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“Não quero falar do problema, quero ser a solução”, diz Karol Conka

Prestes a lançar álbum, artista participou de evento sobre mulheres na música e falou sobre feminismo e o momento atual da carreira para a Billboard Brasil

por Rebecca Silva em 19/03/2018

“Baguncei a divisão, esparramei. Peguei sua opinião, 1, 2, pisei”, anunciava Karol Conka há quatro anos, quando lançou “Tombei”, seu primeiro single de alcance nacional. Desde então, ela cresceu, como mulher e como personalidade, participando de inúmeras campanhas de gigantes da publicidade, além de apresentar o Superbonita, no GNT. Mais do que uma cantora e rapper, tornou-se referência de feminismo e empoderamento na música brasileira.

Karol participou, na última sexta-feira (16/03), do Women’s Music Event, em São Paulo, em painel dedicado ao rap: como o movimento, que nasceu no gueto, tornou-se uma das maiores forças da música pop. No bate-papo, a cantora falou sobre as cobranças que sofreu na carreira, principalmente para falar sobre militância, por cantar rap. “Se eu mergulhar no sofrimento, não tem Karol. Sou muito intensa. Não quero falar do problema, quero ser a solução.”

Depois do painel, a cantora recebeu a Billboard Brasil no camarim, onde falou sobre feminismo, militância e seu próximo álbum. 

O feminismo tem passado por uma onda de renovação, com movimentos surgindo em diferentes áreas e mulheres se posicionando e denunciando abusos. Como você descobriu o feminismo e como ele influenciou sua vida pessoal e profissional?

Eu descobri que era feminista quando lancei um álbum. As pessoas começaram a falar muito sobre isso. E eu me perguntei: “O que é isso, afinal?”. Eu vi que era tudo que eu já sabia, que minha mãe me ensinava, só não tinha um nome. Eu percebi o quanto as pessoas não entendem ainda o que é o feminismo e enxergam isso como uma coisa chata. Eu já vi artistas se posicionando com frases do tipo: “Sou feminista, mas não daquelas radicais”. Isso soa como se houvesse exceções de feministas e não é assim. Já ouvi também: “Você é a única feminista de quem eu gosto”. Fiquei pensando na minha imagem como feminista para quem não entende do assunto. Tento passar isso de uma maneira leve, não propositalmente, mas porque eu sou assim. Se você chegar na agressividade para falar com uma pessoa ignorante, ela não vai te ouvir. Se você chegar sendo mais inteligente, mais maduro, ela vai ouvir o teu discurso. Acho que o feminismo é muito importante, sim. Muita gente usa a palavra para falar sobre determinados assuntos, mas vira a esquina e comete um ato horrível. No meu novo disco, não tem a palavra propriamente dita. Mas o álbum é meu, eu sou feminista, então é óbvio que as músicas ressaltam o poder das mulheres, só não uso clichês, rótulos.

Você está em ascensão. Como é ser mulher na música brasileira hoje?

Ser mulher hoje continua sendo desafiador, sempre vai ser. Eu não acredito que eu vá viver para ver a mudança, pelo retrocesso pelo qual estamos passando. Ao mesmo tempo é atraente, para nós e para quem está assistindo. No sentido de: “Olha como elas são poderosas, sobem no palco, são empresárias, empreendedoras, donas da própria carreira”. Quando a Anitta começou a cuidar da própria carreira, muitos disseram que não daria certo porque ela é mulher, da favela, enquanto muitos homens fazem isso e ninguém fala nada. Ser mulher é sempre ter alguém tentando justificar o seu sucesso - dão justificativas e não aplausos. E a gente não precisa de justificativas.

Como é lidar com a rivalidade entre mulheres sob os holofotes?

