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“Sem partido, sem sigla, sem cor”, diz Projota sobre novo single “Sr. Presidente”

Em entrevista, rapper afirma que música retrata a desigualdade vivida no país que nunca elegeu alguém que não decepcionasse em algum momento

por Rebecca Silva em 16/08/2018

A poucos meses das eleições presidenciais, o rapper Projota escolheu esta quinta-feira (16/08) para lançar o single “Sr. Presidente”. A música fala sobre as mazelas do país e a desigualdade que marca o dia a dia do brasileiro, com críticas aos políticos que fecham os olhos para os pedidos da população. “Vontade a gente tem mas não tem onde trabalhar, justiça a gente tem mas só pra quem pode pagar,” canta o rapper em mais uma faixa política, que sucede o lançamento de “MayDay”.

Em entrevista à Billboard Brasil, Projota falou sobre o processo criativo por trás da música, que contou até com pedido de batidas para os seguidores no Instagram, a resistência das rádios para tocar o single e a responsabilidade de cantar o cotidiano para o público jovem:

Para início de conversa, o que o motivou a escrever essa faixa e lançar como single?

Eu tinha o nome da música, foi um processo diferente, não me lembro de outra música minha cujo nome tenha surgido primeiro. Tinha só “Sr. Presidente”, como se eu fosse trocar uma ideia com o cara. Pensei que dava um caldo. Um dia, no avião, me veio o refrão inteiro na cabeça, escrevi sem a melodia. Depois, deixei isso guardado e fiquei esperando o momento certo. Joguei um vídeo no Instagram pedindo pro pessoal me mandar batidas. O último single que lancei, “MayDay”, também foi assim. Recebi umas dez mil batidas e ouvi todas. Quando ouvia algo que mexia comigo, eu fazia uma música. Acabei escrevendo dez músicas em seis dias. “Sr. Presidente” era só violão, nem era batida. Produzimos em cima do riff enviado.

Foi um tanto ousado da nossa parte ela ser single. Tenho presenciado uma resistência de rádios, de não quererem tocar. Era natural e a gente até esperava algo assim. E você vê que é um bom motivo para os artistas não lançarem essas músicas, já que a rádio não toca. Ao longo dos anos da minha carreira, consegui construir uma relação com as rádios, mas porque a maioria das músicas é romântica. Quando tentamos lançar algo assim, há uma resistência bem forte... Não está fácil esse trabalho... Mas, ao mesmo tempo, temos uma abertura muito boa da imprensa e isso gera conteúdo bacana, perco de um lado e ganho do outro.

E agora vocês não são tão dependentes das rádios hoje em dia graças à internet, né?

Sim, sim. Tem vários hits, do funk principalmente, que você nunca vai ouvir nas rádios e o artista tem 200 milhões de acessos. A gente está acreditando nisso. Precisamos falar o que as pessoas precisam ouvir e não só o que elas estão acostumadas ou querem ouvir. Por exemplo, “Moleque de Vila” é minha música mais vista no YouTube, muito mais do que “Hoje Ela Só Quer Paz”, pela qual ganhei vários prêmios. Ela fala de superação, de dificuldades. “Sr. Presidente” é uma música sem partido, sem sigla, sem cor. É do Brasil, bandeira branca da paz. A mensagem se torna universal, todo mundo está insatisfeito, principalmente quem está numa situação difícil. E é pra essas pessoas que eu canto.

Em outra entrevista, você definiu o seu público como majoritariamente jovens entre 15 e 22 anos e que, por isso, sentia a responsabilidade de falar com pessoas que ainda estão em formação. Isso também o motiva a fazer esse estilo de rap, de falar de política?

Eu comecei a fazer música por causa disso. Componho desde muito cedo, mas quando o rap chegou na minha vida, aos 15 anos, ele já conversou comigo porque eu sentia necessidade de falar. O que eu ouvia MV Bill falar, Racionais falar, eu também sentia vontade de falar. É algo que estava interno em mim, então eu nunca parei. Em todos os discos vem algo assim. Uma mensagem que fica muito clara no meu trabalho é de autoestima para essa molecada, de funcionar como exemplo de superação para eles. É uma responsabilidade. É importante sim falar com eles. Muitas vezes é uma identificação que simplesmente surge. Quando canto algo assim, os jovens que também têm essa vontade em si, se veem representados, compram o discurso. Alguns estão em outra vibe, não tem essa revolta dentro de si, mas eu tinha desde novo. Ver os problemas do bairro mexiam comigo, não ter lugar para jogar bola mexia comigo, ver a molecada cabulando aula mexia comigo, ver os alunos disputando quem era o pior mexia comigo. Eu era do tipo que disputava pra ver quem terminava primeiro a lição, sabe? Sinto que tem uma grande parcela dessa juventude que também é assim e eles precisam dessa representatividade. Eu sou um influenciador, né? Hoje em dia a gente usa tanto essa palavra pra quem não tem influência [risos]. Eu, de fato, sou, pela minha música, e faço questão de levar mensagem boa.

