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Mahmundi transforma dias ruins em inspiração para novo disco

"Percebi que não era mais uma menina com grana no Rio porque sou negra", diz a cantora sobre clima que gerou o trabalho

por Rebecca Silva em 10/08/2018

Depois de lançar o elogiado álbum autointitulado em 2016, pela plataforma Skol Music, a cantora Mahmundi chamou atenção do público e da crítica e se viu em um flerte com a Universal Music, que acabou resultando no lançamento do disco Para Dias Ruins, nesta sexta-feira (10/08).

Assim como todo relacionamento, passou nesses dois anos por fases de descobrimento, amadurecimento, altos e baixos e muita reflexão. Sabe quando você decide aprender, com o outro, como ser uma melhor versão de si mesmo? Mahmundi descartou a responsabilidade de cravar uma assinatura com a sua vibe oitentista do primeiro disco e trouxe para o novo trabalho tudo que pôde aprender com o novo compromisso. O feedback de grandes nomes, o suporte de uma grande gravadora e o tempo – além do inegável talento como produtora, compositora e cantora – criaram um disco que ainda canta o amor, mas com novos ritmos e camadas.

Conversamos com Mahmundi sobre a experiência de trabalhar com uma gravadora grande, o desafio do segundo disco, a adequação ao momento atual da música e o posicionamento político no Brasil que passa por dias ruins. 

Como trilha sonora para embalar esse bate-papo, ouça Para Dias Ruins:

Foram dois anos entre o lançamento dos dois discos. Conta um pouquinho sobre o processo de produção de Para Dias Ruins.

No final de 2016, rolou esse namoro com a Universal e eu já estava pensando em como seria fazer o disco dois. O Skol Music foi super importante, ter a ajuda do Miranda [produtor musical falecido em março deste ano] também, porque isso me tirou do digital. Eu não tinha ideia de como sair do nicho do meu quarto e eles me deram esse start. No final de 2016, eu estava muito perdida, não tinha grana, é muito difícil fazer música no Brasil no braço. Vários e vários fatores fazem um grande artista. Quando teve esse primeiro jantar com a gravadora, fiquei ansiosa demais, era um sonho e as pessoas diziam que eu conseguiria fazer um disco sozinha, com o apoio de uma marca. Mas não é só o dinheiro. É ter o apoio de uma estrutura que me ensine a fazer isso. Quando o martelo foi batido, a princípio seria um EP de cinco músicas, o que para mim era ótimo, como um romancezinho no qual não se tem muito envolvimento. A relação foi crescendo, negociamos e chegamos no disco. Além da minha voz, tinha a voz de comando de uma gravadora me dando um prazo. A princípio fiquei atordoada, mas foi ótimo sair do lugar comum, do ego, de ter razão e entender que essas pessoas já viveram esse ciclo antes. Lady Gaga, Madonna, Rihanna, Tina Turner, todo mundo está fazendo a mesma coisa. Comecei a pensar como produtora musical, consegui esse aval. Foi tudo muito fácil. Achei que ia ser pior... Disseram que eu estava dando um passo para trás, mas foi tudo maravilhoso... O lance era só ter o prazo, ter alguém cobrando. O que é bom também! Comecei a trabalhar melhor nisso. Antes, eu ficava dez dias trabalhando em uma música porque ia assistir televisão, Netflix. Hoje em dia, chego no estúdio às 9h e às 17h30 a minha cabeça já está ardendo. Às 19h tomo cerveja com os amigos. É um trabalho normal e acabou.

Tenho essa responsabilidade, foi tudo que eu quis. Tenho vários amigos periféricos que nunca tiveram oportunidades e, quando ela chega, nós entramos numa noia de achar que não merecemos, que não temos capacidade... Isso tudo me bateu muito por não ter aliados, uma família que me apoiasse muito, mas tive força de perceber que precisava me unir com essas pessoas e fazer o disco. Essa relação me fez bem, eu precisava desse feedback, de ter alguém pra mandar uma demo.

Inicialmente, você tinha dito que o primeiro trabalho pela gravadora sairia em outubro do ano passado. Você estava se referindo a esse EP? O projeto foi aumentando com o tempo então?

