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Discreto e elegante, Chico revive sua face política na turnê Caravanas

Carioca faz homenagens aos parceiros e não dispensa tons críticos na escolha do repertório

Dos diversos tipos de artista que se pode virar quando consagrado, há um adotado por poucos: o estilo mais sutil, pouco adepto dos holofotes e dos palcos, mas ainda produzindo. É um estágio acima do recluso e vários abaixo do superstar. Chico Buarque pertence a este grupo. Tímido desde a primeira aparição pública, o carioca hoje tem alternado o lançamento de discos com livros, faz turnês pontuais e não é figura nada frequente em programas de televisão.

Isso ajuda a explicar o clima em torno de seu retorno aos palcos depois de seis anos. Quando as cortinas do Tom Brasil, em São Paulo, abriram-se na noite de ontem (01/03), a primeira e rápida reação do público foi espanto. “É ele mesmo, é o Chico”, uma jovem falou para a amiga. A segunda, mais duradoura, de ovação. O grupo desaba entre “Lindo”, “Te Amo” e “Casa Comigo”.

Chico Buarque virou uma instituição (embora, hoje, questionada por suas posições políticas). Sem parecer ligar para isso, ele vai direto ao assunto com sua ode ao samba com “Minha Embaixada Chegou”, de Assis Valente, em pout pourri com “Mambembe” (Quando O Carnaval Chegar, 1972) seguido por “Partido Alto” em um arranjo swingado, mais puxado para bossa nova (com toque de rap ao final) do que para o samba gravado originalmente pelo quarteto MPB4.

O tour pela carreira continuou com a versão de “Iolanda”, de Pablo Milanés, gravada com o cubano em 1985. Das nove músicas de Caravanas, álbum que dá nome à turnê lançado no ano passado, sete aparecem espalhadas pela apresentação. Começou com o bolero “Casualmente”, em espanhol. Entre antigas, seguiu com “Desaforos”, a nova adaptação de “Dueto” (regravada com a neta Clara, com referência às redes sociais), “Jogo De Bola” e “Massarandupió” (composta com o neto Chico Brown, o “parceiro mais amado”).

“Blues Para Bia”, por sua vez, abre duas parcerias com Edu Lobo, do tempo dos musicais: “A História De Lily Braun” e “A Bela E A Fera”. A belíssima “Todo O Sentimento” (Francisco, 1987) emenda-se em “Tua Cantiga”, do mais recente.

A banda mantém-se a mesma da turnê Chico (2011), com a exceção da presença fundamental de Wilson das Neves, substituído por Jurim Moreira. Ao genial baterista e amigo, Chico dedica “Grande Hotel”, parceria dos dois, que cantavam juntos nos shows, usando chapéu Panamá.

Além das parcerias com o “grande Edu” e Wilson das Neves, Chico retornou também a suas composições com seu Maestro Soberano. “Ao longo desses mais de 50 anos tenho feito parcerias com letras que escrevi para músicas que gostaria de ter composto, a começar por Tom Jobim”, falou, antes de cantar “Retrato em Branco e Preto” e a questionadora “Sabiá”, que ganhou o Festival da Canção em 1968 (eles foram vaiados na época, já que a favorita era “Pra Dizer Que Não Falei Das Flores”, de Geraldo Vandré).

A música crítica à ditadura militar não estava perdida no contexto. Chico continua um ser político. Não é a toa a mensagem “Meu povo pede licença pra na batucada desacatar”, de Valente, que ele repete no fim: o show tem sua marca de inquietude política.

Além da composição com Tom e o duo “A Volta Do Malandro”/“Homenagem Ao Malandro”, que puxou alguns “Fora Temer” da plateia, este tom chega mais forte ao final. “As Caravanas”, melhor música do não tão inspirado álbum, fala do desolado Rio de Janeiro do século 21 e puxa “Estação Derradeira”, de 1987, homenagem à Mangueira e uma das mais precisas composições sobre a capital fluminense.

Em meio aos debates sobre machismo (do qual, veja, até o próprio compositor foi centro recentemente), “Geni E O Zeppelin”, no excelente arranjo já usado na turnê passada, mostra-se tão atual e importante quanto quando composta, em 1978. “Futuros Amantes” e “Paratodos” completam os bis.

Entre músicas políticas e românticas, parangolés e patrões, ovações e xingamentos nas redes sociais, Chico Buarque mantém-se uma instituição porque tudo sempre se trata da sua obra. Ele evita inflamar os protestos durante as apresentações (no máximo, um sorriso irônico ou uma acompanhada de violão nos gritos de “Fora Temer”), assim como polêmicas fora do palco (mesmo quando criticado injustamente).

A apresentação com 30 músicas e cerca de duas horas traz mais força ao recente Caravanas, já conhecido por parte da plateia. Ao vivo, sua voz envelhecida ganha o carisma do seu sorriso característico.

A mensagem de inquietude que abre o espetáculo e a ode à cultura brasileira que o fecha mostram que o carioca mantém sua essência em mais de 50 anos de carreira. Mais à vontade sentado que em pé, Chico não precisa de muito para arrancar gritos apaixonados da plateia, basta andar de uma ponta a outra do palco. Discreto e malandro, na turnê “Caravanas” ele passa a mensagem que quer com elegância, inteligência e sutileza - lição que pode ser passada - por que não? - aos compatriotas em tempos tão extremos.

