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“Mulheres entenderam que têm o direito de dizer o que querem”, diz Lellêzinha

Cantora está lançando o single “Nega Braba”, primeiro passo na sua carreira solo em projeto paralelo ao Dream Team do Passinho

por Rebecca Silva em 08/06/2018

A cantora Lellêzinha está dando os primeiros passos em seu projeto paralelo, desta vez em carreira solo, com o lançamento do single “Nega Braba”, nesta sexta-feira (08/06). Conhecida por fazer parte do Dream Team do Passinho, ela deixou o pop de lado para entregar sua mensagem de empoderamento em um rap composto em parceria com Rafael Mike, companheiro de grupo, e Pedro Breder.

Depois de fechar o ano passado com chave de ouro com duas apresentações do Dream Team no Rock in Rio (ao lado de Fernanda Abreu e Alicia Keys) e de ver o clipe de “Oi Sumido”, single mais recente do grupo, ultrapassar a marca de oito milhões de visualizações no YouTube, 2018 tem sido um ano movimentado para a cantora e atriz. Lellêzinha conquistou o papel de Yasmin em Mister Brau, estará no filme Correndo Atrás, ao lado de Juliana Paes e Ailton Graça (previsão de lançamento no segundo semestre) e foi escolhida como a estrela global da nova campanha das Havaianas, ao lado do cantor colombiano Maluma.

Entre brechas na agenda concorrida, Lellêzinha conversou com exclusividade com a Billboard Brasil sobre a nova fase da carreira, feminismo e representatividade:

Você está dando os primeiros passos na sua carreira solo, já tendo experiência anterior com o Dream Team do Passinho. Como está sendo este momento?

Eu acho que “Nega Braba” é uma música muito forte que fala de mim, da minha vida, do que eu penso. É uma música que cantei no programa do Bial e as pessoas pediram muito nas redes. Queriam saber onde achavam, disseram que queriam baixar, ouvir no Spotify. Eu recebi muitas mensagens, principalmente de mulheres negras. Fiquei com muita vontade de lançar. Eu venho do pop, agora estou lançando um rap porque eu não via forma de falar dos nossos problemas sociais e raciais em outro gênero musical. Estou experimentando isso como projeto paralelo ao Dream Team. Quero lançar outras faixas solo, algumas colaborações, enfim, é um começo de um novo ciclo.

Sua primeira apresentação de “Nega Braba” foi meio improvisada, durante o ato após o assassinato de Marielle Franco no Rio, né? Me fale um pouco sobre essa experiência.

Isso. Fui chamada para participar do ato, como referência do movimento. Pensei em cantar essa música, nem levei base porque não quis, fiz beatbox só para não perder o ritmo. Queria muito que as pessoas prestassem atenção na letra. Eu considero Marielle uma ‘nega braba’, então foi um momento único, muito especial. Todo mundo ficou super emocionado, a família dela estava presente. Canto essa música falando sobre mim, minha vida, mas também falo da vida de Marielle e de todas as mulheres.

lellezinha2
Divulgação/Ale de Souza

A letra da música fala sobre as vivências da mulher negra, de seguir batalhando, de erguer a cabeça apesar das dificuldades. Estamos passando por uma primavera feminista e dos movimentos sociais em geral, que deixaram de ser algo nichado, de militância, para ganhar espaço na opinião pública. Como esse momento a ajudou como mulher negra?

Eu acho que as mulheres entenderam que têm o direito de dizer o que querem fazer da vida, dos seus futuros e, claro, também dizer o que não querem. Entendemos que podemos nos impor, todos os dias, em todas as profissões, não só na música. Eu não sabia o que era feminismo, mas minha avó me criou de forma feminista. Sempre me disse para abrir meu espaço, me impor, falar se não gostei de alguma coisa. Sempre tive essa atitude, desde muito nova.

No movimento do passinho, fui a primeira mulher, talvez por conta disso. Eu não sabia o que era feminismo, mas vivia isso. Até hoje, sou a única mulher no meio de quatro homens [no Dream Team do Passinho]. Isso tem ajudado, inclusive, na minha música. Tive a vontade de lançar “Nega Braba”, de ser uma voz feminina falando para todas as mulheres que elas também podem.

