NOTÍCIAS

“Quero responder a essas pessoas com trabalho”, diz Jão sobre críticas na internet

Cantor acaba de lançar seu disco de estreia, Lobos, no qual canta sobre os dilemas dos millennials com o amor e suas decepções

por Rebecca Silva em 17/08/2018

Quando a lua cheia cair sobre o sertão vazio, e iluminar a terra e seus corpos frios, anunciem em afoite. Saíam das ruas todos. Foi iniciado o expurgo da noite. É o arrebatamento dos desgraçados, malcriados, vagabundos. Um a um, ainda que em medo, irão todos. Pois que uivem alto os perdidos. A alcateia saúda os novos lobos.” É assim que Jão apresenta o seu disco de estreia, Lobos, lançado nesta sexta-feira (17 /08) pela Universal Music.

Ao ler esse manifesto e ver a capa do disco, você pode se confundir ao encontrar Jão pessoalmente. Ele nem um pouco se parece com uma pessoa das trevas e passa longe do sombrio. Mas isso tudo porque, segundo ele, não se mostra vulnerável no dia a dia, como se vestisse uma armadura. E é justamente do seu interior, como um uivo, que vem as lamúrias e a sofrimento que ele despejou nas faixas do disco em que canta sobre os dilemas, tropeços e decepções da sua geração, os famigerados millennials.

Elogiado pela crítica e com bons números nas plataformas - “Vou Morrer Sozinho”, primeiro single do disco, já entrou no Top 50 do Spotify –, Jão é descrito como promessa e revelação do pop brasileiro e já até reúne haters por onde passa. Na semana de lançamento, publicações nas redes sociais afirmaram que o cantor é visto como bonito e faz sucesso apenas por ser branco. Sobre as críticas, Jão é categórico: “Quero responder a essas pessoas com trabalho”.

Billboard Brasil conversou com o cantor sobre o processo criativo de Lobos, a vulnerabilidade na composição e, é claro, as críticas:

O primeiro single se chama “Vou Morrer Sozinho” e anuncia algo bem dramático, mas você o descreve como um dos mais felizes do disco. Como rolou essa escolha do single?

Quando eu escrevi a música, já me apaixonei por ela. Gosto quando faço músicas rápido, que é o que aconteceu com essa e não é muito comum. Ela surgiu de uma maneira muito fácil para mim. Quando ficou pronta, eu fiquei muito contente, então eu já tinha essa ideia de usar como primeiro single. Ela ficou brigando pelo posto com “Me Beija Com Raiva”, mas achei “Vou Morrer Sozinho” melhor para esse momento. Acho que é uma música diferente do que eu tinha feito antes, não no sentido de estar fazendo outra coisa, mas é uma evolução, algo que as pessoas não esperavam tanto. Ela antecede um álbum que é muito pop, muito brasileiro, e ela é o meio termo entre as faixas mais lentas e as mais agitadas. Se todas as músicas fossem emparelhadas, ela estaria no centro.

E essa brincadeira de trazer uma sonoridade mais animada e dançante para uma letra mais dramática foi algo pensado desde o início?

Sim. Eu queria uma música para todo mundo cantar junto. Fico imaginando no show, as pessoas cantando o refrão. Quando eu escrevi, já foi com ritmo de reggae, no violão. Quando levamos para o estúdio para produzir, eu falei para o produtor como eu imaginava a faixa. Ele pediu 15 minutos. Saí, bebi uma água. Quando voltei, estava toda estruturada. Ele disse que estava com medo de me mostrar, mas eu achei incrível. Quando você ouve com um fone bom… É uma preocupação, inclusive, até falei no Twitter para ouvirem com um fone bom. O grave que entra no refrão é o sentimento da música, quero que ouçam isso. Quando saiu, as pessoas pensavam que seria uma balada. Ela é dramática, mas eu queria dar esse tom de ironia porque a minha personalidade é muito sarcástica, principalmente com meus amigos, e isso transparece no single. Queria que existisse esse contraste. Ela já nasceu com essa cara de sem vergonha.

Você trouxe essa brincadeira para o clipe, que também poderia ser mórbido com a temática de cemitério e mortos-vivos, mas ficou divertido. Como surgiu o conceito?