Isso. O EP ia sair, estava tudo lindo e maravilhoso, mas o Miguel Afonso, meu A&R, falou: “Vamos fazer com calma, com mais tempo”. Foi uma questão de me colocar em novos lugares, conhecer pessoas, ir a shows de artistas do casting da gravadora que eu queria ir. Tive uma turma que me falou: “Vai lá que estamos aqui”. A princípio, ia sair antes, mas tive mais tempo para lapidar. Já tinha um repertório pronto, mas também dei um passo para trás porque para fazer um Mahmundi 2, fazer um disco igual ao outro, até ia me levar a um lugar de decretar uma assinatura, mas não ia me fazer evoluir. Esse disco me fez evoluir em vários aspectos. Como leonina com ascendente em Capricórnio, eu já acho que poderia ter feito outro disco melhor [risos], mas foi bomEssa coisa do segundo disco é muito difícil e perigosa. Você quer o sucesso do anterior, mas tem renovação e você pode se ferrar. Eu não queria me repetir. Nesse disco, eu ainda tenho um pouco dos dois, vou para frente, mas tem um pouco do anterior pra não deixar ninguém triste e não perder like [risos].

É perceptível no disco que você se despede da vibe oitentista carregada de sintetizadores, trazendo novas camadas, mas não se desapega 100%. Quais foram as referências para essa sua evolução sonora?

Eu não costumo trabalhar com referências, mas elas costumam ser visuais. Gosto muito de ir ao cinema, de ver filmes, de fotografia. As imagens me dão ideias de som.

Seu trabalho passa essa sensação de sinestesia mesmo…

As pessoas perguntam: “Mas você não ouviu ninguém?”. Cara, não. Não é que eu sou “especial”, mas é porque bate de forma diferente. Acho que muito por eu não saber inglês. Eu não falo tão bem e quando eu era criança, eu não sabia nada. Quando ouvia música dos anos 1980, tinha referência do som. Eu ouvia Phil Collins e chorava. Eu ouvia “One More Night”, via o Sting, chorava com aquilo. Minha mãe ficava olhando. Não era nada demais. Mas criança chorando não pode, né? Uma coisa meio doida. E eu acho que trouxe isso para a vida. Meu inglês ainda não é bom, entendo mais as coisas, mas o processo de composição ainda é esse. Às vezes, quebra um pouco a minha perna, faço as músicas e depois as letras. Estou sempre dando roteiro para imagem. Os compositores com quem trabalhei, Roberto Barrucho e Omar Salomão, são poetas, então tive pequenos trechos de letra antes e musicar isso foi mais rápido, tive um processo de colaboração melhor. Trabalhei com Carlinhos Rufino e ele é o tipo de pessoa que o que escreve serve para samba, pagode. Ele me deu um texto: “A gente quer um tempo pra amar/ a gente quer um tempo pra querer/ um vinho, um queijo, a gente vai fazer”. E pensei: “Um vinho, um queijo? Não consigo visualizar isso”. Aí eu coloquei: “A gente quer um tempo pra amar/ a gente quer um tempo pro amor/ e depois do mundo lá fora a gente retorna aonde parou”. Fica mais standard. Ele tem uns ganchos maravilhosos, eu dou mais uma curtida. Estou tentando chegar no queijo e no vinho, no próximo quem sabe [risos].

As parcerias me permitiram ter um processo mais rico, pude me ver como cantora. Um dia, encontrei o Liminha, já fui assistente dele de estúdio, é super meu amigo. Ele disse:“Todo mundo achou seu disco ótimo, mas essa voz atrás, Marcela? Bota essa voz na frente”. Tive feedbacks de grandes artistas. Entendi que precisava dar esse passo de evolução. Todos esses elementos me fazem entender os passos, sem medo de me vender. Falei para o Miguel [Afonso, A&R da gravadora]: “No terceiro disco, já vou estar no Faustão”. Porque você já sabe o que fazer. Fico tentando entender as lógicas, fazer isso com calma, fazer meu trabalho com o apoio de uma grande gravadora.

Você define esse trabalho como uma playlist. Estamos vivendo uma época em que muitos artistas inclusive preferem não lançar discos para poder trabalhar melhor cada música porque o consumo é cada vez mais rápido. Como pensou no conceito?

