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“É só questão de tempo até a coroa ser nossa”, diz Gloria Groove

Drag queen se destaca no cenário com o single “Bumbum de Ouro”, que ultrapassou os 18 milhões de visualizações no YouTube e entrou para a trilha de Malhação

por Rebecca Silva em 04/05/2018

Daniel Garcia começou a sua carreira musical ainda criança, cantando em programas de televisão e participando de grupo infantil. Você pode nunca ter ouvido falar dele, mas com certeza já ouviu sua voz em algum filme ou desenho, porque ele também trabalha há muitos anos como dublador. Hannah Montana, Power Rangers, Digimon e a franquia da Disney, Descendentes, são alguns dos títulos para os quais emprestou a voz.

Daniel sempre esteve rodeado de arte. Desde a família, que há gerações tem bagagem artística, passando pelo coral da igreja que frequentava, até as aulas de teatro, que o ajudaram a se descobrir. Foi então que se encontrou como Gloria Groove e achou a válvula certa para se expressar artisticamente.

Com seu “Bumbum de Ouro”, a drag já passa de 18 milhões de visualizações no YouTube e entrou na trilha desta temporada de Malhação, que tem um personagem que também se veste com peças femininas para se apresentar.

Em um cenário crescente para artistas drag no país, liderado pelo fenômeno Pabllo Vittar, Gloria é expoente e se diferencia pela sua sonoridade, que flerta com o rap e o hip hop, e pelo alcance vocal.

A Billboard Brasil conversou com Gloria Groove sobre a sua descoberta como drag e as escolhas de sua carreira musical:

Você começou a sua carreira musical ainda criança, participando da nova formação do Balão Mágico e cantando no programa do Raul Gil. Como surgiu essa vontade de cantar?

Venho de família de músicos, a minha mãe [Gina Garcia] é backing vocal do Raça Negra há 20 anos. A família tem essa bagagem artística há gerações. A minha mãe já cantou em baile, em viagem de navio, na noite e sempre ensaiava perto de mim. Desde que fiz 7 anos, nunca mais parei de cantar. E algo que ela sempre me disse foi para ter repertório, ter referências.

O que você considera de positivo e negativo em começar tão cedo?

Há uns três anos, quando tinha uns 17, 18 anos, tinha uma diferença drástica com meus amigos porque eu já saí da escola encaminhada, a Gloria já estava nascendo. Fiquei quase 10 anos envolvida com dublagem e teatro musical. Eu tinha certeza que ia ser ator de musical do Teatro Renault, mas me encontrei artisticamente como drag.

Foi uma dádiva começar cedo, ganhei senso de responsabilidade. Aos 15 anos, já tinha meu próprio dinheiro. A forma que amadureci foi diferente. Não sei dirigir, não fiz faculdade, não sei andar de bicicleta [risos] porque tive oportunidades diferentes.

Como se deu a descoberta da sua homossexualidade?

Acredito que passamos por três ou mais processos de aceitação. Ser gay veio primeiro. Aos 14 anos, eu morava com outras sete pessoas da família em casa. Era puberdade, fase de se descobrir, de se aceitar. Minha família me tirou do armário. Descobriram minhas conversas com um menino na internet por quem que eu era apaixonado. Sempre fui uma criança afeminada. O teatro me libertou e me descobri drag, mas demorou ainda para eu me entender como bicha, entender que não sou daqueles gays que passam batido. Tentava me higienizar, ser gay passável. E não sou bicha, sou bichona. É preciso ressignificar as palavras e encontrar poder nisso. Em todos esses processos, a minha sorte era ser independente financeiramente. Não era subordinado a ninguém. Tinha responsabilidade e valor aplicado a mim.

gloriagrooveDivulgação/Rodolfo Magalhães

Quais eram as suas referências musicais nessa época?

A primeira música que aprendi a cantar foi de Mariah Carey. Minha mãe me apresentou Elis. Depois comecei a ouvir muito hip hop e R&B como Alicia Keys, Usher, Ja Rule, Ashanti.

Nessa descoberta como homossexual, ouvia Lady Gaga, já fui muito little monster. E a cena das mulheres no rap, como Flora Matos e Karol Conka. A Flora me empoderou muito, fui em uns três shows dela. Ver aquelas mulheres no palco fazendo rap com atitude e sem pedir desculpa, sem pedir licença... Ela me libertou. Já como drag, o Rico Dalasam foi a influência. Agora o chamo de amigo, mas já fui muito fã. 

