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Aretuza Lovi: "Pop nacional também foi reerguido por drags"

Cantora lançou nesta quinta-feira o clipe de "Movimento", parceria com IZA e parte de seu disco lançado pela Sony Music, Mercadinho

por Rebecca Silva em 26/07/2018

Bruno Tutida Nascimento não se imaginava se tornando Aretuza Lovi quando, depois de perder uma aposta, montou-se como drag pela primeira vez com as roupas da mãe de um amigo.

Do interior de Goiás, trabalhava em loja de shopping e já chegou a ser produtor artístico de bandas de forró no Nordeste antes de se tornar um dos maiores nomes da drag music no Brasil. 

Nesta quinta-feira (25/07), Aretuza Lovi lançou o clipe de "Movimento", sua parceria com a cantora IZA, parte do seu disco Mercadinho, lançado no início do mês pela Sony Music.

Billboard Brasil conversou com Aretuza sobre o início da carreira, representatividade e o cenário musical atual:

Pelo que fiquei sabendo, a sua história como drag começou como uma brincadeira entre amigos, após perder uma aposta. Você já tinha imaginado isso antes? Acompanhava a cena drag nessa época?

Eu nunca me imaginei sendo drag, aconteceu de forma bem natural. Sempre adorei a cultura, via vídeos de drags que hoje posso dizer que são grandes amigas. Sempre tive carinho e respeito pelo cenário, mas não tinha intenção de ser drag, nem de trabalhar com isso. Foi algo que aconteceu naturalmente, fui moldando aos poucos a minha arte.

Antes de investir na carreira, o que você fazia da vida? Você foi primeiro drag ou primeiro cantora? 

Eu trabalhava em loja de shopping. Sempre tive relação grande com música, já fui produtor artístico de bandas de forró no Nordeste, mas nunca me meti a cantar. Essa foi uma grande escola porque tinha contato com os músicos, conhecia e me encantava pelos instrumentos, achava lindo aquelas cantoras... Já me imaginei várias vezes ali, no palco. Quando me tornei drag, vi que a personagem caiu no gosto, me permiti cantar. Há quase sete anos gravei a primeira música, não tinha esse boom drag, me aventurei e deu muito certo. Deixei fluir. As pessoas diziam que eu não podia ser cantora. Eu posso ser o que eu quiser, se me fizer feliz e fizer os outros felizes. Me descobri como cantora e estou aqui hoje, com minhas músicas tocando, fazendo os outros felizes.

Quais foram as maiores inspirações musicais e visuais para montar a sua estética drag?

Esteticamente, criei a minha personalidade. Gosto de analisar o meu rosto, visto o que me satisfaz. Hoje tenho profissionais que cuidam disso comigo, trocamos figurinhas. Não tenho uma inspiração especial. Musicalmente, me inspiro no Brasil, que é muito rico culturalmente. Tento absorver um pouco de cada coisa. 

aretuza1Divulgação/Rodolfo Magalhães

Como é a questão do vocal? Você estuda canto?

Tenho três produtores maravilhosos que me ensinam muito, me dão dicas. A IZA também me ajuda muito. Vou estudando, vejo muitos vídeos, procuro músicas que são compatíveis com a minha voz. A busca pelo conhecimento é sempre importante. 

A questão da representatividade nesse cenário é muito forte. A Pabllo e a Gloria dizem que se encontraram assistindo RuPaul. Em quem você se espelhava quando era mais nova e como tem sido ser um exemplo para a nova geração? 

Eu venho de uma geração um pouco mais velha do que as meninas, tenho 28 anos. Na minha adolescência, eu não tinha acesso à internet, computador. Sou do interior, o máximo que tinha era televisão. Acho RuPaul incrível, trouxe muita visibilidade, assisto também, mas não tive tempo de acompanhar como elas. Então as minhas referências LGBTQ eram da televisão: Ney Matogrosso, Cazuza. Meu pai assistia e dizia "ele é viado, mas canta bem". E eu pensava: "Eu também sou”. Meu pai era preconceituoso, mas consumia Cazuza, Renato Russo, Ney Matogrosso. Minhas grandes referências foram esses artistas, mas a maior de todas, a que considero a nossa RuPaul é Elke Maravilha, mesmo não sendo drag. Foi uma grande rainha, extravagante, chamava atenção. Me despertava curiosidade não saber se era homem ou mulher. Hoje, busco representatividade em tudo o que me faz bem, no que posso passar para os outros. Fico feliz de ter muita gente que se identifica comigo.