Eu era a pessoa que vendia cobre, latinha, pegava ônibus, ia até a Barra da Tijuca para comprar um disco de R$ 60 na FNAC. Era muito dinheiro! Fora a passagem. Era aquele mundo de abrir o disco no ônibus, ver o encarte e chegar em casa para ouvir. Isso me acalentou por muito tempo, a música sempre foi uma parceira fundamental. É com a música que me abro de fato. Eu gostava muito disso no rádio, porque tem dias que quero ouvir algo diferente, às vezes não aguento mais o que eu produzo, o meu feed do meu jeito. A gente está se limitando muito. Para mim, esse disco é uma playlist com o nome “Para Dias Ruins”. É para ela ser desmembrada. Torço muito para que as músicas estejam em várias playlists diferentes. Sem aquilo de “ai, você não vai ouvir meu disco?”. É muito difícil fazer um disco e não se repetir. Para mim, é muito melhor ter um momento acústico, elétrico, afrobeat, bossa nova. Se fica muito maçante, repetindo solo, timbre, não gosto. Essa coisa da bossa eu estava com medo, você está no Brasil, as pessoas respeitam e tal. Tomei cerveja com um amigo e ele falou: “Tu vai morrer amanhã e está com medo de fazer?”.

E como é a sua playlist favorita? Como você monta as suas?

Eu monto bastante playlist, hoje em dia mais para estudar. Não sou daquelas que chega na casa dos outros mostrando playlist, eu acho que tem que ter muita coragem, acho meio perigoso. Fazia muita playlist no Spotify para as pessoas, mas comecei a me perguntar se estava fazendo para mim ou para os outros... Fica nisso de alterego, você já não sabe mais... Comecei a usar muito o Spotify para estudar, tenho ouvido bastante música africana dos anos 1950, samba. Comecei a ouvir bastante Clara Nunes, Clementina de Jesus, um pouco de jazz. É playlist para estudar sons. Mas eu sempre prefiro rádio, baixo aplicativos de rádio no celular porque gosto de ser surpeendida. Você começa a ter apego com umas músicas, fica limitado.

E em dias, ruins, tristes, você ouve de tudo ou fica na sofrência?

Às vezes ouço coisas nada a ver, uma Björk, um Arcade Fire, coisas mais agitadas. Quando estou triste, gosto de ouvir coisas tristes, mas não por muito tempo, senão quando você percebe, está no fundo do poço. Gosto muito do humor e do clima. Não necessariamente ouvir deprê no frio. As bandas britânicas fazem muito isso, de agitar o público cantando sobre tristeza. Mexer com esses picos de humor e clima numa vibe saudável. Eu fico no 50/50 porque me afundo fácil e não é bom pra mim.

Não só o Rio de Janeiro, de onde você vem, mas o Brasil inteiro está passando por um momento muito complicado e delicado. Alguns artistas se posicionam fortemente nas redes sociais e em apresentações e outros preferem se ausentar da discussão. Como você sente o seu papel como artista nessa questão? Sente pressão para se posicionar?

Eu comecei a sentir que, por mais que eu quisesse expressar todas essas dores, do tempo que você vive até ser um ser social aos 18 anos, quando tem que encarar essa droga de mundo, eu tinha muita raiva, muita reatividade. Sempre fui muito pessimista, sempre tive medo de andar na rua, é assalto, é estupro. Comecei a me posicionar mais, mas issocomeçou a me trazer um peso no coração que era inédito. Comecei a me sentir mal. Quando rolou o lance da Marielle, da Matheusa, eu estava vendo na hora, online. Ia ao show do filho do Fela Kuti. Aí acabou pra mim, nem fui ao show. Ainda estava rolando jogo do Flamengo, você vê a questão do futebol, uma gritaria encobrindo tudo...