Você frequentava a igreja e chegou a cantar no coral. No interlúdio do seu disco, você diz que já brigou com Deus e o questionou sobre o porquê de Ele ter feito você gay. Isso realmente aconteceu?

Isso aconteceu comigo sim, ainda na primeira infância, principalmente porque eu não era igual aos meninos e às meninas. Tinha aquela pressão da igreja para ser pleno, para seguir o plano, então briguei com Deus porque eu não era igual, eu não era normal. Faltava eu sair desse ambiente e me desenvolver como pessoa para entender.

Você já disse que ter visto RuPaul’s Drag Race serviu de inspiração para você se iniciar na arte drag. A Pabllo Vittar também cita o programa como sua referência. Esse cenário costumava ser muito nichado e marginalizado por aqui. Como foi essa questão da representatividade para você?

O programa tem um impacto cultural para gays, principalmente nós que temos o fator drag. Brasileiro precisa ver gringo fazendo para achar legal, né? Eu já sabia quem era Ikaro Kadoshi, Silvetty Montilla, mas não me sentia parte daquilo. Precisei ver a drag americana fazendo para achar legal. A cena no nosso país é tão plural. Olha a Pabllo Vittar! Estamos lançando talentos para o mundo. Assisto ao programa até hoje por causa do apelo estético, a forma que isso traduz os sentimentos.

GLORIOSA_RODOLFO.MAGALHAESDivulgação/Rodolfo Magalhães

O cenário musical drag está crescendo muito no Brasil e é algo que não necessariamente segue um padrão internacional, já que não vemos drags no mainstream ou em rankings. Pensou que sua arte teria esse peso por aqui, ainda mais com a atual onda conservadora?

Eu sempre achei que seria possível. As bichas são geniais, estamos por trás de todos os projetos. Em um casamento, quem é o estilista? Quem faz cabelo, maquiagem? Quem organiza? A revolução sexual foi o que precisamos para o nosso potencial ir para a linha de frente. É só questão de tempo até a coroa ser nossa. O público LGBT indica caminhos, consome. Imagina para as crianças verem isso hoje? Eu não tive isso. É muito inspirador. Como será a próxima geração que já cresceu nos vendo ocupando esses espaços?

É possível perceber uma mudança na sonoridade do seu primeiro disco para o single “Bumbum de Ouro”, que é bem mais pop do que seus trabalhos anteriores. Seus próximos singles vão seguir essa linha?

Tenho coisas muito legais gravadas, algumas seguem essa linha pop porque quero aproveitar a subida, usar a sonoridade que agrada. Estou na minha fase pop e depois posso ter a fase que eu quiser. Amo fazer o que for, desde que seja com prazer. Me descobrir. Sou muito fã de Lady Gaga. Quero ver os gêneros que consigo explorar. Quero me destacar pela versatilidade. Não importa quão genérica seja a letra, “Bumbum de Ouro” podia ser do repertório do MC Kevinho, por exemplo, mas se ouvirem e me identificarem, o trabalho está feito. Quero que prestem atenção na minha voz, no meu talento. Drag é minha forma de estar no mercado fonográfico. Eu faço música.

Minha primeira fase, com o disco, foi um recorte social e político. Eu precisava muito daquilo, como se falasse para mim o que os outros não falaram. Hoje, me sinto mais confortável para fazer pop, música dançante.

Em breve, você vai lançar uma parceria com o Leo Santanna. Como foi esse projeto e a mistura com outras sonoridades?

A música chama “Arrasta”. É uma mistura de funk paulistano com o pagodão que ele canta. Eu não sabia se eu conseguiria fazer sozinha e o Leo foi a primeira opção na qual que pensei. Ele foi generoso, um anjo. Eu o chamei por mensagem direta, no Instagram, e fiz o convite. Por mais que eu acredite em mim e no meu potencial, você não sabe como um artista vai aceitar um LGBT. A música faz pontes improváveis. Ter a validação e o respeito de um artista como ele foi muito importante. Além do Leo, nomes como Psirico e Solange Almeida incluíram “Bumbum de Ouro” em seus repertórios.