A questão da representatividade também é muito importante. Em quem você se espelhava quando era mais nova?

Cada vez mais queremos nos ver nos lugares, olhar em volta e nos sentirmos parte daquilo. As pessoas estão cobrando representatividade porque é uma necessidade. Desde muito nova eu sempre via a figura da Beyoncé... Eu queria ser ela. Não só por ser uma grande performer e mulher, mas como uma artista que abre o coração para compor coisas da própria vida. Ela não está vendendo apenas música e fazendo as pessoas dançarem. Ela fala do que acontece na vida, abre o coração. O que mais me chamava atenção era ela parecer vulnerável. Todas somos, não existe uma mulher poderosa o tempo todo. Ela consegue ser maravilhosa e também falar das suas dores. Essa era e ainda é a minha maior referência.

Infelizmente, estamos ao mesmo tempo passando por um momento delicado no país, de retrocesso e a morte da Marielle foi uma marca disso. Você sente a necessidade de se posicionar pela música? Alguns artistas preferem se silenciar, não opinar.

Sim. Eu acho que a música é um lugar infinito em que você pode experimentar tudo, todos os lugares. Você tem a música para colocar para fora as coisas que acontecem com você, com seu coração. É sempre muito difícil falar sobre certos assuntos, eu sei o quanto somos cobrados, mas temos a música justamente para isso.

Tenho essa necessidade de falar, de sentir que a pessoa é representada pelo meu trabalho. O feedback das pessoas sobre o que faço é lindo. Mães falam que as filhas se espelham em mim, crianças, isso é atingir a próxima geração. O que a gente está fazendo nesse momento para melhorar a próxima geração? Não tem coisa melhor do que a educação, a arte e o esporte. Precisamos investir e falar mesmo. Eu gosto muito de usar a música para falar o que eu acho, o que eu quero.

ENSAIO LELLE 1
Divulgação/J Vitorino

Você pretende seguir esse viés mais ativista nas letras? No Dream Team, a vibe era outra.

Na verdade, no Dream Team parecia que não, mas a gente levantava algumas bandeiras em algumas músicas. Tinha “Batom Com Batom”, sobre relacionamento entre mulheres que eu cantei, tem “Kiss Me”, sobre relacionamento entre homens. Não era só fazer o Brasil dançar, tinha várias outras questões também sobre a favela. Não era só “De Ladin”. É muito bom trazer essa alegria para o povo, a gente precisa, mas já tinha essa coisa de falar sobre questões, é algo que já vem com a gente. Não dá para tratar todos os assuntos de forma agressiva. Tem hora para tudo. Agora, foi o momento para fazer um rap e falar da minha vida, o ritmo caminhou junto com a letra.

Eu sou tudo isso. Quero fazer dançar, refletir, falar sobre meus sentimentos. Quero que se identifiquem com isso. Essa referência da Beyoncé que tenho comigo, de verdade, é de falar do cotidiano, do que todo mundo passa na vida.

2018 está sendo um ano muito importante para você. Além de colher os frutos na música e na atuação [Lellêzinha está no ar em Mister Brau], você é a estrela da campanha mundial das Havaianas ao lado do cantor colombiano Maluma, o que vai levar seu trabalho para outros países. Como rolou esse convite?

A Havaianas entrou em contato e me fizeram convite para ser a estrela global da campanha porque queriam uma mulher que representasse o Brasil. Só isso já me deixou muito feliz. Tenho uma história linda com a marca. Nos meus melhores momentos, eu estava usando as sandálias [risos]. Há muitos anos que todo mundo da minha família passa o réveillon com Havaianas brancas. Todos iguais, confortáveis, é tipo uma regra. Fiquei muito feliz. Depois do funk e da favela, não tem nada mais brasileiro para me representar.

A música “Let’s Summer (Veraneemos)”, com o Maluma, é em português, inglês e espanhol. Gravar uma faixa com ele foi incrível também. A experiência foi muito legal, conversamos bastante na gravação.