Nesses momentos, fico pensando: “Cara, de que importa lutar aqui? Lógico que tem valor, mas começa a ficar pesado”. A Matheusa Passareli, por exemplo... A última postagem dela era pedindo ajuda e, quando fui olhar, ela me seguia, já tinha falado comigo. É muito pesado, acho que precisa estar blindado. Eu recorri à terapia porque sou um ser social, quero ser uma das grandes artistas da minha época daqui 20 anos, mas ainda sou uma mulher negra que mora na Zona Sul do Rio. Há um mês, eu estava fazendo um ensaio com umas músicas do Lulu Santos, fiz uma gravação e, saindo do estúdio, tinha uma blitz. Eu estava com o microfone na mão e a lista das músicas. Quando pisquei, tinha um fuzil na minha janela. “Tá vindo de onde?”, perguntaram.  Falei que do estúdio. O policial perguntou para o motorista, voltou para mim e repetiu a pergunta. Ficou nesse jogo psicológico. Se eu estou em um outro momento e respondo: “Sou só uma pessoa”... Não importa que eu estou aqui, agora, dando entrevista para a Billboard. Se ele me pega descendo ali, na Rocinha, não interessa que eu estava no estúdio. Comecei a me sentir super perdida. Passei por mais três blitzes nesse dia, um recorde. E é isso. Pode fazer 10ºC no Rio que eu não posso andar de touca.

Essas coisas começaram a me atordoar muito... Não combinava com o momento de gravar um disco, de andar na Lagoa maravilhosa... Ao mesmo tempo que uma patrulha policial me abordava, eu tinha que estar no Instagram, falar de empoderamento. Começou a me dar um tilt. Precisei me blindar dessas coisas e me voltar para a música, para a terapia. Essa coisa de ter o disco, um prazo, algo que me guiasse, me fez não desistir. Se eu estivesse perdida, ia afundar, assim como vários artistas que conheço. Tudo isso me fez repensar. Hoje quero ajudar outras mulheres a se comunicarem com elas mesmas, a olhar para dentro. Nesse dia, voltando do ensaio, minha ficha caiu. Pensei: “ beleza, não adianta chegar em casa e fazer um textão”. Não adianta, tem um cano de fuzil na janela. Isso foi me trazendo para um lugar de recolhimento, de ver o palco como meu lugar. É lá que vou fazer as coisas, não vou falar “Fora, Temer”. Uma vez fui criticada por uma jornalista porque não me posicionei politicamente no festival MADA. Pensei: “Caraca, só fazer um show incrível já não é um ato político?”. São muitas vontades, né? A gente, como artista, tem que ter nossa vontade, o processo criativo começa daí. Gosto de pensar que em dias ruins, de Marielle, de Matheusa, de Lula, de racismo, de perceber que não era mais uma menina com grana no Rio porque sou negra, aprendi a me posicionar neles. Essas músicas são sobre isso. O tema de amor é o único que cobre tudo isso. Se eu fizesse um disco político, já tinham me matado, infelizmente. O perfil da mulher negra hoje tem que ser boladona, batom vermelho, empoderada... Sempre fico tentando ver o que é mais real, porque, no fim, quem dorme lá, sozinha, é você, né? Vou dormir com o Spotify ligado porque… eu não namoro, né? [risos]

Antes de aparecer como cantora, você trabalhou muito tempo nos bastidores. Apesar de as pessoas acharem que artistas são mais mente aberta, a música ainda é um ambiente comandado por homens. Como foi isso para você? Viu mudança nos últimos anos com esse despertar feminista atual?

Eu acho que as pessoas estão mais atentas, né? Quando você entra no estúdio hoje, com artistas trans, ou de outros públicos, obviamente que a galera se liga mais, não tem um cara nojento com a mão no saco chamando de viado. Perto de mim não tem, não deixo. Acho que está tendo mudança no mercado sim. Se você for ver a indústria inteira, grandes artistas foram produzidas por homens. É uma indústria comandada por negócios em que homens modulam vozes de mulheres. Estamos começando a ter uma indústria mais consciente. Em Recife, tem várias mulheres dando workshop de áudio e isso é meio inédito. Os homens sempre queriam competir, colocavam homem para comandar esses projetos. Hoje está mais aberto, porque são mulheres escrevendo projetos para mulheres. Eu quero produzir timbres novos. A cena LGBT me chama atenção pelo timbre novo, histórias novas. A música não tem gênero. As pessoas querem tratar todo mundo como gado e uma hora isso enche o saco. Hoje em dia está melhor, nossa cena de música no Brasil é mais unida, sinto isso. Sou amiga de Pabllo, Ivete, Luísa Sonza, Rionegro e Solimões. Antes você só falava com a pessoa se mostrava uma demo. Nunca caí nisso. As coisas estão mudando porque as pessoas têm autonomia. Para mim está sendo importante viver nessa época, fazer com calma.