Todas as partes da música têm a mesma história porque foi tudo muito rápido. Ela nasceu rápido, além de tudo ela tem só 2 minutos e 54 segundos de duração. Comecei a pensar na parte visual junto com esse trabalho na música. Na época, eu estava vendo muito os vídeos da Gucci com o Harry Styles, que são vídeos cômicos, mas não são escrachados. Gostei muito da forma que trataram o humor, queria esse sentimento que você ri, sem ser um Zorra Total [risos]. Quando planejamos o clipe, até tínhamos pensado em fazer umas maquiagens mais figurativas, mais trash, mas voltamos atrás justamente para não soar Zorra Total. Acho que conseguimos achar o balanço entre o estranho e o engraçadinho, mas que ainda é meio mórbido.

Aquela cena do bolo deve ter sido divertida de fazer…

Foi um pouco humilhante porque eu estava de cueca na frente de muitas pessoas... Eu estava muito preocupado que alguém ia tirar uma foto da minha bunda em cima do bolo [risos], mas deu tudo certo.

Você tem sido descrito constantemente de forma positiva, como “promessa” e “revelação” da música brasileira. Sente um peso por isso?

Sim. Eu mesmo me pressiono muito, mas quando eu não estava em uma gravadora, eu sentia a pressão de precisar ser visto, ser notado por alguém, o que era ruim porque, por muito tempo, ninguém quis me ouvir, ninguém quis me ver. Era a minha pressão comigo. Hoje, tem todo um time de pessoas que trabalham comigo e apostam naquilo comigo. Sinto que preciso ser a pessoa que vai alcançar os objetivos com o trabalho de todo mundo. Eu fico apreensivo para atender às expectativas de sempre crescer, fazer coisas legais. Mas é gostoso porque eu não esperava, fico muito feliz.

Junto com os elogios e essa visibilidade que você conseguiu com a gravadora, vem também as críticas. Nessa semana, rodou na internet uma foto criticando a sua aparência. Você está lançando o primeiro disco e já está vivenciando esse lado negativo. Como lida com isso?

Eu acho que as pessoas precisam arrumar algo para falar das outras para se sentirem melhor com elas mesmas. Antes de ter material lançado, de começar a ser visto, eu já era muito fã de música, então eu adorava entrar em sites e fóruns e nunca falei mal de ninguém. Nunca tive coragem de escrever nada de ninguém. Óbvio, a gente não gosta de algumas coisas e tudo bem, sabe? Eu não ligo se a pessoa falar que não gosta da minha música, que acha ruim. Para mim, tudo bem. Quando começa a entrar no âmbito pessoal, é complicado. É uma parada da pessoa, sabe? Me abala muito. Ontem, por essa publicação do Twitter, eu chorei de madrugada. Pensei: “Por quê? Eu não fiz nada”. E não é no sentido de “ai, não quero ser visto como feio”. O que me incomodou nessa postagem é que dizia que era privilégio branco eu ser assim e ser chamado de bonito. Tinha uns comentários tipo “só está no Top 50 do Spotify porque é branco”. Eu não quero entrar na discussão racial, mas as pessoas não me conhecem, não sabem o quanto eu trabalho, o quanto eu me esforço, o quanto me dedico e estudo para alcançar as coisas. Faz três anos que eu só faço isso, só penso nisso. Isso me incomoda, não reconhecerem meu esforço. Até ia responder, mas deixei de lado. Quero responder a essas pessoas com o trabalho.

No disco, você se abre e mostra sua vulnerabilidade, diferente de outras músicas que escondem os problemas e frustrações e exaltam as conquistas. Isso é natural para você? Funciona como uma terapia?

Acho que Lobos poderia ser chamado de “Divã" também [risos]. Esse processo foi bem caótico para mim. Eu não sou uma pessoa vulnerável no meu dia a dia, tenho uma casca… Nem sei direito qual palavra usar, mas eu me resguardo, sabe? Eu tento não me abalar com as coisas. Então expor coisas internas é um pouco difícil para mim. Sempre escrevi pensando em coisas da minha vida, mas nunca de uma forma tão íntima. Eu até duvidava quando os artistas falavam que tal música era muito pessoal. Eu pensava: “Balela! Alguém escreveu e você se identificou”. O que não tem problema nenhum. Eu estava um pouco cansado de ouvir o quanto tudo está lindo e maravilhoso porque, às vezes, não está e eu queria muito falar sobre isso. Passei muito por isso na minha infância e acabou transparecendo. Eu sou super duro na vida, mas na música eu me abro. É a forma como consigo me comunicar, falar com as pessoas.

jao
Divulgação/Hudson Renan

O interessante é que, apesar de o disco falar sobre você, são histórias que marcam a geração atual de jovens, que se perdem com tanta liberdade, que estão sempre em busca de algo, de alguém.