Antigamente, já existia uma cena drag que cantava, mas as músicas eram muito de nicho. Como é fazer parte dessa geração que está quebrando barreiras, atingindo um público mais heteronormativo que não acompanha a cena LGBTQ?

Há muitos anos, aconteceu o boom da drag music. Fico muito feliz de fazer parte da nova geração, mas temos que valorizar e lembrar de quem começou a história lá atrás: Verônika, Dimmy Kieer, Leo Áquila. Com aquela música eletrônica, bate cabelo, que fazia sucesso nos nichos. Era muito segregado, de boate. É muito bom ver que aquela semente que elas plantaram floresceu e agora fazemos música para todos os lugares, para todas as idades. Esses dias passei na rua e uma loja estava tocando minha música. Ligo a TV e vejo meu clipe passando. Você imagina isso acontecendo há 10, 20 anos? É muito revolucionário, assim como existiu a Tropicália, a Jovem Guarda, existe um novo movimento. Queremos nos consolidar. Hoje, a gente faz pop, farofa, mistura com brasilidade. Daqui uns anos, pretendo cantar outras coisas que gosto.

Muitas músicas de artistas drag falam sobre a noite, a pista, a balada, as bebidas. Mas você pensa em cantar sobre outras coisas também no futuro? 

Em Mercadinho eu quis trazer muito disso, esse astral de festa, beber e estar com os amigos, situações que viraram músicas. Mas quis pedir também que não falte amor, falar de aceitação. Em "Amor Mutante", falo sobre como nos veem como aberrações. Não segrego meu som porque música não tem gênero, cor, sexualidade. Ela toca as pessoas de formas muito diferentes. Acima de ser drag, sou artista. Sou Aretuza cantora, tenho orgulho de ser drag, mas vejo muitas matérias em que nos denominam cantora drag. Por que não só cantora? Somos artistas como qualquer outro, não é vitimismo.

O pop nacional também foi reerguido por drags. Anitta tem um trabalho maravilhoso... Ludmilla, IZA... Fizemos o pop nacional renascer. Olha o que a Pabllo fez! Estar nesse movimento é muito legal. Dividir vocais de músicas com outros artistas, estar com grandes personalidades que jamais imaginei estar, mostrando que somos iguais.

aretuza2Divulgação/Rodolfo Magalhães

 Como se deu a escolha das participações especiais do disco: Gloria Groove, Pabllo Vittar, Solange Almeida, Valesca e IZA?

Quando começamos o projeto do disco, eu queria a participação de pessoas que fizessem parte da minha história, de verdade. Todas fazem.

Gloria e Pabllo são irmãs. Nos conhecemos nas gravações de Amor & Sexo e sonhávamos em trabalhar com música. Ver tudo isso acontecendo é muito incrível.

Sol é uma pessoa que escutei muito, que fez parte da minha adolescência, que embalou minhas paixões quando não podia contar para ninguém. Tem uma voz poderosa. A conheci há uns quatro, cinco anos, e ela me recebeu com muito carinho. Já tínhamos falado sobre gravar algo juntas antes, mas estávamos em momentos diferentes. Agora nos encontramos e fluiu.

Eu abria os shows da Valesca e ela se tornou uma grande amiga. Ela sempre teve respeito e carinho pelo meu trabalho há muitos anos.

A IZA é mais recente, mas com peso muito grande. Ela me ensina e me faz bem estar ao lado dela. É uma mulher firme, instruída.

Divulgamos a capa do seu disco, Mercadinho, em primeira mão no nosso Instagram. Como foi a criação do conceito do disco?

A Gloria [Groove] fala de mercadinho na nossa música com a Pabllo, "Joga Bunda". Isso estourou na nossa comunidade. Foi daí que pensei no nome para o disco. Quis seguir esse conceito. Fotografei em um mercado tradicional em São Paulo, com essa vibe meio vintage, de mãe de família fazendo compras nos anos 1960. Fiquei deslumbrada com o resultado, não esperava que fosse ficar tão lindo. Sou fã do meu trabalho, de mim mesma [risos].