 

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"Percebi que não era mais uma menina com grana no Rio porque sou negra", diz a cantora sobre clima que gerou o trabalho

por Rebecca Silva em 10/08/2018

Depois de lançar o elogiado álbum autointitulado em 2016, pela plataforma Skol Music, a cantora Mahmundi chamou atenção do público e da crítica e se viu em um flerte com a Universal Music, que acabou resultando no lançamento do disco Para Dias Ruins, nesta sexta-feira (10/08).

Assim como todo relacionamento, passou nesses dois anos por fases de descobrimento, amadurecimento, altos e baixos e muita reflexão. Sabe quando você decide aprender, com o outro, como ser uma melhor versão de si mesmo? Mahmundi descartou a responsabilidade de cravar uma assinatura com a sua vibe oitentista do primeiro disco e trouxe para o novo trabalho tudo que pôde aprender com o novo compromisso. O feedback de grandes nomes, o suporte de uma grande gravadora e o tempo – além do inegável talento como produtora, compositora e cantora – criaram um disco que ainda canta o amor, mas com novos ritmos e camadas.

Conversamos com Mahmundi sobre a experiência de trabalhar com uma gravadora grande, o desafio do segundo disco, a adequação ao momento atual da música e o posicionamento político no Brasil que passa por dias ruins. 

Como trilha sonora para embalar esse bate-papo, ouça Para Dias Ruins:

Foram dois anos entre o lançamento dos dois discos. Conta um pouquinho sobre o processo de produção de Para Dias Ruins.

No final de 2016, rolou esse namoro com a Universal e eu já estava pensando em como seria fazer o disco dois. O Skol Music foi super importante, ter a ajuda do Miranda [produtor musical falecido em março deste ano] também, porque isso me tirou do digital. Eu não tinha ideia de como sair do nicho do meu quarto e eles me deram esse start. No final de 2016, eu estava muito perdida, não tinha grana, é muito difícil fazer música no Brasil no braço. Vários e vários fatores fazem um grande artista. Quando teve esse primeiro jantar com a gravadora, fiquei ansiosa demais, era um sonho e as pessoas diziam que eu conseguiria fazer um disco sozinha, com o apoio de uma marca. Mas não é só o dinheiro. É ter o apoio de uma estrutura que me ensine a fazer isso. Quando o martelo foi batido, a princípio seria um EP de cinco músicas, o que para mim era ótimo, como um romancezinho no qual não se tem muito envolvimento. A relação foi crescendo, negociamos e chegamos no disco. Além da minha voz, tinha a voz de comando de uma gravadora me dando um prazo. A princípio fiquei atordoada, mas foi ótimo sair do lugar comum, do ego, de ter razão e entender que essas pessoas já viveram esse ciclo antes. Lady Gaga, Madonna, Rihanna, Tina Turner, todo mundo está fazendo a mesma coisa. Comecei a pensar como produtora musical, consegui esse aval. Foi tudo muito fácil. Achei que ia ser pior... Disseram que eu estava dando um passo para trás, mas foi tudo maravilhoso... O lance era só ter o prazo, ter alguém cobrando. O que é bom também! Comecei a trabalhar melhor nisso. Antes, eu ficava dez dias trabalhando em uma música porque ia assistir televisão, Netflix. Hoje em dia, chego no estúdio às 9h e às 17h30 a minha cabeça já está ardendo. Às 19h tomo cerveja com os amigos. É um trabalho normal e acabou.

Tenho essa responsabilidade, foi tudo que eu quis. Tenho vários amigos periféricos que nunca tiveram oportunidades e, quando ela chega, nós entramos numa noia de achar que não merecemos, que não temos capacidade... Isso tudo me bateu muito por não ter aliados, uma família que me apoiasse muito, mas tive força de perceber que precisava me unir com essas pessoas e fazer o disco. Essa relação me fez bem, eu precisava desse feedback, de ter alguém pra mandar uma demo.

Inicialmente, você tinha dito que o primeiro trabalho pela gravadora sairia em outubro do ano passado. Você estava se referindo a esse EP? O projeto foi aumentando com o tempo então?