 

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Buá Buá
Naiara Azevedo
4
Olha Ela Aí
Eduardo Costa
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Cada Um Na Sua
Fernando & Sorocaba
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“Mulheres entenderam que têm o direito de dizer o que querem”, diz Lellêzinha

Cantora está lançando o single “Nega Braba”, primeiro passo na sua carreira solo em projeto paralelo ao Dream Team do Passinho

por Rebecca Silva em 08/06/2018

A cantora Lellêzinha está dando os primeiros passos em seu projeto paralelo, desta vez em carreira solo, com o lançamento do single “Nega Braba”, nesta sexta-feira (08/06). Conhecida por fazer parte do Dream Team do Passinho, ela deixou o pop de lado para entregar sua mensagem de empoderamento em um rap composto em parceria com Rafael Mike, companheiro de grupo, e Pedro Breder.

Depois de fechar o ano passado com chave de ouro com duas apresentações do Dream Team no Rock in Rio (ao lado de Fernanda Abreu e Alicia Keys) e de ver o clipe de “Oi Sumido”, single mais recente do grupo, ultrapassar a marca de oito milhões de visualizações no YouTube, 2018 tem sido um ano movimentado para a cantora e atriz. Lellêzinha conquistou o papel de Yasmin em Mister Brau, estará no filme Correndo Atrás, ao lado de Juliana Paes e Ailton Graça (previsão de lançamento no segundo semestre) e foi escolhida como a estrela global da nova campanha das Havaianas, ao lado do cantor colombiano Maluma.

Entre brechas na agenda concorrida, Lellêzinha conversou com exclusividade com a Billboard Brasil sobre a nova fase da carreira, feminismo e representatividade:

Você está dando os primeiros passos na sua carreira solo, já tendo experiência anterior com o Dream Team do Passinho. Como está sendo este momento?

Eu acho que “Nega Braba” é uma música muito forte que fala de mim, da minha vida, do que eu penso. É uma música que cantei no programa do Bial e as pessoas pediram muito nas redes. Queriam saber onde achavam, disseram que queriam baixar, ouvir no Spotify. Eu recebi muitas mensagens, principalmente de mulheres negras. Fiquei com muita vontade de lançar. Eu venho do pop, agora estou lançando um rap porque eu não via forma de falar dos nossos problemas sociais e raciais em outro gênero musical. Estou experimentando isso como projeto paralelo ao Dream Team. Quero lançar outras faixas solo, algumas colaborações, enfim, é um começo de um novo ciclo.

Sua primeira apresentação de “Nega Braba” foi meio improvisada, durante o ato após o assassinato de Marielle Franco no Rio, né? Me fale um pouco sobre essa experiência.

Isso. Fui chamada para participar do ato, como referência do movimento. Pensei em cantar essa música, nem levei base porque não quis, fiz beatbox só para não perder o ritmo. Queria muito que as pessoas prestassem atenção na letra. Eu considero Marielle uma ‘nega braba’, então foi um momento único, muito especial. Todo mundo ficou super emocionado, a família dela estava presente. Canto essa música falando sobre mim, minha vida, mas também falo da vida de Marielle e de todas as mulheres.

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Divulgação/Ale de Souza

A letra da música fala sobre as vivências da mulher negra, de seguir batalhando, de erguer a cabeça apesar das dificuldades. Estamos passando por uma primavera feminista e dos movimentos sociais em geral, que deixaram de ser algo nichado, de militância, para ganhar espaço na opinião pública. Como esse momento a ajudou como mulher negra?

Eu acho que as mulheres entenderam que têm o direito de dizer o que querem fazer da vida, dos seus futuros e, claro, também dizer o que não querem. Entendemos que podemos nos impor, todos os dias, em todas as profissões, não só na música. Eu não sabia o que era feminismo, mas minha avó me criou de forma feminista. Sempre me disse para abrir meu espaço, me impor, falar se não gostei de alguma coisa. Sempre tive essa atitude, desde muito nova.

No movimento do passinho, fui a primeira mulher, talvez por conta disso. Eu não sabia o que era feminismo, mas vivia isso. Até hoje, sou a única mulher no meio de quatro homens [no Dream Team do Passinho]. Isso tem ajudado, inclusive, na minha música. Tive a vontade de lançar “Nega Braba”, de ser uma voz feminina falando para todas as mulheres que elas também podem.