 

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Drag queen se destaca no cenário com o single “Bumbum de Ouro”, que ultrapassou os 18 milhões de visualizações no YouTube e entrou para a trilha de Malhação

por Rebecca Silva em 04/05/2018

Daniel Garcia começou a sua carreira musical ainda criança, cantando em programas de televisão e participando de grupo infantil. Você pode nunca ter ouvido falar dele, mas com certeza já ouviu sua voz em algum filme ou desenho, porque ele também trabalha há muitos anos como dublador. Hannah Montana, Power Rangers, Digimon e a franquia da Disney, Descendentes, são alguns dos títulos para os quais emprestou a voz.

Daniel sempre esteve rodeado de arte. Desde a família, que há gerações tem bagagem artística, passando pelo coral da igreja que frequentava, até as aulas de teatro, que o ajudaram a se descobrir. Foi então que se encontrou como Gloria Groove e achou a válvula certa para se expressar artisticamente.

Com seu “Bumbum de Ouro”, a drag já passa de 18 milhões de visualizações no YouTube e entrou na trilha desta temporada de Malhação, que tem um personagem que também se veste com peças femininas para se apresentar.

Em um cenário crescente para artistas drag no país, liderado pelo fenômeno Pabllo Vittar, Gloria é expoente e se diferencia pela sua sonoridade, que flerta com o rap e o hip hop, e pelo alcance vocal.

A Billboard Brasil conversou com Gloria Groove sobre a sua descoberta como drag e as escolhas de sua carreira musical:

Você começou a sua carreira musical ainda criança, participando da nova formação do Balão Mágico e cantando no programa do Raul Gil. Como surgiu essa vontade de cantar?

Venho de família de músicos, a minha mãe [Gina Garcia] é backing vocal do Raça Negra há 20 anos. A família tem essa bagagem artística há gerações. A minha mãe já cantou em baile, em viagem de navio, na noite e sempre ensaiava perto de mim. Desde que fiz 7 anos, nunca mais parei de cantar. E algo que ela sempre me disse foi para ter repertório, ter referências.

O que você considera de positivo e negativo em começar tão cedo?

Há uns três anos, quando tinha uns 17, 18 anos, tinha uma diferença drástica com meus amigos porque eu já saí da escola encaminhada, a Gloria já estava nascendo. Fiquei quase 10 anos envolvida com dublagem e teatro musical. Eu tinha certeza que ia ser ator de musical do Teatro Renault, mas me encontrei artisticamente como drag.

Foi uma dádiva começar cedo, ganhei senso de responsabilidade. Aos 15 anos, já tinha meu próprio dinheiro. A forma que amadureci foi diferente. Não sei dirigir, não fiz faculdade, não sei andar de bicicleta [risos] porque tive oportunidades diferentes.

Como se deu a descoberta da sua homossexualidade?

Acredito que passamos por três ou mais processos de aceitação. Ser gay veio primeiro. Aos 14 anos, eu morava com outras sete pessoas da família em casa. Era puberdade, fase de se descobrir, de se aceitar. Minha família me tirou do armário. Descobriram minhas conversas com um menino na internet por quem que eu era apaixonado. Sempre fui uma criança afeminada. O teatro me libertou e me descobri drag, mas demorou ainda para eu me entender como bicha, entender que não sou daqueles gays que passam batido. Tentava me higienizar, ser gay passável. E não sou bicha, sou bichona. É preciso ressignificar as palavras e encontrar poder nisso. Em todos esses processos, a minha sorte era ser independente financeiramente. Não era subordinado a ninguém. Tinha responsabilidade e valor aplicado a mim.

gloriagrooveDivulgação/Rodolfo Magalhães

Quais eram as suas referências musicais nessa época?

A primeira música que aprendi a cantar foi de Mariah Carey. Minha mãe me apresentou Elis. Depois comecei a ouvir muito hip hop e R&B como Alicia Keys, Usher, Ja Rule, Ashanti.

Nessa descoberta como homossexual, ouvia Lady Gaga, já fui muito little monster. E a cena das mulheres no rap, como Flora Matos e Karol Conka. A Flora me empoderou muito, fui em uns três shows dela. Ver aquelas mulheres no palco fazendo rap com atitude e sem pedir desculpa, sem pedir licença... Ela me libertou. Já como drag, o Rico Dalasam foi a influência. Agora o chamo de amigo, mas já fui muito fã. 