 

 

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Discreto e elegante, Chico revive sua face política na turnê Caravanas

Carioca faz homenagens aos parceiros e não dispensa tons críticos na escolha do repertório

por Lucas Borges Teixeira em 02/03/2018

Dos diversos tipos de artista que se pode virar quando consagrado, há um adotado por poucos: o estilo mais sutil, pouco adepto dos holofotes e dos palcos, mas ainda produzindo. É um estágio acima do recluso e vários abaixo do superstar. Chico Buarque pertence a este grupo. Tímido desde a primeira aparição pública, o carioca hoje tem alternado o lançamento de discos com livros, faz turnês pontuais e não é figura nada frequente em programas de televisão.

Isso ajuda a explicar o clima em torno de seu retorno aos palcos depois de seis anos. Quando as cortinas do Tom Brasil, em São Paulo, abriram-se na noite de ontem (01/03), a primeira e rápida reação do público foi espanto. “É ele mesmo, é o Chico”, uma jovem falou para a amiga. A segunda, mais duradoura, de ovação. O grupo desaba entre “Lindo”, “Te Amo” e “Casa Comigo”.

Chico Buarque virou uma instituição (embora, hoje, questionada por suas posições políticas). Sem parecer ligar para isso, ele vai direto ao assunto com sua ode ao samba com “Minha Embaixada Chegou”, de Assis Valente, em pout pourri com “Mambembe” (Quando O Carnaval Chegar, 1972) seguido por “Partido Alto” em um arranjo swingado, mais puxado para bossa nova (com toque de rap ao final) do que para o samba gravado originalmente pelo quarteto MPB4.

O tour pela carreira continuou com a versão de “Iolanda”, de Pablo Milanés, gravada com o cubano em 1985. Das nove músicas de Caravanas, álbum que dá nome à turnê lançado no ano passado, sete aparecem espalhadas pela apresentação. Começou com o bolero “Casualmente”, em espanhol. Entre antigas, seguiu com “Desaforos”, a nova adaptação de “Dueto” (regravada com a neta Clara, com referência às redes sociais), “Jogo De Bola” e “Massarandupió” (composta com o neto Chico Brown, o “parceiro mais amado”).

“Blues Para Bia”, por sua vez, abre duas parcerias com Edu Lobo, do tempo dos musicais: “A História De Lily Braun” e “A Bela E A Fera”. A belíssima “Todo O Sentimento” (Francisco, 1987) emenda-se em “Tua Cantiga”, do mais recente.

A banda mantém-se a mesma da turnê Chico (2011), com a exceção da presença fundamental de Wilson das Neves, substituído por Jurim Moreira. Ao genial baterista e amigo, Chico dedica “Grande Hotel”, parceria dos dois, que cantavam juntos nos shows, usando chapéu Panamá.

Além das parcerias com o “grande Edu” e Wilson das Neves, Chico retornou também a suas composições com seu Maestro Soberano. “Ao longo desses mais de 50 anos tenho feito parcerias com letras que escrevi para músicas que gostaria de ter composto, a começar por Tom Jobim”, falou, antes de cantar “Retrato em Branco e Preto” e a questionadora “Sabiá”, que ganhou o Festival da Canção em 1968 (eles foram vaiados na época, já que a favorita era “Pra Dizer Que Não Falei Das Flores”, de Geraldo Vandré).

A música crítica à ditadura militar não estava perdida no contexto. Chico continua um ser político. Não é a toa a mensagem “Meu povo pede licença pra na batucada desacatar”, de Valente, que ele repete no fim: o show tem sua marca de inquietude política.

Além da composição com Tom e o duo “A Volta Do Malandro”/“Homenagem Ao Malandro”, que puxou alguns “Fora Temer” da plateia, este tom chega mais forte ao final. “As Caravanas”, melhor música do não tão inspirado álbum, fala do desolado Rio de Janeiro do século 21 e puxa “Estação Derradeira”, de 1987, homenagem à Mangueira e uma das mais precisas composições sobre a capital fluminense.

Em meio aos debates sobre machismo (do qual, veja, até o próprio compositor foi centro recentemente), “Geni E O Zeppelin”, no excelente arranjo já usado na turnê passada, mostra-se tão atual e importante quanto quando composta, em 1978. “Futuros Amantes” e “Paratodos” completam os bis.

Entre músicas políticas e românticas, parangolés e patrões, ovações e xingamentos nas redes sociais, Chico Buarque mantém-se uma instituição porque tudo sempre se trata da sua obra. Ele evita inflamar os protestos durante as apresentações (no máximo, um sorriso irônico ou uma acompanhada de violão nos gritos de “Fora Temer”), assim como polêmicas fora do palco (mesmo quando criticado injustamente).

A apresentação com 30 músicas e cerca de duas horas traz mais força ao recente Caravanas, já conhecido por parte da plateia. Ao vivo, sua voz envelhecida ganha o carisma do seu sorriso característico.

A mensagem de inquietude que abre o espetáculo e a ode à cultura brasileira que o fecha mostram que o carioca mantém sua essência em mais de 50 anos de carreira. Mais à vontade sentado que em pé, Chico não precisa de muito para arrancar gritos apaixonados da plateia, basta andar de uma ponta a outra do palco. Discreto e malandro, na turnê “Caravanas” ele passa a mensagem que quer com elegância, inteligência e sutileza - lição que pode ser passada - por que não? - aos compatriotas em tempos tão extremos.