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Depois do trauma de cancelar um DVD já gravado, Maria Rita se sente confiante com Amor e Música

Cantora conversou com a Billboard Brasil sobre o novo álbum, que reúne um time de compositores de peso

por Marcos Lauro em 31/01/2018

2017 não foi um ano fácil para a cantora Maria Rita. Depois de toda a expectativa sobre um novo projeto, um DVD ao vivo, banda reunida, plateia presente, tudo gravado... o lançamento foi cancelado, pela própria cantora, por questões técnicas. “Esses dias um fã me perguntou onde estavam as imagens. Eu respondi: ‘Num cofre!’ [risos]”, brinca hoje, mais tranquila, a cantora em entrevista para a Billboard Brasil. Depois do luto, um novo projeto.

Amor e Música é um álbum que serve como uma espécie de continuação do projeto do DVD não lançado e reúne um timaço de compositores, como Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Carlinhos Brown, Marcelo Camelo e Moraes Moreira, entre outros.

Conversamos com a cantora sobre esse período difícil no ano passado e, claro, o novo álbum:

Amor e Música tem produção sua [com coprodução de Pretinho da Serrinha]. Você sempre trilhou esse caminho de produzir seus trabalhos. É pra ter uma maior independência, maior poder sobre o processo?
O Tom Capone, no meu primeiro disco, me contou de uma conversa que ele teve com a gravadora. Disseram: “O disco tá legal, mas falta um hit radiofônico”. Ele respondeu: “Aham, vai lá pedir pra ela cantar um hit radiofônico!” [risos]. Isso é pra ilustrar... eu sempre fui muito chata e muito centralizadora. Quem escolhe repertório sou eu, a banda... a última palavra é minha. Claro que tem uma coprodução, mas eu não deixo nada na mão de ninguém. É muito por mim. E de um tempo pra cá eu só sinto mais confiança nisso, vou conhecendo mais gente, fico mais amiga do engenheiro de gravação, dos músicos... mas é um mercado muito cheio de homem, né? Por seu meu, eu me sinto segura de dar tapa na mesa e dizer como vai ser. É o meu “jeitinho” de trabalhar [risos].

Muita gente ainda pensa que uma cantora entra num estúdio, canta e vai embora. Mas tem todo o processo...
Sim... mas tem até artista que prefere isso e tudo bem, eu admiro quem faz essa escolha. Porque é muito cansativo mesmo. Eu, honestamente, não tenho a maturidade de deixar na mão de outra pessoa. É maturidade mesmo... eu não atingi esse lugar de desprendimento. Eu acho que ninguém vai entender tanto quanto eu porque eu ouço as coisas prontas na minha cabeça. Eu não escrevo música... então eu me cerco de gente em quem eu confio, que vai entender o meu papel. É um quebra-cabeça.

Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Moraes Moreira... você tem um belo time de compositores nesse time. Como é reunir essa gente?
Arlindo é praticamente meu padrinho no samba, né? Eu gosto de dizer pra mim mesma que eu mereço isso, que eu trabalho bastante, respeito as pessoas, honro a música... e acho que a gente recebe um pouco do que a gente dá. Esses compositores confiam muito em mim e a gente conversa muito sobre o mercado, sobre as conquistas... ouço muito o que eles têm a dizer. Com 40 anos de idade, eu já me permito dizer pra mim mesma que eu tenho um lugar. Há uns tempos, eu vivia muito de reverências, reverência à música, a outros... eu sou uma operária da música e percebi que também faço muito pela música. Com isso, eu consigo entender que eles veem isso, percebem. E, nesse movimento, eu conquistei o respeito deles.

E tem uma mistura de gerações também. Tem esses consagrados, e tem o Marcelo Camelo, que, se formos ver, tem uma carreira curta no samba ainda. Como essa música dele veio parar no disco?
Eu liguei pra ele, na verdade. O disco é a segunda parte de um projeto. A primeira parte foi o DVD, que gravei ano passado, mas ficou abaixo das minhas expectativas e resolvi não lançar. Depois desse momento de luto, que foi duro pra mim, pros músicos, pra todo mundo, eu trago essas canções pro disco porque já estava ligada a elas. Falei pro Camelo: “Não posso fazer esse projeto sem você junto”. A gente meio que se descobriu juntos, no trabalho dele com o Los Hermanos... ele mandou músicas incríveis, inclusive “Cara Valente” [que Maria Rita gravou na sua estreia em disco, em 2003]. Quando eu vi essa música sendo cantada por uma massa na Lapa (RJ), eu quase caí da cadeira. Então, agora eu liguei pra ele e não encomendei o assunto, só pedi uma música. Eu gosto muito de trabalhar com as sobras dos compositores, tem muito coisa boa ali [risos]. “Cara Valente” foi assim, né... a música era uma sobra do Los Hermanos. E eu me dei bem. “Certa, garota” [risos]!