 projota
Divulgação/Haruo Kaneko

Você ficou apreensivo antes de lançar a música pelo momento delicado que vivemos, em que as pessoas estão inflamadas e inclinadas a ler e ver coisas sob a sua única ótica?

Exatamente por ser sem partido que não senti. Escrevi a música tentando ser o mais imparcial possível. Sou parcial pelo povo, por igualdade, para acabar com a miséria, por saúde e educação. Todo mundo acredita nisso e quer isso para o Brasil. É sobre isso que a música fala. Ela não tem lado, nem cor, nem sigla. Isso que é importante. Está difícil falar nas redes sociais hoje em dia. Tudo que você fala, sempre tem alguém para te xingar. É complicado. Todo mundo hoje expõe a opinião. Quando você é famoso, isso é ainda pior porque, com dois milhões de seguidores, vai ter sempre alguém que pensa diferente de você e faz questão de expor isso.

 

Como você lida com esses comentários nas redes sociais?

Tranquilo. O que eu não aceito é xingamento, agressividade, violência verbal. Se começarem a xingar, eu bloqueio mesmo. É minha rede. Agora, vir criticar o meu som de maneira saudável, construtiva, sem problemas. Quando tem confusão, me vejo na obrigação de dar uma segurada. É a minha casa, eu que mando aqui. Eu percebo que muitos artistas respondem a quem fala mal, mas não respondem a quem fala bem. A gente recebe muito mais comentário bom do que ruim, porque vem de quem acompanha e gosta do trabalho. Já percebi até os fãs reclamando disso para outros artistas. Então, eu não respondo quem fala coisa ruim. Se você for gastar seu tempo respondendo algo na internet, que seja algo positivo. Sinto que, às vezes, a pessoa responde pra causar uma polêmica, porque quer lacrar, né? [risos] Todo mundo quer lacrar nas respostas da internet. Eu não, eu estou fugindo da polêmica.

 

Essa sua relação com a política vem desde quando você era mais novo e já se incomodava com problemas locais ou a consciência só surgiu mesmo quando já era adulto?

Eu não entendo nada de política, mas entendo de não ter dinheiro para pagar aluguel. Ter que correr pra pagar a luz no fim do mês. Eu entendo a parte do povo, é de onde eu venho. Quando eu falo sobre a situação socioeconômica do país em uma música, falo dessas pessoas, de onde eu vim, o que eu vivi. Mesmo que eu tenha crescido, melhorado financeiramente, não posso deixar de falar sobre isso. Eu poderia, né? Sentar em uma poltrona, contando vil metal. Mas não é o que eu vou fazer porque foi isso que me trouxe aqui. Foram essas pessoas que me colocaram onde estou e são elas que pagam o meu salário. Eu tenho que falar por eles.

 

Você sente pressão, até vinda da cena do rap, de cantar mais sobre os problemas, de colocar o dedo na ferida, aproveitando a posição que você ocupa, com maior apelo popular?

Sinto mais dentro de mim, mesmo. Sinto essa necessidade. É algo que preciso fazer, ainda está dentro de mim. Antigamente, eu fazia quatro músicas por semana e soltava na internet. Hoje em dia, o trabalho é diferente, lanço umas seis músicas por ano, trabalho cada uma por uns dois meses. Dessa vez nem anunciamos álbum, vamos trabalhar em singles. Preciso dar uma dividida, é difícil entregar o que todo mundo quer. Um quer romântica, outro quer política, outro quer de superação, outro de pista. Eu também fico “e aí, não vai lançar música assim?” [risos]

 

Você vai trabalhar com singles agora, então?

Isso. Há uns dois meses, lancei “MayDay”, que é política também. Ao longo dos próximos meses, terão outros lançamentos. Acredito que mais para frente, quando já tiver uns seis singles lançados, eu faça uma compilação com algumas inéditas para lançar disco. O que é muito importante hoje é ter o visual. Mesmo quem lança só a música, você sabe que mais para a frente vem o clipe. O público está muito visual. 