Ao mesmo tempo que isso rola muito com relacionamentos, acho que é um reflexo do que sentimos internamente, sabe? Essa solidão, essa falta de aceitação. Isso transparece nos relacionamentos.

Você pensou nisso por amigos estarem passando pela mesma coisa ou apenas se fechou para as suas experiências?

Eu tenho poucos amigos, mas muito bons. A gente é muito confidente um do outro. Então tudo que as pessoas me falam e eu absorvo acaba transparecendo. Eu não pensei em fazer uma música sobre minha amiga, mas acaba transparecendo porque é um sentimento real. Lembro que quando entramos na faculdade, tínhamos uma clareza muito grande de que ficaríamos cinco anos ali, que seria um período doido em que iríamos para festas, beijaríamos todo mundo e tal. Conforme a gente foi crescendo e amadurecendo, passamos por vários estágios da vida juntos. Todos os meus amigos já se formaram, menos eu, óbvio [risos], mas vi que estava todo mundo na mesma vibe. Tinha gente desesperada porque não sabia o que fazer da vida, fez cinco anos de faculdade e não queria seguir aquela carreira. Ou nem tanto profissional, nos relacionamentos também. Estar em São Paulo aflora isso de um amor mais libertário.

Você sentiu muita diferença quando se mudou do interior para a capital?

Sim, mas foi um choque bom. Eu era muito jeca, não sabia andar de metrô. Eu morava na Rua da Consolação [centro de São Paulo], em um quarto que ficava na entrada da casa, então todo mundo que entrava, passava pelo meu quarto. A Avenida Paulista era muito perto da minha casa, mas eu pegava um táxi para ir até lá. Eu não tinha um tostão, mas eu gastava com táxi por ter medo de me perder. Mas daí eu fui crescendo e aprendendo.

Você fala da sua mãe em várias músicas do disco. Ela era realmente muito preocupada com você e com o horário que ia voltar para casa?

Muito. Ela é a epítome dessa figura, muito coruja. Ela sempre fala que é uma “mãe leoa”, ama esse papel de mãe. Ela sempre me protegeu muito nesse sentido físico mesmo, de se preocupar comigo, e eu sempre fui uma criança meio problema, então a gente tem uma relação muito próxima. Eu a cito nas músicas porque é sobre eu vivendo minha liberdade, correndo meus riscos, aprendendo com meus erros. Ela é incrível. Minha mãe é uma pessoa iluminada. Eu não conheço pessoa mais honesta, mais trabalhadora. Meu pai também! Ele está enciumado, veio falar para mim que não falo de pai em nenhuma música e eu disse que não rimava, para dar uma tapeada [risos].

A capa do disco traz um poema, como um manifesto, e você também publicou no seu Instagram um texto explicando o seu sentimento sobre o projeto. Sentiu uma necessidade de se explicar além das músicas?

Acho que não foi uma necessidade, foi só o que aconteceu. Acho que fazia parte do projeto. Esse poema a gente fez para ser um manifesto mesmo e eu acho que deu super certo. A carta do Instagram foi uma forma de abrir as pessoas para o que estava por vir, foi a primeira vez que eu falei sobre o disco de maneira mais aberta. Foi um pequeno corte para a ferida abrir mais tarde.

Na outra entrevista, você ainda estava no processo de produção do disco e definiu esse trabalho como desafiador. Agora que ele está saindo do forno, ainda usa a mesma palavra para descrevê-lo?

É muito louco. Estou há duas semanas sem dormir porque estamos fazendo muita coisa e eu sempre me envolvo em tudo. É um pouco ruim, eu não me orgulho disso. Eu gostaria de deitar e simplesmente esquecer, já que tem alguém cuidando disso. Não consigo, preciso saber de tudo, acompanhar tudo. Quando der uma esfriada, eu vou chorar com certeza. Aquela sensação de “nasceu”, gestei esse filho por seis meses [risos]. Dá um medo gostoso, né? Eu tenho uma visão muito clara das músicas, sei o que elas querem dizer, me orgulho muito dos sons que alcançamos, mas não sei como as pessoas vão encarar tudo isso.