Isso. O EP ia sair, estava tudo lindo e maravilhoso, mas o Miguel Afonso, meu A&R, falou: “Vamos fazer com calma, com mais tempo”. Foi uma questão de me colocar em novos lugares, conhecer pessoas, ir a shows de artistas do casting da gravadora que eu queria ir. Tive uma turma que me falou: “Vai lá que estamos aqui”. A princípio, ia sair antes, mas tive mais tempo para lapidar. Já tinha um repertório pronto, mas também dei um passo para trás porque para fazer um Mahmundi 2, fazer um disco igual ao outro, até ia me levar a um lugar de decretar uma assinatura, mas não ia me fazer evoluir. Esse disco me fez evoluir em vários aspectos. Como leonina com ascendente em Capricórnio, eu já acho que poderia ter feito outro disco melhor [risos], mas foi bomEssa coisa do segundo disco é muito difícil e perigosa. Você quer o sucesso do anterior, mas tem renovação e você pode se ferrar. Eu não queria me repetir. Nesse disco, eu ainda tenho um pouco dos dois, vou para frente, mas tem um pouco do anterior pra não deixar ninguém triste e não perder like [risos].

É perceptível no disco que você se despede da vibe oitentista carregada de sintetizadores, trazendo novas camadas, mas não se desapega 100%. Quais foram as referências para essa sua evolução sonora?

Eu não costumo trabalhar com referências, mas elas costumam ser visuais. Gosto muito de ir ao cinema, de ver filmes, de fotografia. As imagens me dão ideias de som.

Seu trabalho passa essa sensação de sinestesia mesmo…

As pessoas perguntam: “Mas você não ouviu ninguém?”. Cara, não. Não é que eu sou “especial”, mas é porque bate de forma diferente. Acho que muito por eu não saber inglês. Eu não falo tão bem e quando eu era criança, eu não sabia nada. Quando ouvia música dos anos 1980, tinha referência do som. Eu ouvia Phil Collins e chorava. Eu ouvia “One More Night”, via o Sting, chorava com aquilo. Minha mãe ficava olhando. Não era nada demais. Mas criança chorando não pode, né? Uma coisa meio doida. E eu acho que trouxe isso para a vida. Meu inglês ainda não é bom, entendo mais as coisas, mas o processo de composição ainda é esse. Às vezes, quebra um pouco a minha perna, faço as músicas e depois as letras. Estou sempre dando roteiro para imagem. Os compositores com quem trabalhei, Roberto Barrucho e Omar Salomão, são poetas, então tive pequenos trechos de letra antes e musicar isso foi mais rápido, tive um processo de colaboração melhor. Trabalhei com Carlinhos Rufino e ele é o tipo de pessoa que o que escreve serve para samba, pagode. Ele me deu um texto: “A gente quer um tempo pra amar/ a gente quer um tempo pra querer/ um vinho, um queijo, a gente vai fazer”. E pensei: “Um vinho, um queijo? Não consigo visualizar isso”. Aí eu coloquei: “A gente quer um tempo pra amar/ a gente quer um tempo pro amor/ e depois do mundo lá fora a gente retorna aonde parou”. Fica mais standard. Ele tem uns ganchos maravilhosos, eu dou mais uma curtida. Estou tentando chegar no queijo e no vinho, no próximo quem sabe [risos].

As parcerias me permitiram ter um processo mais rico, pude me ver como cantora. Um dia, encontrei o Liminha, já fui assistente dele de estúdio, é super meu amigo. Ele disse:“Todo mundo achou seu disco ótimo, mas essa voz atrás, Marcela? Bota essa voz na frente”. Tive feedbacks de grandes artistas. Entendi que precisava dar esse passo de evolução. Todos esses elementos me fazem entender os passos, sem medo de me vender. Falei para o Miguel [Afonso, A&R da gravadora]: “No terceiro disco, já vou estar no Faustão”. Porque você já sabe o que fazer. Fico tentando entender as lógicas, fazer isso com calma, fazer meu trabalho com o apoio de uma grande gravadora.

Você define esse trabalho como uma playlist. Estamos vivendo uma época em que muitos artistas inclusive preferem não lançar discos para poder trabalhar melhor cada música porque o consumo é cada vez mais rápido. Como pensou no conceito?