 

Aproveitando o gancho, como foi o processo de produção do clipe deste single?

Eu tive a ideia das projeções e falei com Rafael, o diretor. Ele sugeriu fazer uma sala, com um túnel do tempo, e eu pensando naquilo, como se tudo estivesse passando pela minha cabeça. Nada fica óbvio, você precisa olhar com calma para as imagens para entender quando foi aquilo. Desde o início, pensamos em não trazer apenas imagens atuais. Quando falo “Sr. Presidente”, não falo só para o Temer ou para outros presidentes que já passaram, é sobre a história do Brasil. Somos órfãos desse pai, dessa mãe da Nação. Não conseguimos eleger ainda uma pessoa que não deu nenhuma decepção. A ideia do clipe é essa, mostrar desde o descobrimento do país até a greve dos caminhoneiros, recentemente. A música funciona desde quando não tinha presidente. A desigualdade foi plantada aqui desde a raiz. Vamos devolver para os índios [risos].

 

E a galera já pode esperar esses próximos lançamentos com as músicas que você criou naqueles seis dias?

Sim. Eu tive uma coisa divina. Acordei um dia sentindo que eu tinha que escrever. Quando eu acabei a décima música, eu sabia que não ia mais escrever. Foi Deus mesmo, falando comigo, de arrepiar. Virei uma chave, comecei a escrever sem parar, como um capítulo da Bíblia, algo psicografado. Foi surreal. Não que eu me sinta o escritor da Bíblia [risos]. Mas a sensação foi essa, de inspiração divina, em que escrevi, escrevi, escrevi por seis dias, e na hora que terminei, pensei: “Caramba, escrevi um disco em seis dias e descansei no sétimo”. Que louco! E a décima música fala de Deus, foi a primeira vez que escrevi uma música só sobre isso. Quando terminei, a chave virou para o outro lado e percebi que quando eu sentisse isso de novo, eu voltaria a compor. Depois disso, já sentei no estúdio para escrever e não saiu nada. E isso já faz meses. Como estou com folga, com dez músicas escritas, estou tranquilo. Quero que o que venha seja visceral, puro.

 

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“Sem partido, sem sigla, sem cor”, diz Projota sobre novo single “Sr. Presidente”

Em entrevista, rapper afirma que música retrata a desigualdade vivida no país que nunca elegeu alguém que não decepcionasse em algum momento

por Rebecca Silva em 16/08/2018

A poucos meses das eleições presidenciais, o rapper Projota escolheu esta quinta-feira (16/08) para lançar o single “Sr. Presidente”. A música fala sobre as mazelas do país e a desigualdade que marca o dia a dia do brasileiro, com críticas aos políticos que fecham os olhos para os pedidos da população. “Vontade a gente tem mas não tem onde trabalhar, justiça a gente tem mas só pra quem pode pagar,” canta o rapper em mais uma faixa política, que sucede o lançamento de “MayDay”.

Em entrevista à Billboard Brasil, Projota falou sobre o processo criativo por trás da música, que contou até com pedido de batidas para os seguidores no Instagram, a resistência das rádios para tocar o single e a responsabilidade de cantar o cotidiano para o público jovem:

Para início de conversa, o que o motivou a escrever essa faixa e lançar como single?

Eu tinha o nome da música, foi um processo diferente, não me lembro de outra música minha cujo nome tenha surgido primeiro. Tinha só “Sr. Presidente”, como se eu fosse trocar uma ideia com o cara. Pensei que dava um caldo. Um dia, no avião, me veio o refrão inteiro na cabeça, escrevi sem a melodia. Depois, deixei isso guardado e fiquei esperando o momento certo. Joguei um vídeo no Instagram pedindo pro pessoal me mandar batidas. O último single que lancei, “MayDay”, também foi assim. Recebi umas dez mil batidas e ouvi todas. Quando ouvia algo que mexia comigo, eu fazia uma música. Acabei escrevendo dez músicas em seis dias. “Sr. Presidente” era só violão, nem era batida. Produzimos em cima do riff enviado.