Lembro que essa questão do cancelamento do seu DVD pegou todo mundo de surpresa, mas tem a ver com o seu jeito de trabalhar... você tomou uma decisão e seguiu em frente. Como foi isso?
Foi muito difícil, mas quando eu decidi eu recebi total apoio da gravadora. Teve uma reunião com o presidente da companhia [Universal Music]. A emenda ia ficar pior que o soneto. Essa integridade artística foi respeitada. Eu lembro que disse na reunião: “Meu público não é burro, eles vão perceber [que não está bom]. O que a gente pretende fazer pra resolver um problema de cor, ou qual seja o problema, que as pessoas não vão perceber?”. Esses dias um fã me perguntou onde estavam as imagens. Eu respondi: “Num cofre!” [risos]. A gente cogitou fazer o show de novo, mas já tinha turnê armada, as datas não iam bater... e não dava pra mandar um e-mail, né? “Atenção, todos que foram ao show, compareçam de novo...” [risos].

Muitas cantoras já me relataram uma certa dificuldade no samba... tentaram entrar e sentiram muita resistência. Você já está consolidada no gênero, mas sentiu isso em algum momento?
Embora eu não tenha tido essa resistência, eu sei que existiu... mas sei porque me contaram, ninguém me falou nada diretamente. Quem estava mais aberto e curioso, me deu carinho. Arlindo Cruz me disse uma vez: “Cantora, muito legal você respeitar o samba, mas não precisa respeitar tanto não. Cê já é nossa [risos]!”. O Serginho Meriti me disse que estava muito emocionado por me mostrar músicas porque o grande sonhe dele era ser gravado por minha mãe. Acho que herdei até isso, esse sonho que muitos deles tinham de chegar na maior cantora do Brasil. Porque a MPB passou a ser algo elitista e eles acharam que nunca poderiam chegar. Ela gravava Milton Nascimento, Chico Buarque, Tom Jobim... e os caras eram do morro! Então quando eu chego, eu carrego um pouco desse sonho deles. E senti medo de lançar o primeiro disco por causa até do meu entendimento de tudo isso... eu saí do Brasil com 16 anos e voltei com 24, então eu sabia de tudo do samba, só que via literatura, não vivência. Me formei em Estudos Latino-Americanos. Por isso cheguei com respeito, cabeça baixa... e eles entenderam isso como uma coisa positiva. Eu só posso falar por mim, não sei quais cantoras sentiram essa resistência, não sei as histórias delas. Mas a minha é essa. Eu fui abraçada.

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Cantora conversou com a Billboard Brasil sobre o novo álbum, que reúne um time de compositores de peso

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2017 não foi um ano fácil para a cantora Maria Rita. Depois de toda a expectativa sobre um novo projeto, um DVD ao vivo, banda reunida, plateia presente, tudo gravado... o lançamento foi cancelado, pela própria cantora, por questões técnicas. “Esses dias um fã me perguntou onde estavam as imagens. Eu respondi: ‘Num cofre!’ [risos]”, brinca hoje, mais tranquila, a cantora em entrevista para a Billboard Brasil. Depois do luto, um novo projeto.

Amor e Música é um álbum que serve como uma espécie de continuação do projeto do DVD não lançado e reúne um timaço de compositores, como Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Carlinhos Brown, Marcelo Camelo e Moraes Moreira, entre outros.

Conversamos com a cantora sobre esse período difícil no ano passado e, claro, o novo álbum:

Amor e Música tem produção sua [com coprodução de Pretinho da Serrinha]. Você sempre trilhou esse caminho de produzir seus trabalhos. É pra ter uma maior independência, maior poder sobre o processo?
O Tom Capone, no meu primeiro disco, me contou de uma conversa que ele teve com a gravadora. Disseram: “O disco tá legal, mas falta um hit radiofônico”. Ele respondeu: “Aham, vai lá pedir pra ela cantar um hit radiofônico!” [risos]. Isso é pra ilustrar... eu sempre fui muito chata e muito centralizadora. Quem escolhe repertório sou eu, a banda... a última palavra é minha. Claro que tem uma coprodução, mas eu não deixo nada na mão de ninguém. É muito por mim. E de um tempo pra cá eu só sinto mais confiança nisso, vou conhecendo mais gente, fico mais amiga do engenheiro de gravação, dos músicos... mas é um mercado muito cheio de homem, né? Por seu meu, eu me sinto segura de dar tapa na mesa e dizer como vai ser. É o meu “jeitinho” de trabalhar [risos].

Muita gente ainda pensa que uma cantora entra num estúdio, canta e vai embora. Mas tem todo o processo...
Sim... mas tem até artista que prefere isso e tudo bem, eu admiro quem faz essa escolha. Porque é muito cansativo mesmo. Eu, honestamente, não tenho a maturidade de deixar na mão de outra pessoa. É maturidade mesmo... eu não atingi esse lugar de desprendimento. Eu acho que ninguém vai entender tanto quanto eu porque eu ouço as coisas prontas na minha cabeça. Eu não escrevo música... então eu me cerco de gente em quem eu confio, que vai entender o meu papel. É um quebra-cabeça.

Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Moraes Moreira... você tem um belo time de compositores nesse time. Como é reunir essa gente?
Arlindo é praticamente meu padrinho no samba, né? Eu gosto de dizer pra mim mesma que eu mereço isso, que eu trabalho bastante, respeito as pessoas, honro a música... e acho que a gente recebe um pouco do que a gente dá. Esses compositores confiam muito em mim e a gente conversa muito sobre o mercado, sobre as conquistas... ouço muito o que eles têm a dizer. Com 40 anos de idade, eu já me permito dizer pra mim mesma que eu tenho um lugar. Há uns tempos, eu vivia muito de reverências, reverência à música, a outros... eu sou uma operária da música e percebi que também faço muito pela música. Com isso, eu consigo entender que eles veem isso, percebem. E, nesse movimento, eu conquistei o respeito deles.

E tem uma mistura de gerações também. Tem esses consagrados, e tem o Marcelo Camelo, que, se formos ver, tem uma carreira curta no samba ainda. Como essa música dele veio parar no disco?
Eu liguei pra ele, na verdade. O disco é a segunda parte de um projeto. A primeira parte foi o DVD, que gravei ano passado, mas ficou abaixo das minhas expectativas e resolvi não lançar. Depois desse momento de luto, que foi duro pra mim, pros músicos, pra todo mundo, eu trago essas canções pro disco porque já estava ligada a elas. Falei pro Camelo: “Não posso fazer esse projeto sem você junto”. A gente meio que se descobriu juntos, no trabalho dele com o Los Hermanos... ele mandou músicas incríveis, inclusive “Cara Valente” [que Maria Rita gravou na sua estreia em disco, em 2003]. Quando eu vi essa música sendo cantada por uma massa na Lapa (RJ), eu quase caí da cadeira. Então, agora eu liguei pra ele e não encomendei o assunto, só pedi uma música. Eu gosto muito de trabalhar com as sobras dos compositores, tem muito coisa boa ali [risos]. “Cara Valente” foi assim, né... a música era uma sobra do Los Hermanos. E eu me dei bem. “Certa, garota” [risos]!

Lembro que essa questão do cancelamento do seu DVD pegou todo mundo de surpresa, mas tem a ver com o seu jeito de trabalhar... você tomou uma decisão e seguiu em frente. Como foi isso?
Foi muito difícil, mas quando eu decidi eu recebi total apoio da gravadora. Teve uma reunião com o presidente da companhia [Universal Music]. A emenda ia ficar pior que o soneto. Essa integridade artística foi respeitada. Eu lembro que disse na reunião: “Meu público não é burro, eles vão perceber [que não está bom]. O que a gente pretende fazer pra resolver um problema de cor, ou qual seja o problema, que as pessoas não vão perceber?”. Esses dias um fã me perguntou onde estavam as imagens. Eu respondi: “Num cofre!” [risos]. A gente cogitou fazer o show de novo, mas já tinha turnê armada, as datas não iam bater... e não dava pra mandar um e-mail, né? “Atenção, todos que foram ao show, compareçam de novo...” [risos].

Muitas cantoras já me relataram uma certa dificuldade no samba... tentaram entrar e sentiram muita resistência. Você já está consolidada no gênero, mas sentiu isso em algum momento?
Embora eu não tenha tido essa resistência, eu sei que existiu... mas sei porque me contaram, ninguém me falou nada diretamente. Quem estava mais aberto e curioso, me deu carinho. Arlindo Cruz me disse uma vez: “Cantora, muito legal você respeitar o samba, mas não precisa respeitar tanto não. Cê já é nossa [risos]!”. O Serginho Meriti me disse que estava muito emocionado por me mostrar músicas porque o grande sonhe dele era ser gravado por minha mãe. Acho que herdei até isso, esse sonho que muitos deles tinham de chegar na maior cantora do Brasil. Porque a MPB passou a ser algo elitista e eles acharam que nunca poderiam chegar. Ela gravava Milton Nascimento, Chico Buarque, Tom Jobim... e os caras eram do morro! Então quando eu chego, eu carrego um pouco desse sonho deles. E senti medo de lançar o primeiro disco por causa até do meu entendimento de tudo isso... eu saí do Brasil com 16 anos e voltei com 24, então eu sabia de tudo do samba, só que via literatura, não vivência. Me formei em Estudos Latino-Americanos. Por isso cheguei com respeito, cabeça baixa... e eles entenderam isso como uma coisa positiva. Eu só posso falar por mim, não sei quais cantoras sentiram essa resistência, não sei as histórias delas. Mas a minha é essa. Eu fui abraçada.