NOTÍCIAS

‘Bohemian Rhapsody’ diverte, mas peca em abordagem e cronologia

Longa, que já está em produção há dez anos, conta com a colaboração dos ex-integrantes Brian May e Roger Taylor e estreia nesta quinta (01) nos cinemas brasileiros

por Rebecca Silva em 31/10/2018

Parecia impossível de acontecer, mas aconteceu. Depois de dez anos de produção, inúmeros imprevistos e cancelamentos, a desistência de Sacha Baron Cohen no desafio de viver Freddie Mercury, finalmente o filme Bohemian Rhapsody, que conta a história dos 15 primeiros anos da banda Queen e de seu icônico vocalista, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (01/11).

O longa, produzido pelos integrantes da banda Brian May e Roger Taylor, acabou se beneficiando das discordâncias entre Cohen [mais conhecido pelo papel de Borat] e o diretor Brian Singer e acabou tendo Rami Malek [Mr. Robot] como Freddie Mercury. O trabalho de caracterização é impressionante em todas as fases do artista que o filme retrata, entre 1970 e 1985. É preciso ressaltar que a dentadura usada pelo ator para reproduzir os dentes protuberantes do cantor – que nunca quis consertá-los por acreditar que ajudavam no seu alcance vocal distinto – é tosca. Principalmente nas primeiras fases, quando Freddie ainda não portava um generoso bigode, é incômodo ver o ator lidando com a dentadura.

Malek poderia se perder no papel, fazendo uma versão caricata de um personagem tão conhecido, mas assumiu o desafio com muita competência. Apesar da ajuda da caracterização, seu trabalho com a postura e os trejeitos de Mercury é impactante.

É Malek, inclusive, quem salva o filme de seus erros. O longa peca em não aprofundar em nada do que se dispõe a mostrar. Bohemian Rhapsody parece apenas pincelar momentos da carreira da banda e outros da vida de Freddie. Sabemos que o artista era conhecido por ser reservado e não falar muito sobre si, mas é um pecado, em 2018, não tratar com mais cuidado e aprofundamento os seus vínculos românticos [mostra-se muito mais do que ele viveu com Mary, sua ex-noiva e parceira da vida toda, do que sua descoberta gay], sua luta contra a AIDS e seu abuso de drogas.

Outro grande erro é cronológico. Também sabemos que biografias acabam se tornando obras de ficção quando viram filmes, mas a licença poética de Bohemian Rhapsody incomoda. A apresentação da banda no Rock in Rio é mostrada na tela ainda na década de 1970, com caracterização completamente diferente da usada pela banda no icônico show. A apresentação, na realidade, foi no mesmo ano do Live Aid, em 1985. Outro erro bizarro é sobre como Freddie comunicou que tinha AIDS. No filme, ele comunica os companheiros de banda que era portador da doença durante um ensaio para o Live Aid, o que transforma as cenas finais em algo muito mais emocionante. É como se o artista estivesse dando tudo de si, lutando contra a doença que já o deixava debilitado, perdendo a voz. Na realidade, ninguém crava com certeza absoluta quando Freddie descobriu a doença – acredita-se que foi entre 1986 e 1987 - mas não houve nenhuma conexão especial com o show beneficente.

Com isso, paira a dúvida: seja para quem não conhece a história ou para quem é fã da banda, é justo ser apresentado com uma versão tão destoante da realidade? Até que ponto tomar liberdades poéticas não prejudica ao contar uma história, ao reimaginar a vida de alguém na telona da forma que melhor vende? Teria sido escolha dos colegas de Freddie, Brian e Roger o não aprofundamento em momentos delicados ou polêmicos?

Voltando para a cena do Live Aid – o filme inicia e termina nela -, é preciso elogiar o trabalho feito. A recriação do inesquecível show, em pleno estádio de Wembley, é impressionante e emociona. O longa reproduz quatro músicas apresentadas na ocasião – “Bohemian Rhapsody”, “Radio GaGa”, “Hammer to Fall” e “We Are The Champions” – e a dublagem não funciona como deveria. Não que se esperasse que Malek cantasse ao vivo ou tivesse a voz parecida com a de Mercury, mas nesse momento em especial, apesar da entrega da performance corporal, a dublagem é tão clara que fica feio. Em entrevistas, o ator afirmou que o que se ouve durante o filme é uma mixagem de sua voz com a de Marc Matel, que ficou conhecido por fazer covers do Queen no YouTube.

Bohemian Rhapsody é divertido – apesar de cafona em alguns momentos -, impressiona pela caracterização e pela atuação de Rami Malek e é um ótimo passatempo. Não espere exatidão cronológica e aproveite a trilha sonora que conta com os grandes sucessos do Queen. Se possível, veja em IMAX. A experiência do Live Aid fica ainda mais impactante.