Eu sou uma pessoa muito tranquila, procuro não ter desavenças. Já aconteceu de ter uma pessoa que pirou – as pessoas têm ego inflado, orgulho demais. Ela ficou me atacando por um tempo, dizia que eu queria roubar o lugar dela, que eu não era verdadeira. O que eu fiz? Me afastei, não discuti porque não fico brigando com mulher, nem com ninguém, por coisas bobas, por ego. O tempo passou e hoje a gente é amiga. Ela viu que não ia adiantar. E eu estava lá, esperando por ela. Já aconteceu de virem me agredir por competição. Passou um tempo, perdoei a pessoa. Mas é difícil explicar isso para os outros, as pessoas carregam muito rancor e ódio umas das outras. E as mulheres são competitivas. Eu acho todo mundo lindo... Se você não tiver uma peça de roupa e eu tiver, vou dá-la a você... Fico mais feliz de ver os outros felizes, minha família inteira é assim. Quando eu virei artista, vi que não dava para ser desse jeito, porque as pessoas acham que a gente é boba. O fato de eu ter um certo destaque e agir dessa forma incentiva outras pessoas a serem assim também. Eu nunca briguei com mulher por causa de homem. Já aconteceu de uma ir atrás do meu boy e eu ligar para ela e dizer que estava tudo bem. Fui lá e dei na cara dele. Ele é quem tem que apanhar! Mentira, ninguém tem que apanhar [risos].

Você foi muito cobrada pela demora para lançar um disco e agora está na fase final da produção dele. O que pode falar sobre o projeto?

Não queria lançar um álbum porque tinha que lançar. Não nasci para ser assim. Me disseram que eu não ia conseguir me manter no mercado se eu não lançasse um single por mês. Me afastei e fui fazer campanhas publicitárias. Virei personalidade, não cantora. Eu estava há cinco anos anunciando um álbum que nunca existiu.

Em agosto, gravei 11 faixas, sem cobrança, sem me comportar como uma máquina. Esse disco tem uma sonoridade bem ampla, gostosa. Ele vem com a minha cara, uma coisa mais madura, focada na solução. Me perguntam se vou falar de feminismo, racismo, como se a mulher negra só tivesse isso para falar. Eu também sei o que é saudade, o que é querer transar com um cara e ir embora, querer só dançar... Tem tudo isso no meu disco. Tem uma música que chama “Dominatrix” que fala sobre a mulher dominar o homem. Tem uma bem pesada chamada “Caça”, que vai ser mais bate cabeça. Está carregado de informações.

 

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“Não quero falar do problema, quero ser a solução”, diz Karol Conka

Prestes a lançar álbum, artista participou de evento sobre mulheres na música e falou sobre feminismo e o momento atual da carreira para a Billboard Brasil

por Rebecca Silva em 19/03/2018

“Baguncei a divisão, esparramei. Peguei sua opinião, 1, 2, pisei”, anunciava Karol Conka há quatro anos, quando lançou “Tombei”, seu primeiro single de alcance nacional. Desde então, ela cresceu, como mulher e como personalidade, participando de inúmeras campanhas de gigantes da publicidade, além de apresentar o Superbonita, no GNT. Mais do que uma cantora e rapper, tornou-se referência de feminismo e empoderamento na música brasileira.

Karol participou, na última sexta-feira (16/03), do Women’s Music Event, em São Paulo, em painel dedicado ao rap: como o movimento, que nasceu no gueto, tornou-se uma das maiores forças da música pop. No bate-papo, a cantora falou sobre as cobranças que sofreu na carreira, principalmente para falar sobre militância, por cantar rap. “Se eu mergulhar no sofrimento, não tem Karol. Sou muito intensa. Não quero falar do problema, quero ser a solução.”

Depois do painel, a cantora recebeu a Billboard Brasil no camarim, onde falou sobre feminismo, militância e seu próximo álbum. 

O feminismo tem passado por uma onda de renovação, com movimentos surgindo em diferentes áreas e mulheres se posicionando e denunciando abusos. Como você descobriu o feminismo e como ele influenciou sua vida pessoal e profissional?