 

 

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Aretuza Lovi: "Pop nacional também foi reerguido por drags"

Cantora lançou nesta quinta-feira o clipe de "Movimento", parceria com IZA e parte de seu disco lançado pela Sony Music, Mercadinho

por Rebecca Silva em 26/07/2018

Bruno Tutida Nascimento não se imaginava se tornando Aretuza Lovi quando, depois de perder uma aposta, montou-se como drag pela primeira vez com as roupas da mãe de um amigo.

Do interior de Goiás, trabalhava em loja de shopping e já chegou a ser produtor artístico de bandas de forró no Nordeste antes de se tornar um dos maiores nomes da drag music no Brasil. 

Nesta quinta-feira (25/07), Aretuza Lovi lançou o clipe de "Movimento", sua parceria com a cantora IZA, parte do seu disco Mercadinho, lançado no início do mês pela Sony Music.

Billboard Brasil conversou com Aretuza sobre o início da carreira, representatividade e o cenário musical atual:

Pelo que fiquei sabendo, a sua história como drag começou como uma brincadeira entre amigos, após perder uma aposta. Você já tinha imaginado isso antes? Acompanhava a cena drag nessa época?

Eu nunca me imaginei sendo drag, aconteceu de forma bem natural. Sempre adorei a cultura, via vídeos de drags que hoje posso dizer que são grandes amigas. Sempre tive carinho e respeito pelo cenário, mas não tinha intenção de ser drag, nem de trabalhar com isso. Foi algo que aconteceu naturalmente, fui moldando aos poucos a minha arte.

Antes de investir na carreira, o que você fazia da vida? Você foi primeiro drag ou primeiro cantora? 

Eu trabalhava em loja de shopping. Sempre tive relação grande com música, já fui produtor artístico de bandas de forró no Nordeste, mas nunca me meti a cantar. Essa foi uma grande escola porque tinha contato com os músicos, conhecia e me encantava pelos instrumentos, achava lindo aquelas cantoras... Já me imaginei várias vezes ali, no palco. Quando me tornei drag, vi que a personagem caiu no gosto, me permiti cantar. Há quase sete anos gravei a primeira música, não tinha esse boom drag, me aventurei e deu muito certo. Deixei fluir. As pessoas diziam que eu não podia ser cantora. Eu posso ser o que eu quiser, se me fizer feliz e fizer os outros felizes. Me descobri como cantora e estou aqui hoje, com minhas músicas tocando, fazendo os outros felizes.

Quais foram as maiores inspirações musicais e visuais para montar a sua estética drag?

Esteticamente, criei a minha personalidade. Gosto de analisar o meu rosto, visto o que me satisfaz. Hoje tenho profissionais que cuidam disso comigo, trocamos figurinhas. Não tenho uma inspiração especial. Musicalmente, me inspiro no Brasil, que é muito rico culturalmente. Tento absorver um pouco de cada coisa. 

aretuza1Divulgação/Rodolfo Magalhães

Como é a questão do vocal? Você estuda canto?

Tenho três produtores maravilhosos que me ensinam muito, me dão dicas. A IZA também me ajuda muito. Vou estudando, vejo muitos vídeos, procuro músicas que são compatíveis com a minha voz. A busca pelo conhecimento é sempre importante. 

A questão da representatividade nesse cenário é muito forte. A Pabllo e a Gloria dizem que se encontraram assistindo RuPaul. Em quem você se espelhava quando era mais nova e como tem sido ser um exemplo para a nova geração? 

Eu venho de uma geração um pouco mais velha do que as meninas, tenho 28 anos. Na minha adolescência, eu não tinha acesso à internet, computador. Sou do interior, o máximo que tinha era televisão. Acho RuPaul incrível, trouxe muita visibilidade, assisto também, mas não tive tempo de acompanhar como elas. Então as minhas referências LGBTQ eram da televisão: Ney Matogrosso, Cazuza. Meu pai assistia e dizia "ele é viado, mas canta bem". E eu pensava: "Eu também sou”. Meu pai era preconceituoso, mas consumia Cazuza, Renato Russo, Ney Matogrosso. Minhas grandes referências foram esses artistas, mas a maior de todas, a que considero a nossa RuPaul é Elke Maravilha, mesmo não sendo drag. Foi uma grande rainha, extravagante, chamava atenção. Me despertava curiosidade não saber se era homem ou mulher. Hoje, busco representatividade em tudo o que me faz bem, no que posso passar para os outros. Fico feliz de ter muita gente que se identifica comigo.