 

 

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Zé da Recaída
Gusttavo Lima
2
Só Pra Castigar
Wesley Safadão
3
Atrasadinha (Part. Ferrugem)
Felipe Araújo
4
Notificação Preferida
Zé Neto & Cristiano
5
Sofázinho (Part. Jorge & Mateus)
Luan Santana
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

‘Bohemian Rhapsody’ diverte, mas peca em abordagem e cronologia

Longa, que já está em produção há dez anos, conta com a colaboração dos ex-integrantes Brian May e Roger Taylor e estreia nesta quinta (01) nos cinemas brasileiros

por Rebecca Silva em 31/10/2018

Parecia impossível de acontecer, mas aconteceu. Depois de dez anos de produção, inúmeros imprevistos e cancelamentos, a desistência de Sacha Baron Cohen no desafio de viver Freddie Mercury, finalmente o filme Bohemian Rhapsody, que conta a história dos 15 primeiros anos da banda Queen e de seu icônico vocalista, chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (01/11).

O longa, produzido pelos integrantes da banda Brian May e Roger Taylor, acabou se beneficiando das discordâncias entre Cohen [mais conhecido pelo papel de Borat] e o diretor Brian Singer e acabou tendo Rami Malek [Mr. Robot] como Freddie Mercury. O trabalho de caracterização é impressionante em todas as fases do artista que o filme retrata, entre 1970 e 1985. É preciso ressaltar que a dentadura usada pelo ator para reproduzir os dentes protuberantes do cantor – que nunca quis consertá-los por acreditar que ajudavam no seu alcance vocal distinto – é tosca. Principalmente nas primeiras fases, quando Freddie ainda não portava um generoso bigode, é incômodo ver o ator lidando com a dentadura.

Malek poderia se perder no papel, fazendo uma versão caricata de um personagem tão conhecido, mas assumiu o desafio com muita competência. Apesar da ajuda da caracterização, seu trabalho com a postura e os trejeitos de Mercury é impactante.

É Malek, inclusive, quem salva o filme de seus erros. O longa peca em não aprofundar em nada do que se dispõe a mostrar. Bohemian Rhapsody parece apenas pincelar momentos da carreira da banda e outros da vida de Freddie. Sabemos que o artista era conhecido por ser reservado e não falar muito sobre si, mas é um pecado, em 2018, não tratar com mais cuidado e aprofundamento os seus vínculos românticos [mostra-se muito mais do que ele viveu com Mary, sua ex-noiva e parceira da vida toda, do que sua descoberta gay], sua luta contra a AIDS e seu abuso de drogas.

Outro grande erro é cronológico. Também sabemos que biografias acabam se tornando obras de ficção quando viram filmes, mas a licença poética de Bohemian Rhapsody incomoda. A apresentação da banda no Rock in Rio é mostrada na tela ainda na década de 1970, com caracterização completamente diferente da usada pela banda no icônico show. A apresentação, na realidade, foi no mesmo ano do Live Aid, em 1985. Outro erro bizarro é sobre como Freddie comunicou que tinha AIDS. No filme, ele comunica os companheiros de banda que era portador da doença durante um ensaio para o Live Aid, o que transforma as cenas finais em algo muito mais emocionante. É como se o artista estivesse dando tudo de si, lutando contra a doença que já o deixava debilitado, perdendo a voz. Na realidade, ninguém crava com certeza absoluta quando Freddie descobriu a doença – acredita-se que foi entre 1986 e 1987 - mas não houve nenhuma conexão especial com o show beneficente.

Com isso, paira a dúvida: seja para quem não conhece a história ou para quem é fã da banda, é justo ser apresentado com uma versão tão destoante da realidade? Até que ponto tomar liberdades poéticas não prejudica ao contar uma história, ao reimaginar a vida de alguém na telona da forma que melhor vende? Teria sido escolha dos colegas de Freddie, Brian e Roger o não aprofundamento em momentos delicados ou polêmicos?

Voltando para a cena do Live Aid – o filme inicia e termina nela -, é preciso elogiar o trabalho feito. A recriação do inesquecível show, em pleno estádio de Wembley, é impressionante e emociona. O longa reproduz quatro músicas apresentadas na ocasião – “Bohemian Rhapsody”, “Radio GaGa”, “Hammer to Fall” e “We Are The Champions” – e a dublagem não funciona como deveria. Não que se esperasse que Malek cantasse ao vivo ou tivesse a voz parecida com a de Mercury, mas nesse momento em especial, apesar da entrega da performance corporal, a dublagem é tão clara que fica feio. Em entrevistas, o ator afirmou que o que se ouve durante o filme é uma mixagem de sua voz com a de Marc Matel, que ficou conhecido por fazer covers do Queen no YouTube.

Bohemian Rhapsody é divertido – apesar de cafona em alguns momentos -, impressiona pela caracterização e pela atuação de Rami Malek e é um ótimo passatempo. Não espere exatidão cronológica e aproveite a trilha sonora que conta com os grandes sucessos do Queen. Se possível, veja em IMAX. A experiência do Live Aid fica ainda mais impactante.