro, evidenciar os problemas. Se na anterior, Edi Rock pede para que um mundo cheio de coisas ruins se transforme na terra de Oz, nessa música é Brown que usa sua história como exemplo de superação. “Meus outros manos todos foram longe demais/Cemitério São Luis aqui jaz”. A meta é a busca pela fórmula mágica da paz.

“Salve”


O sampler da faixa de abertura volta para que os quatro integrantes mandem salves para parceiros e quebradas. Antes do Waze ou do Google Maps, era os Racionais que levavam para o rolê pela periferia.