 

 

  • HOT 100
    BRASIL
  • BILLBOARD
    200
  • HOT 100
    EUA
1
Zé da Recaída
Gusttavo Lima
2
Sofázinho (Part. Jorge & Mateus)
Luan Santana
3
Atrasadinha (Part. Ferrugem)
Felipe Araújo
4
Só Pra Castigar
Wesley Safadão
5
Notificação Preferida
Zé Neto & Cristiano
RANKING COMPLETO
NOTÍCIAS

“Quero responder a essas pessoas com trabalho”, diz Jão sobre críticas na internet

Cantor acaba de lançar seu disco de estreia, Lobos, no qual canta sobre os dilemas dos millennials com o amor e suas decepções

por Rebecca Silva em 17/08/2018

Quando a lua cheia cair sobre o sertão vazio, e iluminar a terra e seus corpos frios, anunciem em afoite. Saíam das ruas todos. Foi iniciado o expurgo da noite. É o arrebatamento dos desgraçados, malcriados, vagabundos. Um a um, ainda que em medo, irão todos. Pois que uivem alto os perdidos. A alcateia saúda os novos lobos.” É assim que Jão apresenta o seu disco de estreia, Lobos, lançado nesta sexta-feira (17 /08) pela Universal Music.

Ao ler esse manifesto e ver a capa do disco, você pode se confundir ao encontrar Jão pessoalmente. Ele nem um pouco se parece com uma pessoa das trevas e passa longe do sombrio. Mas isso tudo porque, segundo ele, não se mostra vulnerável no dia a dia, como se vestisse uma armadura. E é justamente do seu interior, como um uivo, que vem as lamúrias e a sofrimento que ele despejou nas faixas do disco em que canta sobre os dilemas, tropeços e decepções da sua geração, os famigerados millennials.

Elogiado pela crítica e com bons números nas plataformas - “Vou Morrer Sozinho”, primeiro single do disco, já entrou no Top 50 do Spotify –, Jão é descrito como promessa e revelação do pop brasileiro e já até reúne haters por onde passa. Na semana de lançamento, publicações nas redes sociais afirmaram que o cantor é visto como bonito e faz sucesso apenas por ser branco. Sobre as críticas, Jão é categórico: “Quero responder a essas pessoas com trabalho”.

Billboard Brasil conversou com o cantor sobre o processo criativo de Lobos, a vulnerabilidade na composição e, é claro, as críticas:

O primeiro single se chama “Vou Morrer Sozinho” e anuncia algo bem dramático, mas você o descreve como um dos mais felizes do disco. Como rolou essa escolha do single?

Quando eu escrevi a música, já me apaixonei por ela. Gosto quando faço músicas rápido, que é o que aconteceu com essa e não é muito comum. Ela surgiu de uma maneira muito fácil para mim. Quando ficou pronta, eu fiquei muito contente, então eu já tinha essa ideia de usar como primeiro single. Ela ficou brigando pelo posto com “Me Beija Com Raiva”, mas achei “Vou Morrer Sozinho” melhor para esse momento. Acho que é uma música diferente do que eu tinha feito antes, não no sentido de estar fazendo outra coisa, mas é uma evolução, algo que as pessoas não esperavam tanto. Ela antecede um álbum que é muito pop, muito brasileiro, e ela é o meio termo entre as faixas mais lentas e as mais agitadas. Se todas as músicas fossem emparelhadas, ela estaria no centro.

E essa brincadeira de trazer uma sonoridade mais animada e dançante para uma letra mais dramática foi algo pensado desde o início?

Sim. Eu queria uma música para todo mundo cantar junto. Fico imaginando no show, as pessoas cantando o refrão. Quando eu escrevi, já foi com ritmo de reggae, no violão. Quando levamos para o estúdio para produzir, eu falei para o produtor como eu imaginava a faixa. Ele pediu 15 minutos. Saí, bebi uma água. Quando voltei, estava toda estruturada. Ele disse que estava com medo de me mostrar, mas eu achei incrível. Quando você ouve com um fone bom… É uma preocupação, inclusive, até falei no Twitter para ouvirem com um fone bom. O grave que entra no refrão é o sentimento da música, quero que ouçam isso. Quando saiu, as pessoas pensavam que seria uma balada. Ela é dramática, mas eu queria dar esse tom de ironia porque a minha personalidade é muito sarcástica, principalmente com meus amigos, e isso transparece no single. Queria que existisse esse contraste. Ela já nasceu com essa cara de sem vergonha.

Você trouxe essa brincadeira para o clipe, que também poderia ser mórbido com a temática de cemitério e mortos-vivos, mas ficou divertido. Como surgiu o conceito?