Você frequentava a igreja e chegou a cantar no coral. No interlúdio do seu disco, você diz que já brigou com Deus e o questionou sobre o porquê de Ele ter feito você gay. Isso realmente aconteceu?

Isso aconteceu comigo sim, ainda na primeira infância, principalmente porque eu não era igual aos meninos e às meninas. Tinha aquela pressão da igreja para ser pleno, para seguir o plano, então briguei com Deus porque eu não era igual, eu não era normal. Faltava eu sair desse ambiente e me desenvolver como pessoa para entender.

Você já disse que ter visto RuPaul’s Drag Race serviu de inspiração para você se iniciar na arte drag. A Pabllo Vittar também cita o programa como sua referência. Esse cenário costumava ser muito nichado e marginalizado por aqui. Como foi essa questão da representatividade para você?

O programa tem um impacto cultural para gays, principalmente nós que temos o fator drag. Brasileiro precisa ver gringo fazendo para achar legal, né? Eu já sabia quem era Ikaro Kadoshi, Silvetty Montilla, mas não me sentia parte daquilo. Precisei ver a drag americana fazendo para achar legal. A cena no nosso país é tão plural. Olha a Pabllo Vittar! Estamos lançando talentos para o mundo. Assisto ao programa até hoje por causa do apelo estético, a forma que isso traduz os sentimentos.

GLORIOSA_RODOLFO.MAGALHAESDivulgação/Rodolfo Magalhães

O cenário musical drag está crescendo muito no Brasil e é algo que não necessariamente segue um padrão internacional, já que não vemos drags no mainstream ou em rankings. Pensou que sua arte teria esse peso por aqui, ainda mais com a atual onda conservadora?

Eu sempre achei que seria possível. As bichas são geniais, estamos por trás de todos os projetos. Em um casamento, quem é o estilista? Quem faz cabelo, maquiagem? Quem organiza? A revolução sexual foi o que precisamos para o nosso potencial ir para a linha de frente. É só questão de tempo até a coroa ser nossa. O público LGBT indica caminhos, consome. Imagina para as crianças verem isso hoje? Eu não tive isso. É muito inspirador. Como será a próxima geração que já cresceu nos vendo ocupando esses espaços?

É possível perceber uma mudança na sonoridade do seu primeiro disco para o single “Bumbum de Ouro”, que é bem mais pop do que seus trabalhos anteriores. Seus próximos singles vão seguir essa linha?

Tenho coisas muito legais gravadas, algumas seguem essa linha pop porque quero aproveitar a subida, usar a sonoridade que agrada. Estou na minha fase pop e depois posso ter a fase que eu quiser. Amo fazer o que for, desde que seja com prazer. Me descobrir. Sou muito fã de Lady Gaga. Quero ver os gêneros que consigo explorar. Quero me destacar pela versatilidade. Não importa quão genérica seja a letra, “Bumbum de Ouro” podia ser do repertório do MC Kevinho, por exemplo, mas se ouvirem e me identificarem, o trabalho está feito. Quero que prestem atenção na minha voz, no meu talento. Drag é minha forma de estar no mercado fonográfico. Eu faço música.

Minha primeira fase, com o disco, foi um recorte social e político. Eu precisava muito daquilo, como se falasse para mim o que os outros não falaram. Hoje, me sinto mais confortável para fazer pop, música dançante.

Em breve, você vai lançar uma parceria com o Leo Santanna. Como foi esse projeto e a mistura com outras sonoridades?

A música chama “Arrasta”. É uma mistura de funk paulistano com o pagodão que ele canta. Eu não sabia se eu conseguiria fazer sozinha e o Leo foi a primeira opção na qual que pensei. Ele foi generoso, um anjo. Eu o chamei por mensagem direta, no Instagram, e fiz o convite. Por mais que eu acredite em mim e no meu potencial, você não sabe como um artista vai aceitar um LGBT. A música faz pontes improváveis. Ter a validação e o respeito de um artista como ele foi muito importante. Além do Leo, nomes como Psirico e Solange Almeida incluíram “Bumbum de Ouro” em seus repertórios.