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Projeto que transforma rappers em super-heróis de HQ ganha exposição em São Paulo

20 ilustrações de “Rap em Quadrinhos” foram escolhidas para mostra, que inicia em 20 de outubro, na Central Panelaço

por Rebecca Silva em 18/10/2018

Wagner Ramari tem o trabalho que muitos designers sonhariam em ter: durante o dia, trabalha na Maurício de Sousa Produções; durante a noite, desenha rappers como super-heróis para o projeto “Rap em Quadrinhos” e bomba no Instagram, com apoio dos próprios artistas.

De dia, cuida da comunicação, design de produtos e aprovação dos licenciados da Turma da Mônica, referência em quadrinhos para os brasileiros. Quem nunca leu uma revistinha da dentuça na infância? Foi ainda criança que Wagner começou a desenhar. Já à noite, une a paixão por quadrinhos com o amor pelo rap ao lado de Load, que também é fissurado nas histórias e tem até canal no YouTube sobre o assunto. 

A parceria, que começou quando Wagner expôs o seu trabalho anterior, em que retratava bandas de punk rock – outra paixão – também como super-heróis, rendeu frutos. Além do engajamento no Instagram [@w.loud], onde as ilustrações são publicadas e do apoio dos artistas e da imprensa, o projeto também vai ganhar uma exposição em São Paulo, na Central Panelaço, a partir do dia 20 de outubro.

Entre os retratados, nomes de diferentes gerações do rap brasileiro. Enquanto MV Bill é Luke Cage, Rincon Sapiência é Super Choque, Criolo é Senhor Destino, Mano Brown é Pantera Negra e Negra Li é Tempestade. A lista é longa e a criatividade vai longe.

Por isso, a Billboard Brasil conversou com Wagner Ramari sobre o projeto “Rap em Quadrinhos” e o processo de produção de cada ilustração. Leia o papo abaixo da galeria:

Black Alien como Doutor Estranho. 

Divulgação/Wagner Ramari

Mano Brown como Pantera Negra.

Divulgação/Wagner Ramari

Criolo como Senhor Destino. 

Divulgação/Wagner Ramari

Drik Barbosa como Riri Williams, Coração de Ferro.

Divulgação/Wagner Ramari

Emicida como Miles Morales, um dos personagens que tem a identidade de Homem-Aranha.

Divulgação/Wagner Ramari

Negra Li como Tempestade.

Divulgação/Wagner Ramari

Rincon Sapiência como Super-Choque.

Divulgação/Wagner Ramari

De onde surgiu a ideia de fazer essa série com rappers?

Em novembro do ano passado, fiz outra série, a “Punk Rock em Quadrinhos”. Fiz com as bandas que eu gostava, nove no total. Faltaram várias, mas já fiz nessa mesma pegada, colocando os artistas como heróis. Fiz uma exposição desse trabalho na Central Panelaço, loja do João Gordo no bairro do Bixiga, em São Paulo. O Gil [Santos], conhecido como Load nas redes, foi no evento para cobrir para o canal dele do YouTube. Trocamos ideia sobre como seria legal trabalharmos juntos. Estamos conversando desde então. Em agosto, desenhei o Emicida e mandei para o Load. Ele fez a ponte com o próprio Emicida, que achou demais. Começamos a postar, a galera gostou do trabalho. Tudo começou em uma conversa despretensiosa.

Quais são os critérios para escolher os personagens e os rappers correspondentes?

A gente conversa bastante. Mostro o rascunho para o Load, ele dá pitaco. É um trabalho em conjunto. Todos os artistas que a gente escolheu para o projeto são pessoas que gostamos, fica mais fácil. Escolhemos primeiro quem vamos representar e depois  como. Temos facilidade para traçar o paralelo porque lemos quadrinhos desde crianças, pesquisamos sobre o assunto. 

Quanto tempo demora para produzir cada desenho?

Eu costumo chegar do trabalho às 19h e lá pelas 23h, meia-noite, já está pronto. O lance é que estamos tão empolgados com o projeto que ficamos trocando ideia sobre isso o dia inteiro. Quando chego em casa, faço o desenho e acabou. Nem sinto sono mais [risos].