Todas as partes da música têm a mesma história porque foi tudo muito rápido. Ela nasceu rápido, além de tudo ela tem só 2 minutos e 54 segundos de duração. Comecei a pensar na parte visual junto com esse trabalho na música. Na época, eu estava vendo muito os vídeos da Gucci com o Harry Styles, que são vídeos cômicos, mas não são escrachados. Gostei muito da forma que trataram o humor, queria esse sentimento que você ri, sem ser um Zorra Total [risos]. Quando planejamos o clipe, até tínhamos pensado em fazer umas maquiagens mais figurativas, mais trash, mas voltamos atrás justamente para não soar Zorra Total. Acho que conseguimos achar o balanço entre o estranho e o engraçadinho, mas que ainda é meio mórbido.

Aquela cena do bolo deve ter sido divertida de fazer…

Foi um pouco humilhante porque eu estava de cueca na frente de muitas pessoas... Eu estava muito preocupado que alguém ia tirar uma foto da minha bunda em cima do bolo [risos], mas deu tudo certo.

Você tem sido descrito constantemente de forma positiva, como “promessa” e “revelação” da música brasileira. Sente um peso por isso?

Sim. Eu mesmo me pressiono muito, mas quando eu não estava em uma gravadora, eu sentia a pressão de precisar ser visto, ser notado por alguém, o que era ruim porque, por muito tempo, ninguém quis me ouvir, ninguém quis me ver. Era a minha pressão comigo. Hoje, tem todo um time de pessoas que trabalham comigo e apostam naquilo comigo. Sinto que preciso ser a pessoa que vai alcançar os objetivos com o trabalho de todo mundo. Eu fico apreensivo para atender às expectativas de sempre crescer, fazer coisas legais. Mas é gostoso porque eu não esperava, fico muito feliz.

Junto com os elogios e essa visibilidade que você conseguiu com a gravadora, vem também as críticas. Nessa semana, rodou na internet uma foto criticando a sua aparência. Você está lançando o primeiro disco e já está vivenciando esse lado negativo. Como lida com isso?

Eu acho que as pessoas precisam arrumar algo para falar das outras para se sentirem melhor com elas mesmas. Antes de ter material lançado, de começar a ser visto, eu já era muito fã de música, então eu adorava entrar em sites e fóruns e nunca falei mal de ninguém. Nunca tive coragem de escrever nada de ninguém. Óbvio, a gente não gosta de algumas coisas e tudo bem, sabe? Eu não ligo se a pessoa falar que não gosta da minha música, que acha ruim. Para mim, tudo bem. Quando começa a entrar no âmbito pessoal, é complicado. É uma parada da pessoa, sabe? Me abala muito. Ontem, por essa publicação do Twitter, eu chorei de madrugada. Pensei: “Por quê? Eu não fiz nada”. E não é no sentido de “ai, não quero ser visto como feio”. O que me incomodou nessa postagem é que dizia que era privilégio branco eu ser assim e ser chamado de bonito. Tinha uns comentários tipo “só está no Top 50 do Spotify porque é branco”. Eu não quero entrar na discussão racial, mas as pessoas não me conhecem, não sabem o quanto eu trabalho, o quanto eu me esforço, o quanto me dedico e estudo para alcançar as coisas. Faz três anos que eu só faço isso, só penso nisso. Isso me incomoda, não reconhecerem meu esforço. Até ia responder, mas deixei de lado. Quero responder a essas pessoas com o trabalho.

No disco, você se abre e mostra sua vulnerabilidade, diferente de outras músicas que escondem os problemas e frustrações e exaltam as conquistas. Isso é natural para você? Funciona como uma terapia?

Acho que Lobos poderia ser chamado de “Divã" também [risos]. Esse processo foi bem caótico para mim. Eu não sou uma pessoa vulnerável no meu dia a dia, tenho uma casca… Nem sei direito qual palavra usar, mas eu me resguardo, sabe? Eu tento não me abalar com as coisas. Então expor coisas internas é um pouco difícil para mim. Sempre escrevi pensando em coisas da minha vida, mas nunca de uma forma tão íntima. Eu até duvidava quando os artistas falavam que tal música era muito pessoal. Eu pensava: “Balela! Alguém escreveu e você se identificou”. O que não tem problema nenhum. Eu estava um pouco cansado de ouvir o quanto tudo está lindo e maravilhoso porque, às vezes, não está e eu queria muito falar sobre isso. Passei muito por isso na minha infância e acabou transparecendo. Eu sou super duro na vida, mas na música eu me abro. É a forma como consigo me comunicar, falar com as pessoas.

jao
Divulgação/Hudson Renan

O interessante é que, apesar de o disco falar sobre você, são histórias que marcam a geração atual de jovens, que se perdem com tanta liberdade, que estão sempre em busca de algo, de alguém.