Eu descobri que era feminista quando lancei um álbum. As pessoas começaram a falar muito sobre isso. E eu me perguntei: “O que é isso, afinal?”. Eu vi que era tudo que eu já sabia, que minha mãe me ensinava, só não tinha um nome. Eu percebi o quanto as pessoas não entendem ainda o que é o feminismo e enxergam isso como uma coisa chata. Eu já vi artistas se posicionando com frases do tipo: “Sou feminista, mas não daquelas radicais”. Isso soa como se houvesse exceções de feministas e não é assim. Já ouvi também: “Você é a única feminista de quem eu gosto”. Fiquei pensando na minha imagem como feminista para quem não entende do assunto. Tento passar isso de uma maneira leve, não propositalmente, mas porque eu sou assim. Se você chegar na agressividade para falar com uma pessoa ignorante, ela não vai te ouvir. Se você chegar sendo mais inteligente, mais maduro, ela vai ouvir o teu discurso. Acho que o feminismo é muito importante, sim. Muita gente usa a palavra para falar sobre determinados assuntos, mas vira a esquina e comete um ato horrível. No meu novo disco, não tem a palavra propriamente dita. Mas o álbum é meu, eu sou feminista, então é óbvio que as músicas ressaltam o poder das mulheres, só não uso clichês, rótulos.

Você está em ascensão. Como é ser mulher na música brasileira hoje?

Ser mulher hoje continua sendo desafiador, sempre vai ser. Eu não acredito que eu vá viver para ver a mudança, pelo retrocesso pelo qual estamos passando. Ao mesmo tempo é atraente, para nós e para quem está assistindo. No sentido de: “Olha como elas são poderosas, sobem no palco, são empresárias, empreendedoras, donas da própria carreira”. Quando a Anitta começou a cuidar da própria carreira, muitos disseram que não daria certo porque ela é mulher, da favela, enquanto muitos homens fazem isso e ninguém fala nada. Ser mulher é sempre ter alguém tentando justificar o seu sucesso - dão justificativas e não aplausos. E a gente não precisa de justificativas.

Como é lidar com a rivalidade entre mulheres sob os holofotes?

Eu sou uma pessoa muito tranquila, procuro não ter desavenças. Já aconteceu de ter uma pessoa que pirou – as pessoas têm ego inflado, orgulho demais. Ela ficou me atacando por um tempo, dizia que eu queria roubar o lugar dela, que eu não era verdadeira. O que eu fiz? Me afastei, não discuti porque não fico brigando com mulher, nem com ninguém, por coisas bobas, por ego. O tempo passou e hoje a gente é amiga. Ela viu que não ia adiantar. E eu estava lá, esperando por ela. Já aconteceu de virem me agredir por competição. Passou um tempo, perdoei a pessoa. Mas é difícil explicar isso para os outros, as pessoas carregam muito rancor e ódio umas das outras. E as mulheres são competitivas. Eu acho todo mundo lindo... Se você não tiver uma peça de roupa e eu tiver, vou dá-la a você... Fico mais feliz de ver os outros felizes, minha família inteira é assim. Quando eu virei artista, vi que não dava para ser desse jeito, porque as pessoas acham que a gente é boba. O fato de eu ter um certo destaque e agir dessa forma incentiva outras pessoas a serem assim também. Eu nunca briguei com mulher por causa de homem. Já aconteceu de uma ir atrás do meu boy e eu ligar para ela e dizer que estava tudo bem. Fui lá e dei na cara dele. Ele é quem tem que apanhar! Mentira, ninguém tem que apanhar [risos].

Você foi muito cobrada pela demora para lançar um disco e agora está na fase final da produção dele. O que pode falar sobre o projeto?

Não queria lançar um álbum porque tinha que lançar. Não nasci para ser assim. Me disseram que eu não ia conseguir me manter no mercado se eu não lançasse um single por mês. Me afastei e fui fazer campanhas publicitárias. Virei personalidade, não cantora. Eu estava há cinco anos anunciando um álbum que nunca existiu.

Em agosto, gravei 11 faixas, sem cobrança, sem me comportar como uma máquina. Esse disco tem uma sonoridade bem ampla, gostosa. Ele vem com a minha cara, uma coisa mais madura, focada na solução. Me perguntam se vou falar de feminismo, racismo, como se a mulher negra só tivesse isso para falar. Eu também sei o que é saudade, o que é querer transar com um cara e ir embora, querer só dançar... Tem tudo isso no meu disco. Tem uma música que chama “Dominatrix” que fala sobre a mulher dominar o homem. Tem uma bem pesada chamada “Caça”, que vai ser mais bate cabeça. Está carregado de informações.