Eu era a pessoa que vendia cobre, latinha, pegava ônibus, ia até a Barra da Tijuca para comprar um disco de R$ 60 na FNAC. Era muito dinheiro! Fora a passagem. Era aquele mundo de abrir o disco no ônibus, ver o encarte e chegar em casa para ouvir. Isso me acalentou por muito tempo, a música sempre foi uma parceira fundamental. É com a música que me abro de fato. Eu gostava muito disso no rádio, porque tem dias que quero ouvir algo diferente, às vezes não aguento mais o que eu produzo, o meu feed do meu jeito. A gente está se limitando muito. Para mim, esse disco é uma playlist com o nome “Para Dias Ruins”. É para ela ser desmembrada. Torço muito para que as músicas estejam em várias playlists diferentes. Sem aquilo de “ai, você não vai ouvir meu disco?”. É muito difícil fazer um disco e não se repetir. Para mim, é muito melhor ter um momento acústico, elétrico, afrobeat, bossa nova. Se fica muito maçante, repetindo solo, timbre, não gosto. Essa coisa da bossa eu estava com medo, você está no Brasil, as pessoas respeitam e tal. Tomei cerveja com um amigo e ele falou: “Tu vai morrer amanhã e está com medo de fazer?”.

E como é a sua playlist favorita? Como você monta as suas?

Eu monto bastante playlist, hoje em dia mais para estudar. Não sou daquelas que chega na casa dos outros mostrando playlist, eu acho que tem que ter muita coragem, acho meio perigoso. Fazia muita playlist no Spotify para as pessoas, mas comecei a me perguntar se estava fazendo para mim ou para os outros... Fica nisso de alterego, você já não sabe mais... Comecei a usar muito o Spotify para estudar, tenho ouvido bastante música africana dos anos 1950, samba. Comecei a ouvir bastante Clara Nunes, Clementina de Jesus, um pouco de jazz. É playlist para estudar sons. Mas eu sempre prefiro rádio, baixo aplicativos de rádio no celular porque gosto de ser surpeendida. Você começa a ter apego com umas músicas, fica limitado.

E em dias, ruins, tristes, você ouve de tudo ou fica na sofrência?

Às vezes ouço coisas nada a ver, uma Björk, um Arcade Fire, coisas mais agitadas. Quando estou triste, gosto de ouvir coisas tristes, mas não por muito tempo, senão quando você percebe, está no fundo do poço. Gosto muito do humor e do clima. Não necessariamente ouvir deprê no frio. As bandas britânicas fazem muito isso, de agitar o público cantando sobre tristeza. Mexer com esses picos de humor e clima numa vibe saudável. Eu fico no 50/50 porque me afundo fácil e não é bom pra mim.

Não só o Rio de Janeiro, de onde você vem, mas o Brasil inteiro está passando por um momento muito complicado e delicado. Alguns artistas se posicionam fortemente nas redes sociais e em apresentações e outros preferem se ausentar da discussão. Como você sente o seu papel como artista nessa questão? Sente pressão para se posicionar?

Eu comecei a sentir que, por mais que eu quisesse expressar todas essas dores, do tempo que você vive até ser um ser social aos 18 anos, quando tem que encarar essa droga de mundo, eu tinha muita raiva, muita reatividade. Sempre fui muito pessimista, sempre tive medo de andar na rua, é assalto, é estupro. Comecei a me posicionar mais, mas issocomeçou a me trazer um peso no coração que era inédito. Comecei a me sentir mal. Quando rolou o lance da Marielle, da Matheusa, eu estava vendo na hora, online. Ia ao show do filho do Fela Kuti. Aí acabou pra mim, nem fui ao show. Ainda estava rolando jogo do Flamengo, você vê a questão do futebol, uma gritaria encobrindo tudo...