Ao mesmo tempo que isso rola muito com relacionamentos, acho que é um reflexo do que sentimos internamente, sabe? Essa solidão, essa falta de aceitação. Isso transparece nos relacionamentos.

Você pensou nisso por amigos estarem passando pela mesma coisa ou apenas se fechou para as suas experiências?

Eu tenho poucos amigos, mas muito bons. A gente é muito confidente um do outro. Então tudo que as pessoas me falam e eu absorvo acaba transparecendo. Eu não pensei em fazer uma música sobre minha amiga, mas acaba transparecendo porque é um sentimento real. Lembro que quando entramos na faculdade, tínhamos uma clareza muito grande de que ficaríamos cinco anos ali, que seria um período doido em que iríamos para festas, beijaríamos todo mundo e tal. Conforme a gente foi crescendo e amadurecendo, passamos por vários estágios da vida juntos. Todos os meus amigos já se formaram, menos eu, óbvio [risos], mas vi que estava todo mundo na mesma vibe. Tinha gente desesperada porque não sabia o que fazer da vida, fez cinco anos de faculdade e não queria seguir aquela carreira. Ou nem tanto profissional, nos relacionamentos também. Estar em São Paulo aflora isso de um amor mais libertário.

Você sentiu muita diferença quando se mudou do interior para a capital?

Sim, mas foi um choque bom. Eu era muito jeca, não sabia andar de metrô. Eu morava na Rua da Consolação [centro de São Paulo], em um quarto que ficava na entrada da casa, então todo mundo que entrava, passava pelo meu quarto. A Avenida Paulista era muito perto da minha casa, mas eu pegava um táxi para ir até lá. Eu não tinha um tostão, mas eu gastava com táxi por ter medo de me perder. Mas daí eu fui crescendo e aprendendo.

Você fala da sua mãe em várias músicas do disco. Ela era realmente muito preocupada com você e com o horário que ia voltar para casa?

Muito. Ela é a epítome dessa figura, muito coruja. Ela sempre fala que é uma “mãe leoa”, ama esse papel de mãe. Ela sempre me protegeu muito nesse sentido físico mesmo, de se preocupar comigo, e eu sempre fui uma criança meio problema, então a gente tem uma relação muito próxima. Eu a cito nas músicas porque é sobre eu vivendo minha liberdade, correndo meus riscos, aprendendo com meus erros. Ela é incrível. Minha mãe é uma pessoa iluminada. Eu não conheço pessoa mais honesta, mais trabalhadora. Meu pai também! Ele está enciumado, veio falar para mim que não falo de pai em nenhuma música e eu disse que não rimava, para dar uma tapeada [risos].

A capa do disco traz um poema, como um manifesto, e você também publicou no seu Instagram um texto explicando o seu sentimento sobre o projeto. Sentiu uma necessidade de se explicar além das músicas?

Acho que não foi uma necessidade, foi só o que aconteceu. Acho que fazia parte do projeto. Esse poema a gente fez para ser um manifesto mesmo e eu acho que deu super certo. A carta do Instagram foi uma forma de abrir as pessoas para o que estava por vir, foi a primeira vez que eu falei sobre o disco de maneira mais aberta. Foi um pequeno corte para a ferida abrir mais tarde.

Na outra entrevista, você ainda estava no processo de produção do disco e definiu esse trabalho como desafiador. Agora que ele está saindo do forno, ainda usa a mesma palavra para descrevê-lo?

É muito louco. Estou há duas semanas sem dormir porque estamos fazendo muita coisa e eu sempre me envolvo em tudo. É um pouco ruim, eu não me orgulho disso. Eu gostaria de deitar e simplesmente esquecer, já que tem alguém cuidando disso. Não consigo, preciso saber de tudo, acompanhar tudo. Quando der uma esfriada, eu vou chorar com certeza. Aquela sensação de “nasceu”, gestei esse filho por seis meses [risos]. Dá um medo gostoso, né? Eu tenho uma visão muito clara das músicas, sei o que elas querem dizer, me orgulho muito dos sons que alcançamos, mas não sei como as pessoas vão encarar tudo isso.