Nos comentários, a galera sempre pede o rapper que gosta, pede até quem não é do rap! Pediram pagode dos anos 1990, isso é muito maneiro. A gente chegou em um patamar muito legal que é mostrar histórias em quadrinho para a galera do rap que não conhecia esse universo e vice-versa. Mostrar que os dois são parecidos. Vários MCs citam filmes, falas clássicas de quadrinhos, livros, é uma cultura muito rica. Os comentários dão mais vontade de chegar em casa e fazer.

Estabeleci uma regra assim: temos que colocar um pessoal novo que está chegando agora, mas eu queria colocar a galera que escuto até hoje e o Load também. Fizemos uma lista e chegamos em 42 nomes. Vamos fazer até dar vontade, mas todo dia tem um comentário sugerindo alguém que não tínhamos lembrado. Dessa lista, já conversamos sobre quase todos, tem o paralelo traçado.  

Teve autorização dos artistas? Eles já procuraram para falar do projeto?

Dos que conseguimos o contato, mandamos. Dos que não, publicamos. Acaba sendo uma homenagem, se não gostarem, a gente tira do ar sem problemas, por ser a imagem de quem pede. Acho difícil alguém não gostar, porque não é por mau gosto, é homenagem porque gostamos, são personagens que gostamos. É bem verdadeiro. Já teve um que a gente mandou e a pessoa disse que não tinha a ver com o personagem escolhido e sugeriu outro que fez todo sentido, agregou muito ao projeto. Ter isso é muito louco porque são pessoas que admiramos. Sugestões, críticas e participações são bem-vindas.

Pantera Negra teve um impacto muito forte pela representatividade negra e pela trilha feita pelo Kendrick Lamar, o que tem uma ligação com o trabalho de vocês, né? Vocês colocam artistas negros na pele de heróis que sempre foram, na maioria, brancos. Como veem isso?

Todo mundo conhece os rappers americanos, aqui custou um pouquinho, ainda existe um preconceito de gente que torce o nariz para o estilo porque não conhece. É parar para ouvir. Se não gostou, tudo bem. Mas é tão rico, traz tanta informação, se fala do que não falam, mostra a realidade, mas também de cantar coisas legais, românticas. Eu acho que agora começou a tocar algumas coisas no rádio, tipo Emicida, tem o Criolo cantando com a Ivete Sangalo, estamos começando a ter essa aceitação no brasil.

A ideia inicial era só retratar o que a gente gosta. O primeiro foi o Emicida, colocamos ele como o Homem-Aranha do Miles Morales, do universo novo, um menino negro de 15 anos. Depois, fui fazendo outros que também procuramos heróis negros: Lanterna Verde negro, Super-Choque, Vixen, T’Challa, só que daí você vai pesquisando e vê que existem, mas são muito poucos e os que eu achava não combinavam com os artistas. Pensamos “porra, se estamos colocando heróis negros para mostrar que existem em HQ, é uma mentira, tem muito pouco, não vamos conseguir representar todos". Pegamos o Doutor Estranho, que é branco, e colocamos o Black Alien e veste como uma luva. E esse é um tapa na cara maior ainda. Depois que percebemos isso, a gente entendeu que precisava muito ter mais representatividade. Mesmo de mulheres, foi difícil. Achar mulher forte é difícil, acaba sendo bobo. Tem que ter negros, gays, mulheres escrevendo, desenhando, inseridos para representar as minorias, se não ficamos reféns dos brancos, héteros, homens, de classe média.

Alguma chance de o projeto ganhar outra versão em um novo ritmo?

Queria deixar só no rap, se não acaba estressando demais. Podia fazer um de pagode anos 1990, até estou pensando em outros projetos, mas não necessariamente com HQ. A ligação entre histórias em quadrinhos e o rap é muito peculiar, eles se completam demais. Representar nomes do sertanejo universitário na Liga da Justiça não faria sentido, nunca vi letra dessas músicas que fale desses assuntos, acho que não encaixa. O projeto foi criado para isso. O punk rock veio antes, mas não foi tão completo, justamente pelo encaixe.