Foi um tanto ousado da nossa parte ela ser single. Tenho presenciado uma resistência de rádios, de não quererem tocar. Era natural e a gente até esperava algo assim. E você vê que é um bom motivo para os artistas não lançarem essas músicas, já que a rádio não toca. Ao longo dos anos da minha carreira, consegui construir uma relação com as rádios, mas porque a maioria das músicas é romântica. Quando tentamos lançar algo assim, há uma resistência bem forte... Não está fácil esse trabalho... Mas, ao mesmo tempo, temos uma abertura muito boa da imprensa e isso gera conteúdo bacana, perco de um lado e ganho do outro.

E agora vocês não são tão dependentes das rádios hoje em dia graças à internet, né?

Sim, sim. Tem vários hits, do funk principalmente, que você nunca vai ouvir nas rádios e o artista tem 200 milhões de acessos. A gente está acreditando nisso. Precisamos falar o que as pessoas precisam ouvir e não só o que elas estão acostumadas ou querem ouvir. Por exemplo, “Moleque de Vila” é minha música mais vista no YouTube, muito mais do que “Hoje Ela Só Quer Paz”, pela qual ganhei vários prêmios. Ela fala de superação, de dificuldades. “Sr. Presidente” é uma música sem partido, sem sigla, sem cor. É do Brasil, bandeira branca da paz. A mensagem se torna universal, todo mundo está insatisfeito, principalmente quem está numa situação difícil. E é pra essas pessoas que eu canto.

Em outra entrevista, você definiu o seu público como majoritariamente jovens entre 15 e 22 anos e que, por isso, sentia a responsabilidade de falar com pessoas que ainda estão em formação. Isso também o motiva a fazer esse estilo de rap, de falar de política?

Eu comecei a fazer música por causa disso. Componho desde muito cedo, mas quando o rap chegou na minha vida, aos 15 anos, ele já conversou comigo porque eu sentia necessidade de falar. O que eu ouvia MV Bill falar, Racionais falar, eu também sentia vontade de falar. É algo que estava interno em mim, então eu nunca parei. Em todos os discos vem algo assim. Uma mensagem que fica muito clara no meu trabalho é de autoestima para essa molecada, de funcionar como exemplo de superação para eles. É uma responsabilidade. É importante sim falar com eles. Muitas vezes é uma identificação que simplesmente surge. Quando canto algo assim, os jovens que também têm essa vontade em si, se veem representados, compram o discurso. Alguns estão em outra vibe, não tem essa revolta dentro de si, mas eu tinha desde novo. Ver os problemas do bairro mexiam comigo, não ter lugar para jogar bola mexia comigo, ver a molecada cabulando aula mexia comigo, ver os alunos disputando quem era o pior mexia comigo. Eu era do tipo que disputava pra ver quem terminava primeiro a lição, sabe? Sinto que tem uma grande parcela dessa juventude que também é assim e eles precisam dessa representatividade. Eu sou um influenciador, né? Hoje em dia a gente usa tanto essa palavra pra quem não tem influência [risos]. Eu, de fato, sou, pela minha música, e faço questão de levar mensagem boa.

 projota
Divulgação/Haruo Kaneko

Você ficou apreensivo antes de lançar a música pelo momento delicado que vivemos, em que as pessoas estão inflamadas e inclinadas a ler e ver coisas sob a sua única ótica?

Exatamente por ser sem partido que não senti. Escrevi a música tentando ser o mais imparcial possível. Sou parcial pelo povo, por igualdade, para acabar com a miséria, por saúde e educação. Todo mundo acredita nisso e quer isso para o Brasil. É sobre isso que a música fala. Ela não tem lado, nem cor, nem sigla. Isso que é importante. Está difícil falar nas redes sociais hoje em dia. Tudo que você fala, sempre tem alguém para te xingar. É complicado. Todo mundo hoje expõe a opinião. Quando você é famoso, isso é ainda pior porque, com dois milhões de seguidores, vai ter sempre alguém que pensa diferente de você e faz questão de expor isso.

 

Como você lida com esses comentários nas redes sociais?

Tranquilo. O que eu não aceito é xingamento, agressividade, violência verbal. Se começarem a xingar, eu bloqueio mesmo. É minha rede. Agora, vir criticar o meu som de maneira saudável, construtiva, sem problemas. Quando tem confusão, me vejo na obrigação de dar uma segurada. É a minha casa, eu que mando aqui. Eu percebo que muitos artistas respondem a quem fala mal, mas não respondem a quem fala bem. A gente recebe muito mais comentário bom do que ruim, porque vem de quem acompanha e gosta do trabalho. Já percebi até os fãs reclamando disso para outros artistas. Então, eu não respondo quem fala coisa ruim. Se você for gastar seu tempo respondendo algo na internet, que seja algo positivo. Sinto que, às vezes, a pessoa responde pra causar uma polêmica, porque quer lacrar, né? [risos] Todo mundo quer lacrar nas respostas da internet. Eu não, eu estou fugindo da polêmica.