Antigamente, já existia uma cena drag que cantava, mas as músicas eram muito de nicho. Como é fazer parte dessa geração que está quebrando barreiras, atingindo um público mais heteronormativo que não acompanha a cena LGBTQ?

Há muitos anos, aconteceu o boom da drag music. Fico muito feliz de fazer parte da nova geração, mas temos que valorizar e lembrar de quem começou a história lá atrás: Verônika, Dimmy Kieer, Leo Áquila. Com aquela música eletrônica, bate cabelo, que fazia sucesso nos nichos. Era muito segregado, de boate. É muito bom ver que aquela semente que elas plantaram floresceu e agora fazemos música para todos os lugares, para todas as idades. Esses dias passei na rua e uma loja estava tocando minha música. Ligo a TV e vejo meu clipe passando. Você imagina isso acontecendo há 10, 20 anos? É muito revolucionário, assim como existiu a Tropicália, a Jovem Guarda, existe um novo movimento. Queremos nos consolidar. Hoje, a gente faz pop, farofa, mistura com brasilidade. Daqui uns anos, pretendo cantar outras coisas que gosto.

Muitas músicas de artistas drag falam sobre a noite, a pista, a balada, as bebidas. Mas você pensa em cantar sobre outras coisas também no futuro? 

Em Mercadinho eu quis trazer muito disso, esse astral de festa, beber e estar com os amigos, situações que viraram músicas. Mas quis pedir também que não falte amor, falar de aceitação. Em "Amor Mutante", falo sobre como nos veem como aberrações. Não segrego meu som porque música não tem gênero, cor, sexualidade. Ela toca as pessoas de formas muito diferentes. Acima de ser drag, sou artista. Sou Aretuza cantora, tenho orgulho de ser drag, mas vejo muitas matérias em que nos denominam cantora drag. Por que não só cantora? Somos artistas como qualquer outro, não é vitimismo.

O pop nacional também foi reerguido por drags. Anitta tem um trabalho maravilhoso... Ludmilla, IZA... Fizemos o pop nacional renascer. Olha o que a Pabllo fez! Estar nesse movimento é muito legal. Dividir vocais de músicas com outros artistas, estar com grandes personalidades que jamais imaginei estar, mostrando que somos iguais.

aretuza2Divulgação/Rodolfo Magalhães

 Como se deu a escolha das participações especiais do disco: Gloria Groove, Pabllo Vittar, Solange Almeida, Valesca e IZA?

Quando começamos o projeto do disco, eu queria a participação de pessoas que fizessem parte da minha história, de verdade. Todas fazem.

Gloria e Pabllo são irmãs. Nos conhecemos nas gravações de Amor & Sexo e sonhávamos em trabalhar com música. Ver tudo isso acontecendo é muito incrível.

Sol é uma pessoa que escutei muito, que fez parte da minha adolescência, que embalou minhas paixões quando não podia contar para ninguém. Tem uma voz poderosa. A conheci há uns quatro, cinco anos, e ela me recebeu com muito carinho. Já tínhamos falado sobre gravar algo juntas antes, mas estávamos em momentos diferentes. Agora nos encontramos e fluiu.

Eu abria os shows da Valesca e ela se tornou uma grande amiga. Ela sempre teve respeito e carinho pelo meu trabalho há muitos anos.

A IZA é mais recente, mas com peso muito grande. Ela me ensina e me faz bem estar ao lado dela. É uma mulher firme, instruída.

Divulgamos a capa do seu disco, Mercadinho, em primeira mão no nosso Instagram. Como foi a criação do conceito do disco?

A Gloria [Groove] fala de mercadinho na nossa música com a Pabllo, "Joga Bunda". Isso estourou na nossa comunidade. Foi daí que pensei no nome para o disco. Quis seguir esse conceito. Fotografei em um mercado tradicional em São Paulo, com essa vibe meio vintage, de mãe de família fazendo compras nos anos 1960. Fiquei deslumbrada com o resultado, não esperava que fosse ficar tão lindo. Sou fã do meu trabalho, de mim mesma [risos].