 

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20 ilustrações de “Rap em Quadrinhos” foram escolhidas para mostra, que inicia em 20 de outubro, na Central Panelaço

por Rebecca Silva em 18/10/2018

Wagner Ramari tem o trabalho que muitos designers sonhariam em ter: durante o dia, trabalha na Maurício de Sousa Produções; durante a noite, desenha rappers como super-heróis para o projeto “Rap em Quadrinhos” e bomba no Instagram, com apoio dos próprios artistas.

De dia, cuida da comunicação, design de produtos e aprovação dos licenciados da Turma da Mônica, referência em quadrinhos para os brasileiros. Quem nunca leu uma revistinha da dentuça na infância? Foi ainda criança que Wagner começou a desenhar. Já à noite, une a paixão por quadrinhos com o amor pelo rap ao lado de Load, que também é fissurado nas histórias e tem até canal no YouTube sobre o assunto. 

A parceria, que começou quando Wagner expôs o seu trabalho anterior, em que retratava bandas de punk rock – outra paixão – também como super-heróis, rendeu frutos. Além do engajamento no Instagram [@w.loud], onde as ilustrações são publicadas e do apoio dos artistas e da imprensa, o projeto também vai ganhar uma exposição em São Paulo, na Central Panelaço, a partir do dia 20 de outubro.

Entre os retratados, nomes de diferentes gerações do rap brasileiro. Enquanto MV Bill é Luke Cage, Rincon Sapiência é Super Choque, Criolo é Senhor Destino, Mano Brown é Pantera Negra e Negra Li é Tempestade. A lista é longa e a criatividade vai longe.

Por isso, a Billboard Brasil conversou com Wagner Ramari sobre o projeto “Rap em Quadrinhos” e o processo de produção de cada ilustração. Leia o papo abaixo da galeria:

Black Alien como Doutor Estranho. 

Divulgação/Wagner Ramari

Mano Brown como Pantera Negra.

Divulgação/Wagner Ramari

Criolo como Senhor Destino. 

Divulgação/Wagner Ramari

Drik Barbosa como Riri Williams, Coração de Ferro.

Divulgação/Wagner Ramari

Emicida como Miles Morales, um dos personagens que tem a identidade de Homem-Aranha.

Divulgação/Wagner Ramari

Negra Li como Tempestade.

Divulgação/Wagner Ramari

Rincon Sapiência como Super-Choque.

Divulgação/Wagner Ramari

De onde surgiu a ideia de fazer essa série com rappers?

Em novembro do ano passado, fiz outra série, a “Punk Rock em Quadrinhos”. Fiz com as bandas que eu gostava, nove no total. Faltaram várias, mas já fiz nessa mesma pegada, colocando os artistas como heróis. Fiz uma exposição desse trabalho na Central Panelaço, loja do João Gordo no bairro do Bixiga, em São Paulo. O Gil [Santos], conhecido como Load nas redes, foi no evento para cobrir para o canal dele do YouTube. Trocamos ideia sobre como seria legal trabalharmos juntos. Estamos conversando desde então. Em agosto, desenhei o Emicida e mandei para o Load. Ele fez a ponte com o próprio Emicida, que achou demais. Começamos a postar, a galera gostou do trabalho. Tudo começou em uma conversa despretensiosa.

Quais são os critérios para escolher os personagens e os rappers correspondentes?

A gente conversa bastante. Mostro o rascunho para o Load, ele dá pitaco. É um trabalho em conjunto. Todos os artistas que a gente escolheu para o projeto são pessoas que gostamos, fica mais fácil. Escolhemos primeiro quem vamos representar e depois  como. Temos facilidade para traçar o paralelo porque lemos quadrinhos desde crianças, pesquisamos sobre o assunto. 

Quanto tempo demora para produzir cada desenho?

Eu costumo chegar do trabalho às 19h e lá pelas 23h, meia-noite, já está pronto. O lance é que estamos tão empolgados com o projeto que ficamos trocando ideia sobre isso o dia inteiro. Quando chego em casa, faço o desenho e acabou. Nem sinto sono mais [risos].