 

Essa sua relação com a política vem desde quando você era mais novo e já se incomodava com problemas locais ou a consciência só surgiu mesmo quando já era adulto?

Eu não entendo nada de política, mas entendo de não ter dinheiro para pagar aluguel. Ter que correr pra pagar a luz no fim do mês. Eu entendo a parte do povo, é de onde eu venho. Quando eu falo sobre a situação socioeconômica do país em uma música, falo dessas pessoas, de onde eu vim, o que eu vivi. Mesmo que eu tenha crescido, melhorado financeiramente, não posso deixar de falar sobre isso. Eu poderia, né? Sentar em uma poltrona, contando vil metal. Mas não é o que eu vou fazer porque foi isso que me trouxe aqui. Foram essas pessoas que me colocaram onde estou e são elas que pagam o meu salário. Eu tenho que falar por eles.

 

Você sente pressão, até vinda da cena do rap, de cantar mais sobre os problemas, de colocar o dedo na ferida, aproveitando a posição que você ocupa, com maior apelo popular?

Sinto mais dentro de mim, mesmo. Sinto essa necessidade. É algo que preciso fazer, ainda está dentro de mim. Antigamente, eu fazia quatro músicas por semana e soltava na internet. Hoje em dia, o trabalho é diferente, lanço umas seis músicas por ano, trabalho cada uma por uns dois meses. Dessa vez nem anunciamos álbum, vamos trabalhar em singles. Preciso dar uma dividida, é difícil entregar o que todo mundo quer. Um quer romântica, outro quer política, outro quer de superação, outro de pista. Eu também fico “e aí, não vai lançar música assim?” [risos]

 

Você vai trabalhar com singles agora, então?

Isso. Há uns dois meses, lancei “MayDay”, que é política também. Ao longo dos próximos meses, terão outros lançamentos. Acredito que mais para frente, quando já tiver uns seis singles lançados, eu faça uma compilação com algumas inéditas para lançar disco. O que é muito importante hoje é ter o visual. Mesmo quem lança só a música, você sabe que mais para a frente vem o clipe. O público está muito visual. 

 

Aproveitando o gancho, como foi o processo de produção do clipe deste single?

Eu tive a ideia das projeções e falei com Rafael, o diretor. Ele sugeriu fazer uma sala, com um túnel do tempo, e eu pensando naquilo, como se tudo estivesse passando pela minha cabeça. Nada fica óbvio, você precisa olhar com calma para as imagens para entender quando foi aquilo. Desde o início, pensamos em não trazer apenas imagens atuais. Quando falo “Sr. Presidente”, não falo só para o Temer ou para outros presidentes que já passaram, é sobre a história do Brasil. Somos órfãos desse pai, dessa mãe da Nação. Não conseguimos eleger ainda uma pessoa que não deu nenhuma decepção. A ideia do clipe é essa, mostrar desde o descobrimento do país até a greve dos caminhoneiros, recentemente. A música funciona desde quando não tinha presidente. A desigualdade foi plantada aqui desde a raiz. Vamos devolver para os índios [risos].

 

E a galera já pode esperar esses próximos lançamentos com as músicas que você criou naqueles seis dias?

Sim. Eu tive uma coisa divina. Acordei um dia sentindo que eu tinha que escrever. Quando eu acabei a décima música, eu sabia que não ia mais escrever. Foi Deus mesmo, falando comigo, de arrepiar. Virei uma chave, comecei a escrever sem parar, como um capítulo da Bíblia, algo psicografado. Foi surreal. Não que eu me sinta o escritor da Bíblia [risos]. Mas a sensação foi essa, de inspiração divina, em que escrevi, escrevi, escrevi por seis dias, e na hora que terminei, pensei: “Caramba, escrevi um disco em seis dias e descansei no sétimo”. Que louco! E a décima música fala de Deus, foi a primeira vez que escrevi uma música só sobre isso. Quando terminei, a chave virou para o outro lado e percebi que quando eu sentisse isso de novo, eu voltaria a compor. Depois disso, já sentei no estúdio para escrever e não saiu nada. E isso já faz meses. Como estou com folga, com dez músicas escritas, estou tranquilo. Quero que o que venha seja visceral, puro.