A questão da representatividade também é muito importante. Em quem você se espelhava quando era mais nova?

Cada vez mais queremos nos ver nos lugares, olhar em volta e nos sentirmos parte daquilo. As pessoas estão cobrando representatividade porque é uma necessidade. Desde muito nova eu sempre via a figura da Beyoncé... Eu queria ser ela. Não só por ser uma grande performer e mulher, mas como uma artista que abre o coração para compor coisas da própria vida. Ela não está vendendo apenas música e fazendo as pessoas dançarem. Ela fala do que acontece na vida, abre o coração. O que mais me chamava atenção era ela parecer vulnerável. Todas somos, não existe uma mulher poderosa o tempo todo. Ela consegue ser maravilhosa e também falar das suas dores. Essa era e ainda é a minha maior referência.

Infelizmente, estamos ao mesmo tempo passando por um momento delicado no país, de retrocesso e a morte da Marielle foi uma marca disso. Você sente a necessidade de se posicionar pela música? Alguns artistas preferem se silenciar, não opinar.

Sim. Eu acho que a música é um lugar infinito em que você pode experimentar tudo, todos os lugares. Você tem a música para colocar para fora as coisas que acontecem com você, com seu coração. É sempre muito difícil falar sobre certos assuntos, eu sei o quanto somos cobrados, mas temos a música justamente para isso.

Tenho essa necessidade de falar, de sentir que a pessoa é representada pelo meu trabalho. O feedback das pessoas sobre o que faço é lindo. Mães falam que as filhas se espelham em mim, crianças, isso é atingir a próxima geração. O que a gente está fazendo nesse momento para melhorar a próxima geração? Não tem coisa melhor do que a educação, a arte e o esporte. Precisamos investir e falar mesmo. Eu gosto muito de usar a música para falar o que eu acho, o que eu quero.

ENSAIO LELLE 1
Divulgação/J Vitorino

Você pretende seguir esse viés mais ativista nas letras? No Dream Team, a vibe era outra.

Na verdade, no Dream Team parecia que não, mas a gente levantava algumas bandeiras em algumas músicas. Tinha “Batom Com Batom”, sobre relacionamento entre mulheres que eu cantei, tem “Kiss Me”, sobre relacionamento entre homens. Não era só fazer o Brasil dançar, tinha várias outras questões também sobre a favela. Não era só “De Ladin”. É muito bom trazer essa alegria para o povo, a gente precisa, mas já tinha essa coisa de falar sobre questões, é algo que já vem com a gente. Não dá para tratar todos os assuntos de forma agressiva. Tem hora para tudo. Agora, foi o momento para fazer um rap e falar da minha vida, o ritmo caminhou junto com a letra.

Eu sou tudo isso. Quero fazer dançar, refletir, falar sobre meus sentimentos. Quero que se identifiquem com isso. Essa referência da Beyoncé que tenho comigo, de verdade, é de falar do cotidiano, do que todo mundo passa na vida.

2018 está sendo um ano muito importante para você. Além de colher os frutos na música e na atuação [Lellêzinha está no ar em Mister Brau], você é a estrela da campanha mundial das Havaianas ao lado do cantor colombiano Maluma, o que vai levar seu trabalho para outros países. Como rolou esse convite?

A Havaianas entrou em contato e me fizeram convite para ser a estrela global da campanha porque queriam uma mulher que representasse o Brasil. Só isso já me deixou muito feliz. Tenho uma história linda com a marca. Nos meus melhores momentos, eu estava usando as sandálias [risos]. Há muitos anos que todo mundo da minha família passa o réveillon com Havaianas brancas. Todos iguais, confortáveis, é tipo uma regra. Fiquei muito feliz. Depois do funk e da favela, não tem nada mais brasileiro para me representar.

A música “Let’s Summer (Veraneemos)”, com o Maluma, é em português, inglês e espanhol. Gravar uma faixa com ele foi incrível também. A experiência foi muito legal, conversamos bastante na gravação.