Nos comentários, a galera sempre pede o rapper que gosta, pede até quem não é do rap! Pediram pagode dos anos 1990, isso é muito maneiro. A gente chegou em um patamar muito legal que é mostrar histórias em quadrinho para a galera do rap que não conhecia esse universo e vice-versa. Mostrar que os dois são parecidos. Vários MCs citam filmes, falas clássicas de quadrinhos, livros, é uma cultura muito rica. Os comentários dão mais vontade de chegar em casa e fazer.

Estabeleci uma regra assim: temos que colocar um pessoal novo que está chegando agora, mas eu queria colocar a galera que escuto até hoje e o Load também. Fizemos uma lista e chegamos em 42 nomes. Vamos fazer até dar vontade, mas todo dia tem um comentário sugerindo alguém que não tínhamos lembrado. Dessa lista, já conversamos sobre quase todos, tem o paralelo traçado.  

Teve autorização dos artistas? Eles já procuraram para falar do projeto?

Dos que conseguimos o contato, mandamos. Dos que não, publicamos. Acaba sendo uma homenagem, se não gostarem, a gente tira do ar sem problemas, por ser a imagem de quem pede. Acho difícil alguém não gostar, porque não é por mau gosto, é homenagem porque gostamos, são personagens que gostamos. É bem verdadeiro. Já teve um que a gente mandou e a pessoa disse que não tinha a ver com o personagem escolhido e sugeriu outro que fez todo sentido, agregou muito ao projeto. Ter isso é muito louco porque são pessoas que admiramos. Sugestões, críticas e participações são bem-vindas.

Pantera Negra teve um impacto muito forte pela representatividade negra e pela trilha feita pelo Kendrick Lamar, o que tem uma ligação com o trabalho de vocês, né? Vocês colocam artistas negros na pele de heróis que sempre foram, na maioria, brancos. Como veem isso?

Todo mundo conhece os rappers americanos, aqui custou um pouquinho, ainda existe um preconceito de gente que torce o nariz para o estilo porque não conhece. É parar para ouvir. Se não gostou, tudo bem. Mas é tão rico, traz tanta informação, se fala do que não falam, mostra a realidade, mas também de cantar coisas legais, românticas. Eu acho que agora começou a tocar algumas coisas no rádio, tipo Emicida, tem o Criolo cantando com a Ivete Sangalo, estamos começando a ter essa aceitação no brasil.

A ideia inicial era só retratar o que a gente gosta. O primeiro foi o Emicida, colocamos ele como o Homem-Aranha do Miles Morales, do universo novo, um menino negro de 15 anos. Depois, fui fazendo outros que também procuramos heróis negros: Lanterna Verde negro, Super-Choque, Vixen, T’Challa, só que daí você vai pesquisando e vê que existem, mas são muito poucos e os que eu achava não combinavam com os artistas. Pensamos “porra, se estamos colocando heróis negros para mostrar que existem em HQ, é uma mentira, tem muito pouco, não vamos conseguir representar todos". Pegamos o Doutor Estranho, que é branco, e colocamos o Black Alien e veste como uma luva. E esse é um tapa na cara maior ainda. Depois que percebemos isso, a gente entendeu que precisava muito ter mais representatividade. Mesmo de mulheres, foi difícil. Achar mulher forte é difícil, acaba sendo bobo. Tem que ter negros, gays, mulheres escrevendo, desenhando, inseridos para representar as minorias, se não ficamos reféns dos brancos, héteros, homens, de classe média.

Alguma chance de o projeto ganhar outra versão em um novo ritmo?

Queria deixar só no rap, se não acaba estressando demais. Podia fazer um de pagode anos 1990, até estou pensando em outros projetos, mas não necessariamente com HQ. A ligação entre histórias em quadrinhos e o rap é muito peculiar, eles se completam demais. Representar nomes do sertanejo universitário na Liga da Justiça não faria sentido, nunca vi letra dessas músicas que fale desses assuntos, acho que não encaixa. O projeto foi criado para isso. O punk rock veio antes, mas não foi tão completo, justamente pelo encaixe.