Nesses momentos, fico pensando: “Cara, de que importa lutar aqui? Lógico que tem valor, mas começa a ficar pesado”. A Matheusa Passareli, por exemplo... A última postagem dela era pedindo ajuda e, quando fui olhar, ela me seguia, já tinha falado comigo. É muito pesado, acho que precisa estar blindado. Eu recorri à terapia porque sou um ser social, quero ser uma das grandes artistas da minha época daqui 20 anos, mas ainda sou uma mulher negra que mora na Zona Sul do Rio. Há um mês, eu estava fazendo um ensaio com umas músicas do Lulu Santos, fiz uma gravação e, saindo do estúdio, tinha uma blitz. Eu estava com o microfone na mão e a lista das músicas. Quando pisquei, tinha um fuzil na minha janela. “Tá vindo de onde?”, perguntaram.  Falei que do estúdio. O policial perguntou para o motorista, voltou para mim e repetiu a pergunta. Ficou nesse jogo psicológico. Se eu estou em um outro momento e respondo: “Sou só uma pessoa”... Não importa que eu estou aqui, agora, dando entrevista para a Billboard. Se ele me pega descendo ali, na Rocinha, não interessa que eu estava no estúdio. Comecei a me sentir super perdida. Passei por mais três blitzes nesse dia, um recorde. E é isso. Pode fazer 10ºC no Rio que eu não posso andar de touca.

Essas coisas começaram a me atordoar muito... Não combinava com o momento de gravar um disco, de andar na Lagoa maravilhosa... Ao mesmo tempo que uma patrulha policial me abordava, eu tinha que estar no Instagram, falar de empoderamento. Começou a me dar um tilt. Precisei me blindar dessas coisas e me voltar para a música, para a terapia. Essa coisa de ter o disco, um prazo, algo que me guiasse, me fez não desistir. Se eu estivesse perdida, ia afundar, assim como vários artistas que conheço. Tudo isso me fez repensar. Hoje quero ajudar outras mulheres a se comunicarem com elas mesmas, a olhar para dentro. Nesse dia, voltando do ensaio, minha ficha caiu. Pensei: “ beleza, não adianta chegar em casa e fazer um textão”. Não adianta, tem um cano de fuzil na janela. Isso foi me trazendo para um lugar de recolhimento, de ver o palco como meu lugar. É lá que vou fazer as coisas, não vou falar “Fora, Temer”. Uma vez fui criticada por uma jornalista porque não me posicionei politicamente no festival MADA. Pensei: “Caraca, só fazer um show incrível já não é um ato político?”. São muitas vontades, né? A gente, como artista, tem que ter nossa vontade, o processo criativo começa daí. Gosto de pensar que em dias ruins, de Marielle, de Matheusa, de Lula, de racismo, de perceber que não era mais uma menina com grana no Rio porque sou negra, aprendi a me posicionar neles. Essas músicas são sobre isso. O tema de amor é o único que cobre tudo isso. Se eu fizesse um disco político, já tinham me matado, infelizmente. O perfil da mulher negra hoje tem que ser boladona, batom vermelho, empoderada... Sempre fico tentando ver o que é mais real, porque, no fim, quem dorme lá, sozinha, é você, né? Vou dormir com o Spotify ligado porque… eu não namoro, né? [risos]

Antes de aparecer como cantora, você trabalhou muito tempo nos bastidores. Apesar de as pessoas acharem que artistas são mais mente aberta, a música ainda é um ambiente comandado por homens. Como foi isso para você? Viu mudança nos últimos anos com esse despertar feminista atual?

Eu acho que as pessoas estão mais atentas, né? Quando você entra no estúdio hoje, com artistas trans, ou de outros públicos, obviamente que a galera se liga mais, não tem um cara nojento com a mão no saco chamando de viado. Perto de mim não tem, não deixo. Acho que está tendo mudança no mercado sim. Se você for ver a indústria inteira, grandes artistas foram produzidas por homens. É uma indústria comandada por negócios em que homens modulam vozes de mulheres. Estamos começando a ter uma indústria mais consciente. Em Recife, tem várias mulheres dando workshop de áudio e isso é meio inédito. Os homens sempre queriam competir, colocavam homem para comandar esses projetos. Hoje está mais aberto, porque são mulheres escrevendo projetos para mulheres. Eu quero produzir timbres novos. A cena LGBT me chama atenção pelo timbre novo, histórias novas. A música não tem gênero. As pessoas querem tratar todo mundo como gado e uma hora isso enche o saco. Hoje em dia está melhor, nossa cena de música no Brasil é mais unida, sinto isso. Sou amiga de Pabllo, Ivete, Luísa Sonza, Rionegro e Solimões. Antes você só falava com a pessoa se mostrava uma demo. Nunca caí nisso. As coisas estão mudando porque as pessoas têm autonomia. Para mim está sendo importante viver nessa época, fazer com calma.